Carta aberta ao Presidente da República

Caro Presidente da República, excelência
Pensei muito se devia ou não escrever-lhe esta carta. Se não estaria a aumentar lhe o stresse. Compreendo que tem em cima da mesa muitos problemas por resolver. Sei que está preocupado com o assunto das dívidas ocultas que, de certra forma, prejudicaram a sua governação.

Com a sua descoberta, Moçambique perdeu o apoio da comunidade internacional ao Orçamento Geral do Estado. O Banco Munidial e o Fundo Monetário Internacional também ficaram longe. Outros doadores ficaram em cima do muro.

O antigo ministro das Finanças do país, Manuel Chang, está detido há cerca de dois anos na África do Sul e o seu governo luta pela sua extradição para Moçambique. A nível interno, há 19 pessoas detidas em conexão com o crime. O caso está longe de ser esclarecido.

Sei, senhor presidente, que o senhor às vezes não apanha sono por até agora não ter conseguido pôr fim aos ataques sistemáticos da Junta Militar da Renamo (JMR) em Manica e Sofala, comandada pelo General Mariano Nhongo. A solução militar à guerrilha feita por estes homens vai tarde, mas a via de diálogo, essa, está sempre a sorrir para si.

Estou informado, e lamento, que tenha falhado a mediação das Nações Unidas, que aconteceu com o seu consentimento, em busca de solução para o problema. A ONU diz que Nhongo é “inflexível”, mas não desista.

Quase todas as semanas há notícias de morte, destruição e saque de bens públicos, a exemplo de medicamentos, e da população. Tudo da responsabilidade da JMR cujo líder diz que só aceita conversar consigo. O que aconteceria se aceitasse ouvi-lo?

Estou consciente da sua preocupação em relação aos ataques em Cabo Delgado atribuidos a terroristas que, segundo o senhor disse noutro dia, estes estão a ser manipulados para servirem elites internas e externas.

Senhor presidente, confesso que quase não lhe escrevia esta carta quando pensei que, se calhar, não era um bom momento porque tinha muito que pensar nestes e noutros problemas ainda sem desfecho à vista. Soluções que tardam a aparecer, apesar de noites e noites de pesadelos. De noites e noites em claro a tentar descobrir saidas para os mesmos.

Quase desistia ao pensar que depois de quatro meses de estado de emergência está sob pressão para relaxar algumas medidas restritivas e permitir o regresso do país à nova normalidade, numa altura em que a subida galopante de casos de infecções com o coronavirus exige o agravamento das mesmas na tentativa de cortar cadeias de transmissão. Senhor presidente, juro que não gostaria de estar na sua pele.

Foi conversando com os meus botões que acabei chegando à conclusão de que o melhor seria mesmo escrever para estar bem comigo mesmo. Para que, como cidadão atento e preocupado com o que se passa no país, possa deixar a minha singela contribuição acerca do que lhe quero falar.

 

Senhor Presidente, excelência

Resolvi escrever-lhe esta carta para exprimir a minha preocupação quanto ao movimento tendente à reabertura das igrejas. Será, mesmo, boa ideia levantar a proibição dos cultos religiosos numa altura em que casos de infecções estão a multiplicar-se dia-pós-dia com maior velocidade e recomenda-se que haja menor mobilidade das pessoas, senhor presidente?

Para começar, os líderes religiosos não se organizaram o suficiente para baterem a sua porta. Estão a cometer os mesmos erros que da Educação. Correm atrás da galinha com o sal na mão. Antes de sonharem com a retoma, não acha que deviam ter feito um trabalho de casa como deve ser? Tinham que avaliar primeiro os prós e os contras e produzirem uma proposta concreta para ajudar a analisar o assunto e tomar melhor decisão. Proposta que apresenta garantias de que não há o risco de propagação de coronavirus.

Pensei que a transmissão das missas através de canais de televisão que tanto aplaudi pela criatividade e pelo uso das tecnologias de comunicação e informação disponíveis, particularmente no domingo da páscoa, fosse algo para durar. A nova forma de ser e estar das congregações religiosas moçambicanas enquanto continuar a situação de coronavirus no país.


Senhor presidente, excelência

O argumento que os líderes religiosos apresentam parece-me pouco convincente ou, pelo menos, não é suficiente para forçar uma decisão favorável ao seu pedido. Pegam-se em coisas básicas como a garantia da colocação de baldes com água e sabão à porta da igreja, distanciamento social e o uso da máscara para justificarem que as missas realizar-se-ão num ambiente de segurança.

