Carota: a metáfora do Zambeze*

O seu nome, Carlos Paradona Rufino Roque, mais lembra um pseudónimo pois não é comum na onomástica do Vale do Zambeze. Mais ainda, o facto de insistir naquilo que é supostamente o seu nome completo, tem o seu quê de original no mundo literário, onde os autores mesmo quando usam os seus nomes próprios e não recorrem a pseudónimos, é regra e estilo a utilização de dois, com ou sem determinantes, José Craveirinha, Mia Couto, Noémia de Sousa, Paulina Chiziane, Fernando Pessoa, Luís de Camões, Ungulani Ba Ka Khosa, Eduardo White, Viriato da Cruz. Quando muito, três Mário Pinto de Andrade, Francisco Sá de Miranda, e por aí em diante em quase todos os sistemas literários. Por isso, a primeira originalidade que nos aparece nas obras deste autor é o facto de ele fazer questão de usar o nome completo, Carlos Paradona Rufino Roque, tal como nos nossos documentos de identificação.

Pode não haver causa e efeito entre este pormenor e a sua escrita. Mas como prefaciador, isso não me passou ao lado.

O autor pediu-me para dizer algo em jeito de prefácio sobre a sua última obra, ??Carota N?tchakatcha, Feitiços e Mitos”. Mas como tinha em mão, as suas duas obras anteriores, nomeadamente e por ordem cronológica, ??Tchanaze, a Donzela de Sena″ e  ″N?Tsai Tchassassa a Virgem de Missangas”, procurei cotejar os três textos.

Na realidade, não sabia exactamente o que buscava, mais a leitura paralela dos três textos revelou-se de extrema utilidade para quem tinha a missão de escrever algo sobre um texto para motivar a sua leitura.

Reparei que o autor cultiva obsessivamente a sugestão erótica quando apresenta as suas protagonistas, todas elas virgens, donzelas, de rara beleza, mas também possuídas de mil mistérios e fatalidade várias, Tchanaze, N?Tsai ou Carota não são mais que simultaneamente, metáforas da beleza misteriosa da mulher do Vale do Zambeze e de maldição que essa beleza pode atrair para si, quando é chegada a hora da passagem para a fase adulta, nomeadamente, a sexualidade e o casamento. Por outro lado elas também são metonímias da mulher donzela deste mesmo Vale, de que se conta no seu vasto reportório literário oral com todas as vicissitudes atribuladas face ao conjunto de valores, crenças, obrigações e interdições que a cultura dos seus habitantes transformam em forma de conhecimento. Beleza, visibilidade erótica e fatalidade entrecruzam-se com os rituais e busca de compressão lógica das coisas.

 Mais reparei ainda que o autor procura registar com algum rigor a denominação do espaço antropológico e geográfico onde decorrem as acções. O nome das terras são aquelas, não tem nada de ficção, os ritos, as crenças e todo o sistema de valores também são aqueles, não ficciona, o que transforma a sua obra num ensaio antropológico com uma geografia bem determinada.

O autor tem uma preocupação de ser exaustivo quando narra ou quando descreve, mais fá-lo com a alguma mestria, o que torna os textos de leitura ligeira que permite o leitor percorrer as obras quase que de um fôlego.

Se o prefácio que me foi pedido destinava-se ao texto ?Carota N?tchakatcha, Feitiços e Mitos ? que me perdoe Carlos Paradona Rufino Roque, não pude resistir a cotejar os três romances. Neles encontro uma certa continuidade. As particularidades temáticas de cada um e em particular neste último são quanto a mim variações de uma grande narrativa, de que é peculiar o vasto património das narrativas de transmissão oral, do Vale do Zambeze, em particular e de Moçambique e porque não, africanas em geral.

Experimente o leitor ler as três obras em simultâneo, encontrará de uma forma adicionada todas as questões tratadas no dia-a-dia dos povos do Vale do Zambeze quer na vida familiar, privada, na vida pública, nas crenças de valores do mundo físico e metafísico, com os seus feiticeiros, mortos, espíritos dos antepassados, interacção entre o homem e aqueles animais que são considerados umbuidos de poderes mágicos.

Moçambique pode orgulhar-se de autores como Carlos Paradona Rufino Roque, que não precisam de ficcionar nem nomes, nem lugares, nem histórias, mas demonstram competência para actualizarem com arte o que nosso povo vem fazendo e contando no seu dia-a-dia. No fundo, Literatura é isto.

*prefácio do livro ?Carota N?tchakatcha, Feitiços e Mitos?, de Carlos Paradona. O título é nosso.

 


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