As fragilidades da escrita em Pétalas d’água

O desgosto dado por uma mulher só se cura com o amor de outra mulher

Albino Magaia

Chakil Aboobacar é autor de um livro que, com mais cuidado, seria um romance muito apreciável. Pétalas d’água é o título do livro em causa, no qual perpassa um carácter narrativo de quem sabe traduzir em história o que se revela num universo interior. Ao construir o seu enredo, logo se nota, Aboobacar esmera-se em aventurar o leitor pela beleza das palavras, quase sempre constituídas por esses plurais valores semânticos que fazem do texto literário um produto em permanente redescoberta.

No que tange ao trato da língua/linguagem temos na obra de Chakil Aboobacar um exercício sugestivo. Em contrapartida, há tantos outros recursos indispensáveis à trama olvidados ou deixados à margem, daí certas fragilidades imporem-se no livro. Comecemos pelas descrições. A este respeito, há pobreza generalizada. Por exemplo, na primeira parte do livro, “Compromissos adiados”, o narrador não explora os espaços onde as acções ocorrem, desvaloriza o retrato dos cenários, o carácter das personagens e o discurso é vazio, frágil e breve. Duas personagens são introduzidas nesse segmento: André e Marisol. Mesmo assim, não se sabe, por exemplo, a altura de cada uma, e quem diz altura pode referir-se à idade, ao peso, ao comportamento, à virtude, à vaidade, às convicções e incertezas, quer dizer, a tudo o que é relevante na personificação da personagem, seja nuclear ou secundária. Do André, o protagonista, escapa muito pouco: é artista plástico, jovem e ama uma mulher chamada Marisol, a quem se dá uma atenção mínima a partir da segunda parte, “Pensamentos, desejo e silêncio”. Aboobacar poderia ter traçado um retrato prolongado daquela personagem, pegando bem no nome (Mar + Sol), explicar, por exemplo, por que os pais a deram esse nome, relacioná-la com essas duas condições da natureza e explicar o que na vida dela a tornou materialista, sujeitando-se até ao kutchinga, quando poderia optar pelo amor que tanto ela como André sentiam. Esse retrato pormenorizado da personagem ficaria agridoce, bonito, pois o leitor reuniria informação que o permitiria amar e detestar Marisol. Nunca ficar indiferente. Recorrendo a uma analepse, então, o narrador heterodiegético, que não participa ma história por si contada como personagem, saciaria a sede do narratário, essa entidade intangível que está para o narrador, digamos, na mesma relação que o leitor está para o autor. 

Diante de uma história sobre o amor, numa vertente actual e necessária, Chakil Aboobacar deixa passar ao lado muito detalhe, é demasiado linear. Com isso, fica difícil a história surpreender.

Tzevetan Todorov considera, no livro As estruturas narrativas, o seguinte: “para que as personagens possam viver, devem contar”. Honestamente, o narrador deste livro é tão apressado que nem essa recomendação é capaz de seguir. Os diálogos das personagens são ocos, sem nenhuma comoção. 

Este livro é exageradamente pequeno, justamente por se ter deixado à margem as ramificações de que se tece uma boa narrativa. Dessa desvalorização, aparentemente, emergiu o esforço de se fazer com que o livro ficasse com as 71 páginas, resultantes de um espaçamento muito acentuado entre as linhas.

Na terceira secção, “Destino”, o narrador diz, ao referir-se ao marido de Marisol: “Mas de momento não se é de falar de Matavele e suas tradições, sua inépcia pelo trabalho, pois, o propósito do relato é mesmo Marisol” (p. 43). Essa afirmação seria apropriada se o narrador tivesse investido três, quatro ou cinco mil caracteres de focalização em Matavele. Não dando azo a esse evento, como calha noutras personagens, a ficção desagua numa tremenda superficialidade. Para além de que o narrador contradiz-se logo depois de afirmar que, naquele momento, não importa falar de Matavele, falando.

Na nossa percepção, são estas as fragilidades desta história em que as personagens desencontram-se e decepcionam-se, quando tentam amar.

Título: Pétalas d’água

Autor: Chakil Aboobacar

Editora: AEMO

Classificação: 10,5


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