As difíceis perguntas da avó Tavasse

Cara avó Tavasse

É sempre um prazer escrever uma carta para ti, avó, e espero que te encontre em perfeitas condições de saúde. Lembro-me das noites do inverno em que ficávamos até mais tarde, à volta da fogueira, a conversar e a contares aquelas histórias engraçadas sobre o coelho, sempre o mais esperto e manhoso do que os outros animais. Animavam muito.

Hoje, não consigo fazer isso do mesmo jeito que a vovó para os meus filhos mais novos, sobrinhos e netinhos. A vida aqui na cidade é muito agitada. Não há tempo para nada. A luta pela sobrevivência é grande, pois o custo de vida está insuportável.

Os preços dos produtos da primeira necessidade estão sempre a subir. Pior agora com o coronavírus. A culpa é atribuída ao vírus por quase tudo que anda mal, apesar de, em alguns casos, sabermos que não corresponde à verdade, mas como não fala... pronto. Temos que engolir.

Com os choques que está a sofrer, o salário está cada vez magro e não chega para pagar todas as contas, nem para garantir a cesta básica. Não estou a exagerar avó.

É que aqui compra-se tudo, incluindo folhas de cacana que crescem sozinhas ai nas machambas da aldeia. Esse é o preço de viver nas grandes cidades.

O Governo, os empregadores e os sindicatos vieram a público dizer que este ano, devido ao maldito coronavírus, não haverá mexida nos salários, mesmo os mínimos nacionais como o meu. Que tristeza avó. Todo o mundo está a murmurar, mas nada a fazer. Odeio aquele que originou o virus!

Vovó, recebi a tua carta que me enviaste há dias em mão do senhor Muthacathe, cobrador do autocarro da transportadora Cossa. Tenho que confessar que fiquei surpreendido com as questões que me colocaste.

Afinal, apesar de não teres tido a oportunidade de estudar muito, compreendes muito bem algumas das coisas que estão a acontecer na sociedade. Se calhar melhor do que pessoas que eu conheço que se sentaram na carteira. Podem faltar-te alguns argumentos. A capacidade de interpretar alguns fenómenos, mas a visão está lá. Os meus parabéns vovó.

Em primeiro lugar queria reconhecer que as suas perguntas são pertinentes, mas algumas delas são difíceis de responder. Espero que me compreendas se eu não puder satisfazer cabalmente as tuas expectativas.

Querida avó. A senhora quer saber donde vêm os 3.5 mil milhões de meticais que o Governo anunciou recentemente para investir na criação de condições higiénicas nas escolas com vista à retoma das aulas. Confesso que não sei. Duvido que a fonte seja o deficitário Orçamento Geral do Estado (OGE).

Juro que acompanhei o debate do documento na generalidade e na especialidade, na Assembleia da República, e estou seguro de que não há lá nenhuma rubrica específica para esta finalidade.

Alguém apareceu na TV a dizer que o dinheiro era do OGE, mas não disse claramente de que rubrica saiu. Por isso, vovó, não fiquei muito convencido com a explicação dada, mas...paciência. Vovó. O melhor é nós ficarmos calados para não sermos mal interpretados. Não achas?

É que aqui no país pessoas que perguntam muito. Sobretudo os que falam a verdade, não são bem vistas. Quando identificadas, são afastadas dos seus postos, se forem chefes. É assim mesmo e eu sou chefe da limpeza.

Sabes vovó. Uma comandante provincial da PRM em Maputo foi exonerada alguns dias depois de dizer que há polícias que usam a farda e os meios da corporação ao serviço de bandidagem e que há dentro da polícia chefes de bandos de criminosos que actuam um pouco pelo país. Alguns polícias dizem que ela falou a verdade que lhe custou o posto.

Avó, por falarmos dos 3.5 mil milhões de meticais para as escolas, há uma coisa muito curiosa que está a acontecer. É que este dinheiro está a ser usado sem nenhum concurso público. Até parece regra e não excepção. Porque tanta pressa afinal? Será que todos os processos de reabilitação de escolas são gêmeos, não justificam o lançamento de concurso público e têm que ser por via de adjudicação directa? Que bela coincidência vovó! É melhor eu calar-me para não deixar de ser chefe da limpeza.  