Se isso bastasse, então não teria sido necessário o governo mandar fechar os locais de culto quando os casos de infecções começaram a crescer no país. Está claro que há alguns problemas de profundo que podem contribuir para a propagação do vírus.

Um deles é que faz parte do estilo de algumas igrejas o contacto fisico entre os crentes e estes com os pastores durante a missa. Essa prática, nos dias de hoje, é perigosa e não recomendável porque pode levar à contaminação entre as pessoas.

Há o caso das correntes que são feitas em que toda a igreja fica de mãos dadas enquanto o pastor prega.  O contacto físico é igualmente inevitável, sobretudo nas igrejas protestantes, quando alguém manifesta em plena oração, encarnando espíritos maliciosos, em missas específicas de libertação, com o envolvimento de pastores e obreiros.

Não me parece forte a tese de que a reabertura dos locais de cultos é para permitir que as igrejas participem na mobilização ou educação do público para elevar a consciência do público em relacão ao coronavirus. É que para fazer isso não é preciso abrir as portas das igrejas.

Há várias formas que podem ser usas, desde as tecnologias de comunicação e informação, passando pela transmissão de missas pela TV, ao uso de outras ferramentas.


Senhor presidente, excelência

O senhor tem a consciência de quantas igrejas existem em Moçambique? Claro que não. Nem eu tenho. Andam aos milhares. Agora pegou moda. Qualquer um, querendo, abre uma igreja na sua casa, ao lado ou noutro sítio. O segredo está na caça aos dízimos. Alguns saem-se bem e ganham dinheiro com isso.

Para terem popularidade, esse tipo de congregações usa meios de comunicação social como jornais e canais de televisão. Produzem cartazes ou panfletos a dizerem que curam o SIDA e outras doenças sobre as quais a ciência ainda não tem resposta. Outros enchem a sala através de milagres atrás de milagres. Seria tão bom que as doenças fossem curadas com uma simples oração.

Como pode imaginar, a maior parte dessas igrejas actua fora da lei. Os seus donos não só não estão licenciados pelo Ministério da Justiça Assuntos Constitucionais e Religiosos, como não têm qualquer formação em teologia para estarem em frente de uma igreja. Eis a razão por que temos hoje muitos charlatões no país. 

 
Excelência.

O senhor não acha que as condições exigidas para autorizar a abertura de uma igreja são simples demais? Juntar 600 assinaturas é muito pouco para termos qualidade. Para termos igrejas que podemos respeitar pelo seu papel na educação e moralização da sociedade. Parece que vamos passar para 16 mil. Mesmo assim, o número continua baixo.

Alguns países do mundo exigem que o pedido para a abertura de uma igreja seja acompanhado por 600 mil subscritores. Como se isso não bastasse, o proponente tem que provar, através de um diploma ou de um certificado, que é doutorado em teologia.

Uma decisão sobre a retoma dos cultos religiosos vai significar, também, a reabertura daquele género de igrejas. O mais grave é que algumas delas não têm as mínimas condições para o funcionamento, como água canalizada e casas de banho condignas, o que representa um risco de propagação de coronavirus.
Uma vez levantada a proibição, quem vai impedir que estes locais de cultos regressem igualmente à normalidade se eles em si já são ilegais? Como é que o Estado vai garantir que eles são fiscalizados e que cumprem com as medidas de prevenção contra o coronavirus? Como chegar a eles se não há nenhum registo sobre a sua existência ou localização? São perguntas que se levantam e que nos levam a uma reflexão profunda sobre a possibilidade de reabertura das igrejas no país.

Todos gostamos de rezar. Creio que o senhor também. Anseamos regressar às nossas igrejas onde fomos baptizados e crismados. Onde foi celebrado o nosso casamento. Locais de culto onde louvamos a Deus, salvador da humanidade, mas temos que esperar pelo melhor momento. Temos que aguardar até que a retoma não represente nenhum perigo para todos nós e que a decisão acerca do assunto seja de consenso.

Enquanto isso, cada um vai rezando no seu canto porque, afinal, igreja não significa um espaço físico, mas pessoas e o resto, segundo os próprios líderes religiosos, é uma questão da fé.

Senhor presidente, desculpa por eu ter sido longo. Deixei-me levar pela emoção. Até outro dia.

 


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