Carta de Luanda IV

Ao longo dos meus alongamentos cerebrais, não raras vezes, tenho cruzado com um assunto que é – nada mais nada menos –, o assunto das crónicas sem assunto. Agora, ao arriscar tocar neste assunto, corro o risco de ser considerado como tal. Um tal de autor de texto sem assunto.

Na verdade, predispus-me a escrever em razão de uma aguda e insolente insónia que há dois dias me assola, provavelmente, tendo como causa as exageradas doses de cafeína, mais uns charutansos nas jornadas retrasadas.

São três da matina e rebolando na posição horizontal – claro! –, olho pró lado e contemplo o Bicho numa aparente, saudável e luxuosa soneca. Antes mesmo de me levantar confirmo ser ela muito boa de respiração. Não há rinoceronte que lha enfrenta em caso de desafios a fio. Sinto-me também nas vestes dos Pablos. Primeiro, de Picasso delineando com os olhos os contornos do alheio corpo desnudo. Depois, de Neruda que num instante me incendiou as entranhas inspirando-me estes versos para uma por/suposta:

VERÓNICA. No meio das tuas temperadas coxas/contundente reside um continente com seus mares/de mais intercalares e felinos olhares seculares/onde desaguam incolores os jorros deste jarro.//No seio dos teus seios de divinos paladares/habita o leite ainda não derramado/nas papilas deste faminto andarilho que sou/ nos (uni)versos do teu corpo!

Da janela do quarto, observo uma divinal paisagem nocturna, com o Mussulo e a Ilha Dos Pássaros já bem às escuras, quando num repente tudo ao redor escurece também. Triste. Resta-me a beleza do mar agora envaidecido com o flourescente brilho da lua reflectindo na sua pele ondular. Sevícias da empresa de distribuição eléctrica em Luanda. A EDEL dos nossos hábitos e costumes.

Irritado mas conformado, volto a deitar-me e, logo-logo, minutos depois, é reposta a «legalidade» iluminática. Provavelmente, um qualquer animal (ir)racional ou mesmo um sapateiro matreiro, dado à elétrico-electrónicas aventuraças, por (des)propositado engano, deve ter posto as patas na patilha em que não devia. Então levanta-se (de)novamente o escriba que, espiritualmente e por momentos, deixou de habitar em mim.

Adentro o escritório, pela porta ao lado da porta do quarto da Casa-Museu que me recolhe neste merecido 2º piso, onde me encontro na rua do pôr-do-sol ao Benfica de Belas silhuetas caluandas e, prossigo a aventureira procura de um assunto para então consumar a minha escrita neste texto cujo assunto – sei de antemão! –, reside no facto de inexistir um assunto para redigir, iniciando assim, esta crónica sem assunto.

Sem mais contra-curvas, sento-me na cadeira já a precisar de substituição nos próximos dias e, debruço-me sobre a escrivaninha com tampo de correr, do tipo daquela do poeta Pessoa que o pessoano João Paulo Cavalcanti Filho, juntamente com a Royale máquina de escrever do Senhor Fernando, arrematou por uns míseros noventa e tal mil euros num leilão em Lisboa.

Já sentado e decidido, recupero a inspiração do cronista ainda sem assunto que por culpa da EDEL nossa de todos os dias se havia já passado.

Mentalmente recuperado, pese a chatice da insónia, cá estou à procura do assunto. Primeiro, arrumando a mesa e na sequência, mexendo e remexendo. Papéis pra aqui, papéis pra acolá. Vou ordenando o papelsório e o pensamento, quando – depois de ter avistado o Livro dos Livros –, inesperadamente ataco com os olhos e saltam-me para as mãos as mais importantes cartas que qualquer jovem poeta deve ler e reler.

Refiro-me, sem medo de errar, às «Cartas a Um Jovem Poeta», assinadas por um tal de Maria Rilke que, nascido em Praga, então capital da Boémia integrada no Estado dos Habsburgos, em vida atendia pelo nome de Rainer.

São dez cartas no total, endereçadas para um destinatário concreto. Franz Kappus. Um jovem oficial do exército austríaco autor de algumas experiências poéticas que aos dezanove anitos ousou escrever para o poeta, pedindo opinião sobre aquilo que rabiscava em seus papéis nas horas de lazer.

Segundo o próprio Kappus, «várias semanas passaram até que a resposta chegasse. A carta selada de azul trazia o carimbo de Paris, era pesada e exibia no sobrescrito a mesma caligrafia nítida, bela e segura que compunha o texto da primeira à última linha», tendo assim começado uma troca de correspondência regular que se prolongou até 1908 e cuja importância reside fundamentalmente no facto de serem cartas que podem interessar «também a muitos dos que hoje crescem e aos que ainda estão por vir nos dias de amanhã», pois segundo ainda o discípulo de Rilke em 1929, «quando fala um Grande e Inigualável os pequenos calam-se» e, acrescento, escutam, aprendem e devem agradecer.

É justamente por isso que ainda cá andamos à procura de um assunto para este texto. Acreditem. E não vai este tornar-se, definitivamente, o assunto desta viagem no texto que agora desejo sem assunto até ao fim, mas, tenho na memória também uma outra importantíssima “Carta”. De Virginia Woolf, também “... A Um Jovem Poeta” que, há cerca de trinta anos, o David Mestre me deu para ler com sérias recomendações, que ainda hoje me têm sido úteis e, só agora e tardia mas publicamente, agradeço.

Tanto Rilke como Woolf aconselham jovens principiantes. Diz-se que os seus conselhos vão em sentidos opostos, mas coincidem fundamentalmente no momento em que aconselham os seus correspondentes a não terem pressa de publicar, pois para Virginia, enquanto jovens podemos escrever disparates, cometer até erros gramaticais e inventar seja lá o que for... sendo assim que se aprende a escrever, ficando com a sua liberdade em perigo todo aquele que, em jovem, indiscriminada e apressadamente publicar.

Já Rilke insiste na paciência, no trabalho e na crença na própria vida, pois, para ele a vida tem sempre razão e, «Nessa vida o tempo não é uma medida. Um ano nada é, e dez anos não são nada; ser artista significa: não fazer cálculos nem contas, amadurecer como uma árvore que não força a sua própria seiva e resiste, confiante nas tempestades da Primavera, sem recear que o Verão possa não vir depois ...a paciência é tudo!». Até mesmo na vã tentativa de encontrar um assunto para esta crónica que definitivamente terminará por acabar ou acabará por terminar sem o dito cujo assunto.

Finalmente, vem-me à tona uma questão identitária. A questão da idade que, suponho, não deve ser vista sob parâmetros balizados de forma rigorosa, apesar de Ortega Y Gasset – na sua Meditação Del Pueblo Joven –, ter dito ser (mais ou menos) aos trinta anos de idade que os Homens começam a ser fiéis a si mesmo, pois, em jovens sempre preferimos as coisas dos outros em vez das nossas, vivendo sempre em constante imitação.

Assim sendo, com assunto ou sem assunto, apraz-me visitar uma vez mais o pensamento da “lírica” prosadora fascinada por versos que foi Virginia Woolf. Corajosamente disse esta ao seu jovem correspondente: «A maior parte dos defeitos dos poemas que li pode ser explicada, creio, pelo facto de estes serem expostos à luz feroz da publicidade, quando são ainda muito novos para lhe resistirem». Entretanto lhe havia já dito:«...E, por amor de Deus, não publique nada antes dos trinta anos». Ponto & final!

 

 


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