As cores, a crise e os dramas dos artistas plásticos

As cores, a crise e os dramas dos artistas plásticos

O encerramento das fronteiras nacionais trouxe alguns desgostos aos artistas plásticos, pois os seus fornecedores não têm como ir buscar no estrangeiro material profissional que falta no país. Se, por um lado, a crise pode ser vantajosa, em termos criativos, tem-se revelado ainda caótica para aqueles que clamam por uma tela, acrílico ou mesmo apoio para comercializar as obras já criadas. Este é o cenário descrito por Bena Filipe, Huwana Rubi, Butcheca e Sebastião Matsinhe.

 

Os artistas plásticos nacionais já se encontravam numa fase menos boa, antes da COVID-19. Agora, com o Estado de Emergência que lhes impede de continuar a expor os seus trabalhos como vinham fazendo, as coisas complicaram-se ainda mais, pois os clientes “desapareceram”, o que obriga a muitos venderem as suas obras a um preço relativamente baixo, que não cobre os investimentos feitos no processo de produção. Em geral, esta situação negativa é fundamentada por Bena Filipe, Huwana Rubi, Butcheca e Sebastião Matsinhe. Para os artistas plásticos, o actual momento é tão hostil que, por causa do encerramento das fronteiras nacionais, já falta material profissional para a pintura.

Na percepção de Sebastião Matsinhe, na rua há muita mensagem para os artistas plásticos. Em contrapartida, faltam condições materiais para os artistas traduzirem o que captam, pois “não existem telas profissionais neste momento. O país não produz tintas de óleo e acrílico para as artes plásticas. Então, o encerramento das fronteiras nos prejudica, e a mim esta situação encontrou em contra pé. Com o lockdown na África do Sul, onde vivo, e com a declaração do Estado de Emergência em Moçambique, não tive como regressar”.

Não tendo como viajar para África do Sul e muito menos onde adquirir material profissional para pintar, o que resta a Matsinhe é registar à lápis, no papel, de modo que as ideias não fiquem perdidas. Mas não é o ideal. A impossibilidade de não exercer a sua profissão de feição é sempre algo desagradável, difícil de aceitar: “acho que se devia auscultar as necessidades dos artistas, de modo que continuassem a trabalhar. Por exemplo, “os directores nacionais de cultura deviam usar os protocolos para a aquisição de material para os artistas. Se há escassez de material em Maputo, nem quero imaginar nas outras províncias do país”.

45 dias depois do confinamento, Bena Filipe, que também é médica, admite, a angústia e a ansiedade fazem parte do quotidiano dos artistas. “Ficamos a pensar se o Estado, o povo ou as ONG vão apaziguar esta intempérie, e até agora nada aconteceu. Estamos num momento de agonia, ferida artística, cujo tratamento remete-nos a uma reinvenção que exige uso de tecnologia de comunicação, para diminuir e confortar o distanciamento social”, que, para Huwana Rubi, não é o problema em si. Até porque os artistas plásticos habitualmente criam as suas obras estando isolados. Ou seja, de acordo com a pintora, este até é um bom momento para os criadores reestruturarem os seus pensamentos. Entretanto, porque os artistas são humanos e fazem parte de um meio social, vão-se ressentido das restrições causadas pela COVID-19. Por exemplo, a artista perdeu a oportunidade de expor as suas obras mês passado. O mesmo pode acontecer com Sebastião Matsinhe, que tem uma colectiva agendada para a Fundação Fernando Leite Couto e uma individual para os Países Baixos, em Junho.  

Com algum material que conseguiu reservar, Butcheca vai tirando o proveito possível deste momento do ponto de vista criativo. “Como qualquer outra crise, esta é boa em termos de criatividade porque nos enche de imaginação, para além de que nos obriga a ficar muito tempo no mesmo espaço. Logo, aproveitamos para aperfeiçoar a pintura e para pintar ainda mais, fazendo descobertas constantes”. Dito isto, Butcheca considera que os artistas plásticos precisam de galerias que lhes ajudem a expor em plataformas online. Além disso, Butcheca entende que a grande ajuda aos artistas plásticos seria um financiamento em que os criadores pudessem pagar com as suas obras. “Segundo, do mesmo jeito que se está a apoiar os músicos, as instituições devem também apoiar os artistas plásticos”.

Quando esta crise toda passar, acredita Huwana Rubi, haverá mais trabalho para os artistas, pois os novos ventos estão a ensinar às pessoas a perceberem a importância da arte em geral na sociedade. Ou seja, na óptica de Rubi, está-se numa situação de perdas e ganhos simultâneos. Assim, o que deve acontecer? “Temos de nos alimentar de coisas boas, para que o futuro nos traga coisas positivas. Se cultivarmos esperança, trabalharmos na arte, certamente, iremos colher o fruto das nossas criações. Acredito muito nesta energia das cores que temos dentro de nós”.


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