Bio-epistemólogo

 “O maior mentiroso é aquele que conhece a verdade”

Platão

 

Estou cada vez mais convencido que o mal facilmente impera o mundo graças à capacidade de o homem adaptar-se facilmente às circunstâncias da vida. Afigura-se-me que o instinto de sobrevivência ou o egoísmo são predisposições capazes de reduzir o homem a mais baixa condição inumana. Quando o homem pretere a sua dignidade e se sujeita à vontade doutro homem seja por que motivo, comete o pecado capital contra a humanidade. Concebendo-se o homem como um animal dotado de pensamento e vontade próprios, chega a ser uma negação à espécie humana quando o mesmo homem é obrigado a viver em função do pensamento e vontade alheios.

O homem aliena a sua humanidade de todas as vezes que se adapta a uma determinada circunstância contra a sua vontade e razão. A adaptação é somente bem-vinda quando visa engrandecer o que há de humano no homem. Ao contrário disso, ela constitui-se uma condição degenerativa da natureza humana. Deste modo, é mais sensato que os homens deliberem sobre as circunstâncias a que poderão se submeter. Deve-se sempre recomendar o tipo de adaptação que enleve a dignidade humana como, por exemplo, um homem que decide apostar em gostos intelectuais a fim de conservar a companhia dos amigos cultos. A má adaptação seria aquela em que um homem decide envolver-se em torpezas para granjear a simpatia dos amigos depravados.

A má adaptação também se aplica a todos aqueles que cometem determinada prevaricação na sua profissão com fim de satisfazer interesses pessoais. Um desses homens que se sujeita a esta ignóbil condição é o bio-epistemólogo, ou seja, aquele indivíduo que provido do conhecimento científico usa-o indevidamente para ganhar a vida. Referimo-nos, em outras palavras, ao sofista do estômago  – homem que põe à venda a sabedoria de desinformação para viver. Aquele homem que sabendo discernir entre o certo e errado escolhe propagar o errado só para ganhar o pão da vida. Em Moçambique, tal como no mundo afora, estes homens diplomados existem em demasia. São bio-epistemólogos. Tal como o bio-político do filósofo Severino Ngoenha que não vive para política, mas vive da política, o bio-epistemólogo é aquele que não vive para ciência, no sentido de manter um compromisso humano na produção e aplicação do conhecimento, mas vive da ciência, no sentido de instrumentalizar o conhecimento para satisfazer as suas necessidades em detrimento do bem-estar das outras pessoas.

Entende-se que a liberdade de expressão é um direito de todos os homens, mas quando os bio-epistemologos servem-se dele para propagar a desinformação, é uma toda nação que fica atrasada. A qualidade de informação constitui condição sin qua non para que o povo tome melhores decisões sobre o futuro da nação. Quando a informação é adulterada para satisfação de interesses particulares, é sempre uma minoria que sai a vencer em detrimento da confusa maioria. Era suposto que os bio-epistemólogos estivessem cientes do atravancamento que impõe no desenvolvimento humano de um povo, quando escurecem a opinião pública por meio de instrumentos da luz.  Usurpar o título de pensador livre e mentir deliberadamente para as massas deveria ser visto como um acto totalmente anti-patriótico, pois não há desenvolvimento humano possível de uma nação, quando ela se apresenta desinformada e acrítica. Quanto mais se mantêm os povos desinformados, seja por meio de ideologias ou retóricas falaciosas, mais aumentam a corrupção, pobreza e brutalidade no mundo. O fim de toda a mentira é de aprisionar os indivíduos em zonas de conforto, enquanto a verdade está para liberta-los e mostrar-lhes a realidade nua e crua com suas qualidades e imperfeições. E só se muda a realidade de uma coisa, quando se tem um conhecimento verdadeiro dela.

A maior condenação contra bio-epistemólogos resulta do facto de eles, tendo conhecimento da verdade, preferirem propagar mentiras venenosas seja a mando de elites políticas, económicas ou religiosas. É deveras penoso que um indivíduo entendido em leis da economia sirva-se dos meios de comunicação em massa para persuadir um pai ou mãe de três ou quatro filhos que é possível sustentar condignamente a sua família com um salário mínimo que mal sustem as despesas do transporte.

O homem que se disponibiliza a tecer argumentos especiosos desta natureza em troca de algum ganho pessoal não só faz mal à sociedade, como também faz mal à sua alma. Longe de eu ser um moralista sobre questões metafísicas, não se me afigura sadia uma alma que se entretém com mentiras fabricadas à luz da verdade, conduzido milhares de outras almas à desinformação e ilusão. O dito que diz “o povo não tem paciência para com a verdade” é uma terrível falácia capaz de consentir o cegamento de uma massa de gente ao ponto dela virar xenófoba, chauvinista e apolítica. A Alemanha hitlerista e a Rússia stalinista continuam os melhores exemplos de Estados cujos povos sob o controlo das ideologias foram capazes de apoiar os mais abomináveis crimes contra humanidade. O povo precisa da verdade para sua própria existência sã e manutenção da democracia – melhor forma do governo que garante a liberdade dos indivíduos.

O estado da alma de um bio-epistemólogo merece um estudo de censura, pois nos apresenta uma crise de identidade ao nível intrapessoal. Onde há união entre verdade e mentira, há violação do princípio de não contradição. O caso de um bio-epistemólogo apresenta-nos tal situação da crise lógica e moral, pelo facto de este indivíduo que, dispondo da verdade, escolhe proferir falsidades, entrando em contradição consigo mesmo. E permitir-se entrar em contradição consigo mesmo, você sendo uno e indivisível, se afigura mais ou menos um caso de psicopatia. Saber que A = A, mas quando questionado dizer A = B, ou A não é A, afigura-se uma psicopatia intencional que é deveras vergonhosa para aquilo que é o propósito da ciência.

A vida só se torna louvável, quando feita com dignidade, sem contradições nem adulações.

Todavia, pelo facto de coabitarmos num século de informação, todos nós somos menos inocentes, quando nos tornamos vítimas dos desinformadores. Os livros, a internet, os jornais tornaram-se cada vez mais acessíveis no séc. XXI graças aos avanços da tecnologia. Então, leiamos mais, investiguemos e, sobretudo, reflitamos para o bem do nosso crescimento como humanos. Ironicamente, os melhores bio-epistemólogos são estudiosos que andam por ai sem escrúpulo a desinformar as massas com a mesma desculpa que é “mentimos porque temos esposas e putos para sustentar”.

 


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