Mas avó, desculpa, o Tribunal Administrativo não gosta nada deste tipo de procedimento. Alguns gestores públicos já foram censurados por causa disso. Será porque havia pressa de aprontar as obras para que viabilizassem aquela aventura do Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano da reabertura de escolas a 27 de Julho? Mas a lei não admite atropelos em caso de urgência. Lei, é lei, tem que ser cumprida.

Vovó, não sei se percebeste. O Estado de Emergência já acabou. Legalmente não há mais medidas que limitam as nossas liberdades como cidadãos. Praticamente regressamos ao período anterior ao de coronavírus em que se podia viver ou trabalhar sem restrições.

Significa que tudo pode reabrir, nomeadamente barracas, bares. As festas de aniversário e de casamento podem ocorrer sem a limitação dos convidados, enfim tudo aquilo que no estado de emergência era proibido.

Mas, vovó, é claro que não vamos fazer isso. O Estado de Emergência acabou, mas a doença continua. O coronavírus está a afectar cada vez mais gente no país. As estatísticas, assustadores, mostram isso.

Quer dizer que cada um de nós tem que tomar a consciência de que se deve prevenir contra a doença. Perto de dois mil moçambicanos são o rosto de coronavírus em Moçambique.

Não precisamos de ser policiados. Não é necessário que esteja escrito num decreto presidencial. Não é preciso esperarmos por uma nova comunicação do Presidente da República à Nação para sabermos quais são os passos a seguir.

Todos nós, vovó, sabemos o que se deve fazer. O que falta é todos nós cumprirmos como deve ser as medidas, nomeadamente a higienização das mãos, o distanciamento social, o uso da máscara, a etiqueta da tosse e outros protocolos do Ministério da Saúde. Se fizermos isso estaremos a contribuir para a redução de casos de contaminações com o vírus.

Não há decreto nenhum ou estado de emergência que resolva isso. Nem o estado de calamidade pública irá evitar a propagação de coronavírus no país. A solução está nas nossas mãos. Na nossa obediência. Na nossa entrega à luta contra a doença.

Se não fizermos isso, podemos ter a certeza de que estaremos a nos condenar a nós próprios. Tudo que nós fizermos é para o nosso próprio bem. Da nossa família. Do nosso bairro. Da nossa comunidade. Da nossa aldeia. Da nossa localidade. Do nosso posto administrativo. Do nosso distrito. Da nossa província. Do nosso país.

Tudo depende do comportamento de cada um de nós em relação à doença. O que fizermos e o que deixamos de fazer vai ser determinante para o regresso tardio ou mais cedo à nova normalidade. O regresso aos cultos religiosos. O regresso aos nossos negócios que nos fazem melhorar o nosso poder de compra. O regresso em segurança das nossas crianças às aulas. A retoma da nossa vida sem grandes restrições. Tudo isto é possível se nós nos empenharmos com afinco no combate a este mal.

Independentemente da decisão que vier do Presidente da República, o mais importante, o segredo de tudo, está na obediência. Em plena guerra contra o coronavírus no país e no mundo não deve haver quem vacile.

Vovó é inconcebível que numa altura destas em que o covid-19 está a dizimar gente no mundo e devíamos estar mais unidos para sermos mais fortes na luta contra a doença, alguém não acredite ainda na existência da doença. Infelizmente há pessoas assim em Moçambique que acham que tudo sobre coronavírus não passa de uma simples brincadeira ou invenção do governo alegadamente porque, tirando Eneas Comiche e esposa, ninguém mais apresentou-se como doente.

Avó Tavasse, termino por aqui. Espero não ter sido longo. Olha, proteja-te ai. A senhora é a coisa mais preciosa que eu tenho na vida. É melhor ficares em casa se não tiveres nada a fazer fora. Caso tenha que sair, usas a máscara. Nada de a colocar no queixo. Até mais vovó. Amo-te vovó.


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