Banqueiros alertam para momentos difíceis daqui a seis meses

Banqueiros alertam para momentos difíceis daqui a seis meses

O administrador do Millennium bim, Moisés Jorge, antevê uma relação financeira difícil entre os bancos e as empresas daqui a seis meses. Falando no programa “O País Económico” da STV Notícias, que juntou três banqueiros na noite de quinta-feira e teve como tema “Banca no Contexto da COVID-19”, Moisés Jorge disse que com a pandemia, muitas empresas poderão fechar as portas.

“Eu acredito que vamos passar aqui uma fase verdadeiramente complicada, mesmo com as extensões que nós estamos a fazer, eu não tenho a certeza que daqui a cinco a seis meses estejamos em paz financeira com as empresas. Este é um tema que podemos estar a adiar, há empresas que certamente vão sair do mercado, uma morte perfeitamente natural, porque haverá uma selecção; há empresas que vão suportar porque foram bem geridas e estão bem capitalizadas, mas eu temo que tenhamos um grande problema em termos das empresas que hoje ainda são capazes para pagar os seus salários e pagar os seus compromissos”, disse Moisés Jorge.

O administrador do Millennium bim diz ainda que devido aos efeitos da pandemia, o banco optou em adiantar os pagamentos das facturas dos seus fornecedores, reduzindo os prazos médios de pagamento, como forma de facilitar a vida das empresas, mas diz não ser uma tarefa fácil, dado que não depende apenas da disponibilização de liquidez, depende também do facto das empresas terem mercado ou não e terem capital ou não para suportar as suas actividades.

Por sua vez, o PCA do Moza Banco, João Figueiredo, defende a necessidade de se criar um fundo de resgate empresarial, já que segundo seus cálculos, os maiores efeitos da crise causada pela pandemia da COVID-19 ainda estão por vir, daí que considera que este é o momento certo para o Estado moçambicano mobilizar mais apoios para fazer face à situação.

“A banca pode e deve continuar a manter o relacionamento com os seus clientes, na óptica da relação empresarial. Não pode substituir o Estado naquilo que é a dinamização do relançamento da economia e do apoio social ao desenvolvimento da estrutura social que temos no país, isso compete ao Estado. O Estado, se não tem a capacidade financeira para encontrar os meios e os recursos para o fazer, tem de procurar junto dos seus habituais parceiros, encontrar capacidade de sensibilizar os parceiros para que sejam dinamizados recursos para serem colocados na nossa economia”, disse João Figueiredo.

De acordo com Figueiredo, o Estado não pode continuar a viver de ajudas internacionais quando já está “de joelhos e a língua fora”. Diz ainda o gestor banqueiro que o país precisa de ser apoiado no momento certo e atempadamente. “A pandemia é universal, atravessa o mundo. Não vai existir um país que vai ver seu caso resolvido, se os outros não estiverem resolvidos. Nós, por exemplo, temos um sistema de saúde muito deficitário e portanto, é preciso que nos ajudem”, disse o Presidente do Conselho de Administração do Moza Banco.

No que diz respeito às empresas, Figueiredo defende a criação de um fundo com a finalidade de salvá-las. “Temos que conseguir alocar um fundo para resgatar o nosso tecido empresarial. Estávamos aqui a falar das moratórias e da reestruturação das operações de crédito para seis meses, o que é que acontece daqui a seis meses? Esses juros que não foram pagos agora, durante seis meses, vão ter que ser pagos no final de seis meses ou então tem de ser capitalizado. Portanto, o serviço da dívida vai aumentar”, disse Figueiredo.

Já o administrador delegado do Absa Bank Moçambique diz ser este o momento certo para as empresas melhorarem a sua organização para ter acesso ao crédito bancário, atendendo que os riscos associados aos negócios aumentaram.

