Artes em Moçambique: O trajecto (fragmentado) em 45 anos de história

Artes em Moçambique: O trajecto (fragmentado) em 45 anos de história

Moçambique comemora, esta quinta-feira, o seu 45º aniversário de independência nacional. O percurso que marca a liberdade dos moçambicanos em relação à dominação colonial portuguesa foi feito com muitos eventos artísticos, das letras às artes plásticas, do teatro ao cinema ou da dança à música.

25 de Junho de 1975 foi o dia mais aguardado pelos moçambicanos que sofreram a opressão colonial portuguesa. Naquela data, o afamado Estádio da Machava recebeu nas suas bancadas e no recinto de jogos moçambicanos provenientes de todas as regiões do país. E não era para menos, afinal, tratava-se de testemunhar e celebrar a tão almejada independência nacional, feito que apenas se tornou possível graças à capacidade de união dos moçambicanos que, entre várias diferenças, deixaram-se guiar pelo mesmo propósito: libertar a pátria que ainda não havia nascido.

A precisamente 45 anos, entre o entusiamo da vitória e a emoção contida por muitos anos, moçambicanos de todas as cores gritaram numa só voz: viva a independência total e completa de Moçambique. Entre os filhos da Pátria Amada, guiados pelo primeiro Presidente de Moçambique, estiveram guerrilheiros, operários, camponeses, e, claro, os artistas, tão estimados por Samora Machel. De acordo com David Abílio, aquele foi o primeiro acto cultural de Moçambique independente, o que, inclusive, permitiu que se iniciasse ao longo do território nacional uma outra luta, a de fazer das artes o grande recurso na projecção de uma cultura plural, num país novo. É nesse contexto que é lançado, em 1978, o primeiro Festival Nacional de Dança Popular, dos mais bem-sucedidos no país.

Nos finais dos anos 70, identificada a relevância dos festivais no intercâmbio cultural e artístico, Moçambique apercebe-se que deveria apostar na construção de infra-estruturas artísticas e na formação de quadros capazes de fazer do património cultural nacional parte dos requisitos identitários de uma nação. Assim, um pouco antes de o país erguer instituições como Companhia Nacional de Canto e Dança, Escola Nacional de Música, o Instituto Nacional de Áudio Visual e Cinema, aparecem os primeiros directores da Direcção Nacional de Cultura: Gabriel Simbine (director) e Rui Nogar (adjunto-director. A eles coube o que permitiu a concretização da aproximação dos moçambicanos de diferentes regiões do país através nas manifestações artísticas e culturais.

Quer isto dizer que, logo à partida, a proclamação da independência nacional permitiu que ocorresse a grande revelação do potencial cultural moçambicano. Num estudo realizado por volta de 1978, foram identificadas mais de 200 danças tradicionais moçambicanas. Como consequência disso, a arte e a cultura tornam-se (e já eram), de facto, o centro da humanidade dos cidadãos nacionais. Nesse contexto, ao mesmo tempo que a dança se impõe um veículo notável na configuração de uma imagem de moçambicanidade, a música, com autores soberbos como Maestro Justino Chemane, não ficou atrás. Chemane foi autor do Primeiro Hino Nacional, “Viva, viva a FRELIMO”, que exaltava os feitos da Luta Armada, e a recém-conquistada independência Nacional. No seu currículo, consta uma participação forte na elaboração do Hino de África, “Hosi, Katekisa Africa”, tendo espalhado o seu saber por muitas igrejas além-fronteiras, criando laços de cooperação. “As suas canções foram sempre um instrumento de exortação para os moçambicanos se erguerem, com orgulho, levantando bem alto o nome de Moçambique e o orgulho de sermos africanos”, lembra o jornalista Renato Caldeira.

Nesse período, como Chemane, destacam-se, igualmente, Salomão Manhiça, bandas como Orquestra Djambo, Conjunto João Domingos, Orquestra Marrabenta, Eyuphuro, Grupo RM, e, mais recentemente, Kapa Dech, que contribuíram para exportar a imagem da arte e da cultura nacionais, com digressões pelo mundo. Ainda na área musical, nestes 45 anos de independência, destacou-se a cantora Zaida Lhongo, entre as cantoras mais populares que Moçambique já teve, com letras e músicas que penetravam no íntimo dos ouvintes, Zaida mexeu com preconceitos e estereótipos. Para muitos, é ela a diva da música popular em Moçambique.

