Black Panther: um bom filme para levantar grandes debates na perspectiva de género

No dia 28 de Agosto, recebemos uma triste notícia sobre o falecimento do actor Chadwick Boseman. Muitas homenagens lhe foram prestadas, e, como não poderia ficar de fora, decidi também lhe homenagear, vendo, pela segunda vez, o filme Black Panter. O filme ganhou muito crédito por representar uma história que, a meu ver, identifica-se muito com a questão da identidade africana. Facto que considero importante, pois estamos a vivenciar o movimento Black Lives Metters, que, dois meses antes da morte do actor, se manifestou nos EUA contra os ataques aos negros.

O filme retrata uma história de um reino fictício africano, Wakanda, isolado do resto do mundo, receando que as suas tecnologias de ponta e os armamentos de grande impacto sejam usados para promover destruições e mais guerras. No filme, T´Challa (Chadwick Boseman) participa em um desafio, no qual, vencendo, iria se tornar Rei de Wakanda em substituição do seu pai. Assim foi. Mais tarde, ele foi vencido em um desafiado proposto pelo primo, Erik Killmonger (Michael B. Jordan), que foi criado em um outro contexto sob uma cultura diferente, e que pretendia revolucionar a política de isolamento do reino.

No entanto, ao rever o filme, observei que o mesmo apresenta aspectos que podem ser analisados sob o ponto de vista de estudos de género, pelas razões que apresento a seguir.

Primeiro, o filme tem, no elenco dos actores principais, quatro mulheres e quatro homens que participam activamente em quase todos os processos da história principal. Isso comprova a consideração que houve em relação ao equilíbrio de género.

Segundo, no reino existe um exército/tribo de homens liderados por um homólogo e um exército de mulheres liderado por uma mulher general, que, de certa forma, representa uma ruptura do convencional, pois são raros os filmes que têm como general uma mulher africana. Este aspecto enquadra-se no que tem sido defendido nos protocolos das Nações Unidas, sobre a questão do envolvimento das mulheres em assuntos ligados ao exército e/ou forças armadas, negociação e manutenção da paz, etc. A general também faz parte do conselho do reino e contribui na tomada de decisões, ao mais alto nível, em relação a todos aspectos políticos do reino, o que demonstra a atenção na história do filme em relação à questão da participação das mulheres na tomada de decisões.

O terceiro aspecto está relacionado com o facto de duas mulheres fazerem a segurança do rei em uma missão. Normalmente, espera-se que dois “brutamontes”, homens fortes, robustos e bem treinados, sejam confiados a tarefa tão séria. No entanto, no Reino de Wakanda, a actividade está reservada às mulheres, Okoye (Dani Gurira) e Nakia (Lupita Kuluuya) para garantir a segurança.

Um outro ponto a considerar é que no reino fictício o domínio das tecnologias, principalmente para o fabrico de armas, a idealização de naves aéreas, assim como a idealização do fato black panther (a maravilha tecnológica usada como arma principal de combate) foram produzidos por uma mulher, Shuri (Letitia Wright), a irmã do rei. Facto que não se tem notado muito na maioria de outros filmes, pois o domínio de tecnologias tem sido representado como uma produção masculina.

O último aspecto que importa sublinhar no filme é a fidelidade das mulheres. Concordando com várias percepções sobre a fidelidade entre homens e mulheres, no filme demonstra-se a fidelidade, o respeito e a honra das mulheres, quando a general, apesar de não concordar com a ascensão de Erik Killmonger a rei, muito menos com as intenções do rei em relação à revolução que pretendia implementar no reino, decide permanecer fiel ao reino e seguir as devidas decisões. O mesmo aconteceu quando se revelou que o então rei demonstrou infidelidade aos legados do reino em relação ao desafio pelo reinado que não tinha ainda terminado, pois era necessário que estivesse morto ou que tivesse desistido, o que não aconteceu. Ela teve que lutar para que a tradição do reino fosse respeitada em detrimento da decisão do rei. O oposto aconteceu com o líder da tribo dos homens, que, pela ambição, ele revelou-se traidor dos costumes do reino e indigno de ocupar posição de relevância no conselho do reino.

Portanto, apesar dos aspectos que considero positivos sobre a perspectiva de género no filme, há outros factos que julgo que poderiam ter sido levados em conta. O primeiro ponto que considero muito importante é: que poderiam ter como desafiantes pelo trono um homem e uma mulher. Isso daria ênfase à questão do desafio das tradições, em que se espera que o sucessor do trono seja um homem. O trono de um reino está directamente ligado a questões de poder, e esse poder é o máximo nível a ser considerado quando se trata de tomada de decisões.

Em muitas tradições africanas, a questão da tomada de decisões está em muitos casos ligado à questão de género. Na maioria das sociedades africanas, a figura masculina é considerada mais importante em ralação às mulheres, quando se trata de assuntos de poder de decisão, e os que participam da tomada de decisão são olhados como se estivessem em uma situação de privilégio. O que comprova que os homens estão em uma situação de privilégio em relação às mulheres, e não têm necessidade de fazer muito esforço para se inserir na sociedade em todos os aspectos.

Portanto, seguindo o posicionamento de Arendt (2001:145), esta quebra da tradição, ao considerar um desafio/disputa entre um homem e uma mulher pelo trono no filme, estaria ligado a esta libertação das mulheres em relação à necessidade a que elas são remetidas para conquistar o privilégio de ascender a uma posição que lhes concede um posicionamento ao mais alto nível de tomada de decisão. 

A segunda questão que coloco em causa, é o facto de se ter criado dois exércitos de sexos opostos, o que me despertou uma inquietação porque isso nos remete a pensar que há uma espécie de aversão ao facto de uma mulher ser general de um exército constituído por homens e mulheres. Por isso, o exército comandado pela general era apenas composto por mulheres.

Mesmo com estas observações, o filme tem muitos aspectos positivos, como descrevi anteriormente. Várias podem ser as interpretações sobre o significado que o reino de Wakanda foi atribuído neste filme, sempre tentando mostrar a grandeza de África, tanto a nível de domínio de tecnologias, como de domínio de estratégias de guerra, e inteligência para construção e manutenção da paz, sem esquecer a preservação das identidades.

 

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