“Ouvimos muitas vezes queixas da sociedade civil relactivamente aos bancos que não emprestam, não apoiam determinados projectos, mas o problema está de facto nesse aspecto que acabou de ser realçado da capacidade de documentar e dar evidência da viabilidade do negócio”, disse Rui Barros, administrador delegado do Absa Bank Moçambique.
Barros deu ainda um exemplo de um teste fácil a se fazer com os analistas de crédito que consiste em pergunta: “se o dinheiro fosse teu, emprestavas?”. No seu entender é isso que deve ser questionado sempre que se vai pedir dinheiro em um banco, atendendo que há outras pessoas que poderiam estar a pedir emprestado dinheiro nas mesmas circunstâncias.

 

Gestores bancários explicam os determinantes das taxas de juro actuais

O Presidente do Conselho de Administração do Moza Banco, João Figueiredo, defende que há espaço para a redução da taxa de juro no país, mas é preciso eliminar o crédito ocioso, principalmente vindo das empresas públicas.

“Um dos elementos que contribui para os níveis de taxas de juro que o país tem tido há muito tempo, tem a ver com aquilo que nós chamamos de crédito ocioso na banca e grande parte do crédito ocioso que nós temos na banca é crédito que vem das empresas públicas. As empresas públicas têm créditos que contribuem para uma carteira de crédito não remunerada ou remunerada de uma forma pouco transparente”, defendeu João Figueiredo.

O PCA do Moza Banco entende ainda que chegou o momento de o Estado encarrar a situação com profundidade porque “o crédito ocioso significa que o resto da carteira que a banca tem, tem de pagar para aquele crédito que nós temos e não é remunerado. Muitas dessas empresas públicas estão nessa situação, têm um económico saudável, mas com um peso da dívida enorme. Se elas fossem saneadas financeiramente, provavelmente, seriam viáveis”, disse.   

Por seu turno, o administrador do Millenium bim, Moisés Jorge, disse que as condições do mercado é que determinam as taxas de juro praticadas e sugeriu melhorias na economia nacional.
“Eu acredito que o nosso quadro macroeconómico ainda não permite termos as taxas, naturalmente, mais baixas. Abrimos o banco em 1995 e a taxa de juro rondava nos quarenta e muitos.

Os empresários queixavam-se. Hoje, consegue-se na banca taxas na ordem dos 16, até dos 15% e continuamos a nos queixar. Não é necessariamente pela taxa que as empresas não avançam, não será por isso porque seguramente, se em algum momento não conseguir colocar o dinheiro que tem ocioso a essas taxas, certamente hão-de baixar, não tem como, porque não podemos ter dinheiro ocioso. No mercado, as condições macroeconómicas não permitem ter outras taxas”, defendeu Moisés Jorge.

O administrado do Millennium bim diz ainda que há algumas instituições públicas que dispõem de liquidez e vendem aos bancos a uma taxa um pouco mais elevada do que do que seria desejável, atendendo que são instituições que estão praticamente no perímetro do Estado, no entender do gestor, poderiam contribuir para a redução das taxas.

Ainda no programa televisivo, o administrador delegado do Absa Bank, Rui Barros, negou que a banca não esteja a acompanhar os sinais do Banco Central. “Qualquer alteração das taxas de referência, nomeadamente, o MIMO, é imediatamente incorporada nas taxas de juro que os bancos praticam”, disse.

Rui Barros referiu ainda que não é correcto dizer que há algum tipo de desfasamento entre as alterações da política monetária que o Banco Central divulga e as taxas de juro praticadas nos bancos.  

“Vamos agora tentar perceber o que poderá estar por de trás dessas reacções. Em primeiro lugar, existe uma carteira de créditos que já está nos bancos, que são os créditos já conseguidos que estão tipicamente a taxas de juros variáveis e portanto essa taxa de juro vai variar na próxima prestação porque a taxas de referência, a MIMO baixo. Esta baixa da taxa de referência demora tipicamente 45 dias a ser incorporada”, explicou Rui Barros.

 

 


Contactos

Tef: +258 21 313517/8

Email: opais@soico.co.mz
Local: Rua Timor Leste, 108 Baixa
Maputo- Moçambique