Bofesta

O sono esmoreceu, mas não despertei de imediato. Acordar parecia um caminho longo. Deixei-me estar a meio da viagem, sem compromisso, nem com o sono nem com a vigília. (Como um mineiro antigo, com xidjumbas de anos às costas, que regressa da djoni

para as festas e aguenta, paciente, o demorado percurso até à terra natal).

Fui reconciliando com a vigília. A pálpebra amoleceu. Os olhos já não se fechavam mas também não se abriram. Pareciam duas amêijoas preguiçosas. A luz trespassava a cortina desfiada das pestanas e fui percebendo, meio a sonhar meio a olhar, uma coisa de imponência triangular, a querer distrair-me a visão.

Parecia-me uma palhota. De colmo macio. Enfeitada com cores. Tinha muitas cores, tantas que lembrava uma pirâmide de Gizé exótica, travestida de pirâmide de Maslow.

O sono abstraía tudo. Os enfeites  que coloriam a palhota pareciam pessoas. Muitas pessoinhas. Umas por cima das outras. As da base, magras, músculos tensos e costelas à mostra, suportavam todo o peso. As do topo, rechonchudas, pareciam mais refasteladas. 

Eram camadas de gente. As de baixo lembravam pessoas que andam resignadamente a pé. Por cima destas estava uma camada das que pareciam andar empoleiradas nos chapas. Mais acima, e em menos número, as que suportam o preço do combustível e têm viatura própria. Acima, as que se sentam nos bancos de trás das suas viaturas e são conduzidos. Os mais acima, em número cada vez menor, tinham até barcos e helicópteros. Por cima destes e de todos, com imponência enganadora de uma cereja no topo, o mais gordinho, que pareciam andar de naves espaciais, em poses autoritárias. 

Um mosquito passou-me pelo pavilhão do ouvido com um zumbido irritante. Fez uma gincana de três voltas e meia, descreveu uma espiral desengonçada, entretido com o cheiro azedo da cera dos meus ouvidos. Espanquei-o com uma palmada contra a minha face. O zumbido calou-se. Devo tê-lo acertado em cheio... e eu já estava naquele humor de quem se sente frustrado pelo sono interrompido. Maldito pernilongo. Perturbador de sono alheio. Chupador de sangue dos outros. Parasita...

As pálpebras subiram até meio olho. Ainda pesavam mas agora, sem sono, era difícil mantê-las fechadas. Só fechava para pestanejar tentando, em vão, afastar o resto de sono que ainda me embaciava a visão.

Olhando com a quase lucidez da vigília, percebia que adormecera na cadeira de trabalho. Aquela palhota no meu campo de visão era uma imitação de árvore. Uma árvore de Natal numa montra. As pessoinhas eram os enfeites da árvore. Tinha as luzinhas desligadas em óbvia economia de energia eléctrica.

Estranhamente, no resto do prédio, no resto da rua, no resto da cidade, não se via luzes de Natal, reforçando a ideia de que este fora um ano financeiramente atípico. "Ah, esta crise!" suspirei em pensamento enquanto me ocorria a pergunta que não se quer calar: Será  que vai haver décimo terceiro?

Espanquei outro mosquito que me vinha dar uma picada de bofesta. Ajeitei-me na cadeira de guarda nocturno. Senti as  molas de um bocejo a escancararem-me a boca. Embora fosse noite de Natal, não havia muito por fazer acordado. As pálpebras cederam. Devagarinho. Parti para a longa viagem de regresso ao sono. A imagem da árvore de Natal sem brilho, apagou-se. Adormeci.

 


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