Breve historial do Clube do Livro*

Hoje, 16 de Novembro de 2019, é o primeiro aniversário dos encontros do Clube do Livro. Primeiro aniversário, na verdade, dos encontros do Clube do Livro de Maputo, marco do início do surgimento do(s) Clube(s) do Livro em todo o país. Ao longo desses doze meses, foram surgindo vários outros Clubes do Livro em diversas regiões do país, totalizando hoje dezasseis (16) Clubes, com um total aproximado de 700 membros. Desse total, Maputo tem o maior número de registados, 138, seguido do Clube do Livro da Escola Secundária Santa Maria de Namuno, em Cabo Delgado, com 135 membros. O Clube do Livro da Beira, em Sofala, situa-se em terceiro plano, com 81 membros, seguido pelo de Nampula, nessa cidade, com 60, de Milange, na Zambézia, com 43, de Chitima, em Tete, e o Clube da Escola Primária e Secundária SOS, em Maputo, ambos com 30, Inhambane, em Inhambane, Escola Secundária Comunitária Polana Caniço B, em Maputo, e Xai-Xai, em Gaza com, respectivamente, 26, 25 e 20; Vilankulo, em Inhambane, tem 22 membros, e Quelimane, na Zambézia, tem 18.

Ainda com poucos membros, relativamente, estão os Clubes do Livro de Namacurra, na Zambézia, Matola, nos arredores de Maputo, e Massinga, Inhambane, com 18, 13 e 12 membros, respectivamente. Por dificuldades de comunicação com a sua coordenadora, não conseguimos reunir os dados respeitantes ao Clube do Livro da Escola Secundária Eduardo Mondlane, do Bairro Ferroviário de Maputo.

Entretanto, recebemos manifestações de interesse e pedidos de apoio sobre as formas de criar um Clube do Livro, da Ilha de Moçambique – neste caso, associadas a professores da Universidade Lúrio –; recebemos também da Katembe, Inhaka, Namaacha, Moamba e Manhiça, na província de Maputo; de Chimoio, em Manica, e Tete, em Tete, além de duas a três escolas da região da Matola, também em Maputo. Se, por um lado, pode-se apontar a dificuldade de reunir leitores dispostos a terem encontros regulares de leitura e troca de impressões como estando na base da demora na criação desses Clubes, por outro, também a falta de livros, sobretudo nas escolas, é outro factor que, acreditamos, poderá vir a ser ultrapassado, inclusive, com o apoio de algumas parcerias que têm dado sinais positivos.

Até agora, o Clube do Livro de Maputo já recebeu cerca de 700 livros doados por entidades diversas, cuja finalidade é de distribui-los pelos clubes mais necessitados, faltando, neste momento, fazer o devido registo e catalogação. O Clube já possui o carimbo para o efeito.

Mas, comecemos pelo princípio: como surge o Clube do Livro?

 

A Ideia do Clube do Livro

 

A ideia do Clube do Livro surge no Songo, em Tete, durante uma conversa com um amigo e irmão, Tiago Milheiro, no âmbito da VIIª Edição da Feira do Livro do Songo, em Outubro do ano passado, 2018. Na conversa com o Tiago, em que falávamos de livros, leitura e hábitos de leitura, ele narrou a sua experiência sobre um Clube do Livro nascido em Lisboa, por iniciativa de amigos, e, posteriormente, em Marbella, na Espanha. Por gostarem de ler e, quando se encontrassem para beber uma cerveja, comentar os livros lidos ou que estivessem a ler, esses amigos resolveram passar a encontrar-se regularmente, uma vez por semana, para lerem em conjunto e, também em conjunto, comentarem as suas leituras. E assim foi, e assim passaram a fazer: encontrar-se em diferentes espaços públicos, escolhidos de antemão, ler durante uma hora e, na hora seguinte, um ou dois, as vezes três deles, comentavam o livro que estavam ou tivessem estado a ler e, desse modo, passavam a hora seguinte a discutir os assuntos apresentados, trocando ideias. Achei isso interessante.

E o Tiago contou, ainda, que esse grupo de amigos era eclético, em termos profissionais: aí havia cirurgiões, engenheiros disto e daquilo outro, vendedores de tabacarias, garçons, varredores de rua, entre outros. O que lhes unia era esse gosto singular pelos livros, pela leitura seguida de troca de ideias. Achei isso muito interessante. E pensei: “eu poderia inventar algo parecido, em Maputo…”. E foi o que aconteceu.

Essa conversa decorre sete meses após a minha experiência como curador, em Maputo, da Exposição Itinerante A Língua Portuguesa em Nós, organizada pelo Museu da Língua Portuguesa de São Paulo. Depois de escalar Cabo-Verde, na Cidade da Praia, e Angola, Luanda, essa exposição, já em Maputo, precisava – como precisou nesses lugares – de mediadores locais: espécie de guias da exposição para conduzir e apoiar os visitantes com as explicações ou esclarecimentos necessários.