A música popular moçambicana, na verdade, ganha uma projecção interna ainda no período colonial. Autores como Fany Mpfumo ou Daíco foram já naquela altura verdadeiros monstros das artes, à imagem de Malangatana, Alberto Chissano ou, mais tarde, Renata Sadimba e Naguib, nas artes plásticas. No caso do pintor de Matalana, distrito de Marracuene (Maputo), a grande contribuição para a cultura moçambicana fez-se através de telas que reflectem variadas dimensões do imaginário de um povo. Até hoje, as pinturas do artista multifacetado percorrem continentes e, inclusive, deverão estar expostas no Instituto de Artes de Chigado, nos Estados Unidos, em breve.

À parte a música, o teatro começa a trilhar rapidamente os seus passos rumo ao sucesso internacional. Manuela Soeiro acredita que o primeiro grande evento nacional, naquela área, foi o Festival da SADC, que se realizou em Maputo, que contribuiu para um intercâmbio entre Moçambique e os países da região austral: “esse foi um grande momento de comparação. Foi um grande festival, porque os temas eram nossos, sobre a nossa cultura”.

Com a encenadora, já 1986, Moçambique viu surgir e desenvolver o seu grupo teatral mais internacional de sempre, Mutumbela Gogo, que levou as suas peças aos diferentes palcos do planeta. A importância do grupo teatral, agora com 34 anos de existência, foi tanta que contribuiu/ contribui na formação e/ou na projecção de actores nacionais de grande qualidade. Entre os actores ligados ao Mutumbela estão Filipe Branquinho, Lucrécia Paco, Graça Silva, Vítor Raposo, Ana Magaia, Elliot Alex e Gilberto Mendes, que mais tarde fundou outro grupo teatral de referência: Companhia de Teatro Gungu. Como estes dois, tem longevidade, na área da representação, o grupo Haya-Haya, da Beira (30 anos de existência).

Outro grande acontecimento no domínio das artes moçambicanas acontece em 1985, com a estreia da primeira longa-metragem de ficção nacional: O tempo dos leopardos, uma co-produção entre Moçambique e a então Jugoslávia. Esse foi o princípio das glórias que o cinema iria proporcionar ao país. Com escassos recursos, filmes de realizadores como Licínio Azevedo, Sol de Carvalho, Pedro Pimenta destacaram-se e continuam a destacar-se no estrangeiro, inclusive com distinções internacionais.

O cinema, uma das artes que mereceu grande atenção de Samora Machel, contou e conta as várias narrativas moçambicanas, como calha com a fotografia. Aqui destacam-se, entre vários, Ricardo Rangel, Kok Nam ou Mauro Pinto, este que, regularmente, tem exposto as suas obras no estrangeiro. A moda não é menos importante. Os estilistas também têm o seu contributo, e nomes como Adélia Tique, Teresa Chiziane, Sara de Almeida, Taibo Bacar são exemplos de criadores que também levam ao estrangeiro as histórias nacionais.   

Ora, a proclamação da independência nacional contribuiu para um debate sobre as identidades moçambicanas. Desde sempre, a literatura fez parte desse processo. Dois dos eventos que marcaram as letras nestes anos todos foram a Gazeta de Artes e Letras da Revista Tempo (que criou o primeiro concurso literário do país, importante no debate sobre o sistema literário hoje assumido como nacional) e a criação da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), em Agosto de 1982, cuja cerimónia constitutiva foi dirigida por Marcelino dos Santos. A AEMO tornou-se a casa das letras, uma instituição importantíssima na promoção e divulgação de livros. Foi na AEMO onde surge a primeira revista literária do pós-independência, a Charrua, fundada por autores como Ungulani Ba Ka Khosa, Eduardo White, Pedro Chissano, Juvenal Bucuane ou Ídasse Tembe.

Ao longo destes anos, Moçambique projectou para o mundo vários autores internamente consagrados. Por exemplo, Noémia de Sousa, Luís Bernardo Honwana, Rui Knopfli, Luís Carlos Patraquim, Paulina Chiziane e João Paulo Borges Coelho. José Craveirinha e Mia Couto destacam-se entre os demais por terem sidos atribuídos, cada, um Prémio Camões, a maior distinção literária em língua portuguesa.

Além disso, em reconhecimento de dois elementos que constituem a cultura moçambicana, a UNESCO passou a considerar a Timbila e o Nyau Património Oral e Imaterial da Humanidade.

Culturalmente, este é apenas um pequeno trajecto referente à diversidade que constitui Moçambique, um país jovem, com vários encantos

 


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