As zangas do ministro

Quando convém, a comunicação social é parceira do governo. Dos partidos políticos. De organizações da sociedade civil. Há rasgos elogios destes ao seu trabalho a nível do discurso político, talvez para conquistarem simpatias junto dos jornalistas e saírem bem na fotografia.

As palmadinhas nas costas e todo um palavreado bonito não faltam a 11 de Abril, dia do jornalista moçambicano, e a 3 de Maio, dia internacional da liberdade de imprensa. Elas vêm do Presidente da República. Dos ministros. Dos governadores e de outras “excelências”.

É tida como aquela que educa. Que contribui para a formação do homem novo. Que mantem a sociedade informada sobre o que se passa no país e no mundo. A comunicação social até fica encabulada com tudo isto.

Como se de elogios fúnebres se tratassem, ninguém fala dos seus defeitos. Dos seus erros, que até são públicos, deferentemente dos cometidos noutras profissões ou funções e por outros actores na governação. Na gestão da coisa pública e noutros campos de actuação.

Muitos dos erros na tomada de decisões e não só morrem nos gabinetes. Nas secretarias. Nas províncias e noutros lugares, se escaparem das redes sociais. Dos olhos de jornalistas e das denúncias dos defensores da boa governação, igualdade de oportunidades e de uma sociedade livre de todos os males.

Quando a vida resolve virar as costas, tudo muda num ângulo de 360 graus. As mesmas pessoas que antes esgotaram os adjectivos qualificativos sobre o papel da comunicação social na sociedade, aparecem a atacar a torta e a direita. A chamar nomes à comunicação social. A considera-la “Persona non grata” e, por isso, um inimigo a abater.

Vítima do seu próprio trabalho, ela é tida como aquela que desinforma. Que desmobiliza. Aquela que veicula informação manipulada. Esta é a mais recente visão do ministro do Interior em relação a notícias produzidas pela imprensa sobre os insurgentes em Cabo Delgado.

Não apontou casos concretos de manipulação da informação, os órgãos de informação implicados e não disponibilizou a versão correcta da história para repor a honra e bom nome do seu sector. Ele, definitivamente, coloca toda a comunicação social no mesmo saco.

O governante quase culpou à classe jornalística pelo insucesso das vitoriosas e gloriosas forças de defesa e segurança no teatro das operações, num país que tem tudo para dar certo.

A situação parece-me mais grave do que as suas declarações contra a classe jornalística. É que o sector privado de comunicação social começa a ser discriminado em coisas simples como o briefing semanal com o porta-voz do Comando Geral da Polícia. Esta é a parte oculta das declarações venenosas do ministro.

Qualquer pessoa está livre de criticar o que julgar errado no trabalho de jornalistas. Mas no caso particular do chefe da polícia, antes de atacar, devia ter avaliado o desempenho do seu sector para verificar como é que está a comunicar o assunto dos terroristas em Cabo Delgado. Se está a comunicar bem ou não e corrigir o que estiver errado.

Com este exercício, chegaria a uma rápida conclusão: Que afinal o seu sector não está a comunicar o suficiente para contrapor as investidas inimigas. Os tabus estão a ensombrar tudo. Reage lentamente e na defensiva ao invés do ataque. Fica calado quando todos estão à espera de ouvir a versão oficial da história.

Este é o pano de fundo da questão. O velho problema que nenhum governo conseguiu resolver no país. O Ministério do Interior é apenas parte da questão. Há uma dificuldade enorme em comunicar mesmo quando a informação é favorável ao governo.

Na semana passada, o executivo anunciou 129 baixas nas hostes do inimigo, algo raro desde que iniciaram os ataques terroristas a aldeias recônditas de Cabo Delgado que já vitimaram cerca de 500 pessoas e provocaram mais de 160 mil deslocados.

O governo, em geral, e Ministério do Interior, em particular, perderam uma grande oportunidade de fazer “show” com a notícia. Não conseguiram tirar proveito da informação. O facto é que se limitou a anunciar o número de mortos e mais nada. Ninguém se deu ao trabalho de mostrou o corpo de pelo menos um dos terroristas abatidos. Matou-se a história e retirou-lhe a credibilidade.

O comando das FDS não só não comunica o suficiente, como também não deixa comunicar. Os jornalistas que se interessam pelo assunto dos insurgentes são perseguidos, ameaçados e presos em Cabo Delgado. Quando soltos, são obrigados a apagarem as imagens, vezes sem conta, inofensivas captadas em alguns distritos alvos de ataques e a verdade sobre o que está a acontecer no terreno fica por apurar.

Infelizmente, os terroristas saem-se melhor nesse aspecto. Relatam a sua versão dos factos nas redes sociais falando das suas incursões. Pousam para a posteridade nas sedes distritais que assaltam e ocupam por algumas horas e colocam a informação em circulação.

Para convencerem as pessoas dos seus actos criminais, usam os mesmos canais de comunicação para publicarem vídeos em que estão a fazer e desfazer a seu bel-prazer. Alguns, gravados no interior das residências de administradores distritais. Outros, diante dos comandos distritais da PRM. Anunciam números elevados de baixas que dizem ter infligido às forças de defesa e segurança e como sempre nada se diz oficialmente.

As guerras ganham-se não só no teatro das operações, como também na imprensa. Tudo depende da capacidade de cada uma das partes em explorar os vários canais de comunicação disponíveis a seu favor para criar uma boa imagem perante o público e fazer uma demonstração de força.

Para quem vive fora daquela província pode ter a falsa impressão de que está tudo bem. Milhares de camponeses estão a abandonar as suas aldeias e a viverem como deslocados, num clima de medo e terror, algures em Cabo Delgado, uma autêntica crise humanitária.

O melhor em tudo isto é a abandonar a política de hostilização de jornalistas no exercício da sua actividade. Na verdade o foco das FDS devem ser os terroristas. Esses, sim, são inimigos. A comunicação social, não. Apesar de reflectir o pensar diferente, é patriota e está preocupada com tudo que está a acontecer em Cabo Delgado.

Saibam trabalhar com ela na defesa dos interesses nacionais, um objectivo comum. Aliás, o Presidente da República, Filipe Nyusi, bem disse, nas suas palavras de carinho à classe jornalística por ocasião do seu dia, 11 de Abril, que o jornalista é um parceiro.

A parceria a que o PR se refere tem que se desenvolver na base do respeito mútuo para que a mesma possa se fortalecer e tornar-se saudável. Deve desenvolver-se sem ameaças, intimidações, muito menos detenções e confiscação de materiais de trabalho.  

 


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