Como curador, e professor, tinha que recrutar, de preferência entre estudantes, os potenciais mediadores, para passarem por uma formação. E assim foi. Pedi voluntários entre os meus estudantes universitários, e pedi a estes que encontrassem outros voluntários noutras turmas, faculdades, noutras escolas. E assim foi. Em pouco tempo conseguimos reunir o número suficiente para cuidar da exposição no Centro Cultural Brasil-Moçambique, durante os quarenta e cinco dias que ela durou. Esse grupo passou, pois, por uma breve formação orientada por Marina Sartori de Toledo, do Museu da Língua Portuguesa de São Paulo e grande amiga do Clube do Livro. Pessoalmente, tive o privilégio de dar uma espécie de aula sobre a história da língua portuguesa em Moçambique, desde a chegada dos primeiros navegadores portugueses à Baía de Inhambane, em 1498, passando pelas suas movimentações de índole comercial ao longo do Índico, sua fixação na Ilha de Moçambique, em 1507, sua penetração no Vale do Zambeze, em 1530 – e consequente fixação no Alto e Baixo Zambeze, Tete inclusive –, sua expansão ao Sul de Moçambique, como resultante dos acontecimentos que se seguiram à Conferência de Berlim, em 1885, e suas consequências para as regiões ocupadas, ou em vias de ocupação, pelas potências europeias. Essa espécie de aula, depois de abordar a Independência de Moçambique e a escolha da língua portuguesa como língua oficial, língua do ensino e da mídia, assim como da administração pública em Moçambique, termina com uma rápida incursão à ideia da formação de uma variedade do Português de Moçambique nos dias que correm, por várias razões. Ora, terminada a exposição, em Abril de 2018, propus aos meus estudantes-mediadores que fizéssemos um balanço do seu trabalho e envolvimento na exposição. O balanço tardou, mas aconteceu: a 1 de Novembro de 2018.

Nesse balanço, os estudantes, em número de sete – a grande maioria já se havia dispersado, retomadas as suas rotinas –, comigo oito, teceram elogios à experiência tida, porquanto lhes havia permitido adquirir novos conhecimentos, em particular sobre a língua portuguesa. Além de alguns aspectos ligados à organização e gestão de exposições. Tinham aprendido muito, conforme disseram, e gostariam de inventar algo para continuar a usufruir desse tipo de aprendizagens, paralelamente à repetitiva rotina das aulas na universidade. E avançaram propostas: ler nas escolas, para crianças – que tinham sido um público especial, bastante interactivo, durante as visitas à exposição –; esboçar projectos de publicações de uma espécie de cadernos literários universitários; entre outras propostas. Olhei para eles. E, como um tremendo relâmpago, perpassou no meu imaginário, bem clara, a conversa com o Tiago Milheiro, no Songo. Então perguntei-lhes: e se criássemos um Clube do Livro? Fez-se um silêncio. Pesado. Olharam para mim. E perguntaram: o que é um Clube do Livro? E eu tentei explicar, com base naquela conversa do Songo, com o Tiago. Meio dúbios, primeiro, mas depois bem convictos, concordaram: vamos criar o Clube do Livro!

E assim nasceu o Clube do Livro de Maputo. Hoje, Clube do Livro de Moçambique – ousamos sublinhar.

             

Objectivos e Procedimentos

Ao criarmos o Clube do Livro concordamos e decidimos que o objectivo principal era ler em conjunto, regularmente, e trocar impressões sobre as nossas leituras. Ler livros!

Ler em conjunto porque comungamos esse gosto de ler livros e trocar ideias sobre essas leituras. Sejam eles livros de poesia ou de romances. De contos ou de novelas. De textos dramáticos ou de outro tipo, como os académicos, por exemplo; textos didácticos. Assim, iríamos usufruir desse prazer conjuntamente. Por isso mesmo, também concordamos e definimos que passaríamos a ler semanalmente, todas as sextas-feiras, o que não tem sido fácil: nem todos conseguem se juntar à malta – como nos tratamos carinhosamente – às sextas-feiras. Mas também, como bem o afirma uma velha máxima, não é possível agradar a gregos e troianos ao mesmo tempo. Como tal, e apesar dos inúmeros desencontros e reclamações, passamos e continuamos a nos encontrarmos às sextas-feiras. Mais adiante, todavia, introduzimos mais dois dias de encontros: às quartas-feiras, no Campus Principal da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), e no último sábado de cada mês, como corolário do que viemos a chamar de Leitura do Mês, ambos para acomodar aqueles que não têm disponibilidade às sextas. Tem resultado, ainda que prevaleçam reclamações contra as sextas-feiras, que as mantemos.

