“Cicatriz encarnada”: o retrato do espaço

“Cicatriz encarnada”: o retrato do espaço

Porque a alma não vive entre as coisas/ mas na acção ousada de as decifrar
Raquel Lanseros


Os subúrbios de Maputo encerram, na sua essência, vários momentos importantes da vida dos moçambicanos. Por isso, não faltam autores que encontram naqueles espaços a lanterna que ilumina o poder da criatividade literária. Um desses autores é Rogério Manjate, homem de teatro que também faz da escrita uma forma de alongar a vida, sempre breve quanto efémera.

Na colectânea de poesia Cicatriz encarnada, Manjate manipula o tempo e regressa ao passado, no qual habita, quiçá, a imagem eterna de um contexto feito de outras vicissitudes. O propósito, a existir algum, é maior: cantar Malanga como quem reconhece que disso depende a sonoridade que se quer afinada. Do mesmo jeito que Adelino Timóteo não se cansa de fazer de Macurungo o centro do mundo, seguindo esta pegada, à imagem de autores como Luandino Vieira, em relação a Makulusu, Craveirinha, em relação às suas Mafalalas – que não são apenas Mafalala –, o nosso poeta, nesta Cicatriz, faz da Malanga um lugar marcante, com o protagonismo que isso merece, mesmo quando o lugar é algo sem esperanças, feito de pesadelos. Deste modo, esta proposta literária exprime sentimentos com apego a certos hábitos e costumes, bem como ao imaginário de uma gente que se dedica a retirar dos pesadelos diários a alegria que a dança, as estórias à volta da fogueira garantem. Temos aqui um espaço-casa, com o conforto que tudo isso implica. Daí nos revermos, nós, os frutos desses lugares suburbanos, em demasia, quase em anacronia.

Cicatriz encarnada não deixa de nos entregar circunstâncias feitas de sonhos enterrados, uma poesia feita de dor de ver a casa, o lar, perder o seu carácter acolhedor: “a mesa já não é o centro da família” (p. 28).
Malanga é a casa dos sujeitos poéticos, onde a mágoa constante de uma realidade cruel dá intervalos intermitentes ao sorriso de uma infância perdida, tudo feito num jogo simétrico.

Sem que esta homenagem a Malanga e aos subúrbios em geral torne-se algo forçado, cansativo de se ler, longe disso, a qualidade reflectida no livro faz das 49 páginas deveras poucas, a versificação leva-nos a uma realidade humilde, por via dos cheiros, da arquitectura dos zincos e caniços que as palavras concretizam, como se fossem ferro e betão armado. Parece-nos que temos aqui uma poesia movida pela saudade ou, pelo menos, temos uma saudade provocada, que aproxima Cicatriz encarnada à escrita de um Aldino Muianga, afinal, Rogério Manjate canta o subúrbio como quem recupera os encantos de um Domador de burros ou mesmo Dos meninos da Malanga, de Calane da Silva. Como calha em Calane, em Cicatriz encarnada Malanga é um espaço indispensável, porque “dentro do céu da Malanga,/ o chão brinca de pensar/ e quer ser pássaro” (p. 35).

À laia de um contador de estórias sobre lugares, Rogério Manjate faz, digamos, da técnica narrativa um truque para que a sua poesia seja penetrante, cativante, algo que nos reaproxima a uma época dos que, à sua maneira, souberam conquistar a cidade.

Título: Cicatriz encarnada
Autor: Rogério Manjate
Editora: Cavalo do Mar
Classificação: 15

 


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