Também concordamos e definimos os espaços públicos como locais ideais para as nossas leituras. Designadamente, jardins. Para sermos vistos, para nos expormos ao público, por forma a atrair outras e mais pessoas para o Clube do Livro: aquelas que gostam de ler e que pudessem sentir-se atraídas pela ideia de se juntar a nós e ler em grupo; mas também aquelas outras que, não sabendo que gostam de ler – ou que pudessem vir a gostar –, pudessem sentir-se atraídas por essa ideia e se juntassem a nós, nem que fosse apenas para experimentar a sensação de ler em público, ao ar livre, e depois trocar ideias sobre as coisas lidas.

Entendíamos, dessa óptica, que poderíamos, primeiro, disseminar a prática da leitura através da sua mera exposição e, desse modo, torná-la num hábito entre nós moçambicanos. Um hábito extremamente necessário e saudável, como é sobejamente sabido. Disseminando-a, tornando-a um hábito, poderíamos, por essa via, contribuir, paulatina e progressivamente, para a redução dos elevados índices de iliteracia que enfermam o país e, desde logo, contribuir também no combate e redução da baixa qualidade de ensino, bastante assustadora. Entendemos que, desse modo, estaríamos a preparar novos leitores, sobretudo os jovens e mais novos, deixando-os melhor preparados para lidar um pouco mais tranquilamente com a leitura das matérias escolares – sobretudo as mais complexas –, sua captação, absorção, processamento, tradução (ou interpretação) e transmissão. Por certo, trazer essas contribuições ao de cima e de forma concreta significa, em última análise e num sentido amplo, contribuir para o desenvolvimento do país. Concordamos sobre todos esses aspectos e marcamos a data de 16 de Novembro de 2018, uma sexta-feira, para o primeiro encontro. Também concordamos que esse primeiro encontro deveria ser registado por meio de fotografias e divulgado via “facebook”, por forma a ampliar a exposição. E assim foi, e assim tem sido desde então. Hoje, passa um ano.

 

Perspectivas

Se, por um lado, o facto de lermos em espaços públicos permitiu estimular a curiosidade de muitos e, consequentemente, a adesão de mais membros ao Clube, a divulgação desses encontros via “facebook” permitiu, por sua vez, não só atingir outras regiões do país e do mundo, mas também estimular leitores dessas outras regiões a criarem os seus próprios clubes.

Como referido, em Moçambique já contamos com 15 clubes com os quais mantemos contacto permanente, trocamos ideias e livros. Não estão aqui, mas estão connosco, pois esta celebração do primeiro ano do Clube do Livro está a ser feita por todos os clubes do livro do nosso país. Ademais, o eco das actividades do Clube do Livro chegou a países amigos como Brasil e Portugal, entre outros, que têm interagido connosco ao longo deste primeiro ano e, alguns deles, aventam a hipótese de intercâmbios vários, tendo como ponto de convergência o Livro e a Leitura.

Sentimo-nos felizes e satisfeitos por ter conseguido criar, dinamizar e manter em alta esta prática da leitura do livro que gostaríamos que se alastrasse cada vez mais pelo país inteiro, e não só, por forma a contribuir no desenvolvimento do país e dos moçambicanos, em especial das nossas crianças. Tal é a nossa principal perspectiva que, sob diversas formas, desejamos que venha a concretizar-se, com a contribuição de todos.

A terminar, devo referir que, ao longo deste ano, no Clube do Livro de Maputo, foram:

 

Autores mais lidos

1º) Mia Couto

2º) Paulina Chiziane

3º) Ungulani Ba Ka Khosa

4º) Aldino Muianga

5º) Sir Arthur Conan Doyle

 

Obras mais lidas

            1º) Mulheres de Cinza, de Mia Couto

            2º) Niketche, de Paulina Chiziane; Sherlock Holmes, de Conan Doyle; e O Alegre Canto da Perdiz, também de Paulina Chiziane.

            3º) Jesusalém, de Mia Couto, Ualalapi, de Ungulani Ba Ka Khosa, e Terra Sonâmbula, de Mia Couto.

            4º) O Sétimo Juramento, de Pauilina Chiziane.

            5º) Morri Para Viver, de Andressa Urach; O Canto dos Escravos, de Paulina Chiziane; Meledina, de Aldino Muianga; e Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra, de Mia Couto.

 

            Viva o Livro! Viva a Leitura! Viva a Livraria! E

           

Muito obrigado!

 

* Texto apresentado a 16 de Novembro de 2019, no Parke Continuadores, em Maputo, por ocasião da celebração do Primeiro Aniversário do Clube do Livro de Moçambique.

 


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