“Clubes querem aproveitar-se da pandemia para fugir das suas responsabilidades ”

“Clubes querem aproveitar-se da pandemia para fugir das suas responsabilidades ”

O ar gélido que lhe percorria o corpo não o impediu de soltar a voz, lá do planalto de Manica, para opinar sobre um tema sensível quanto polémico. Igual a si mesmo, não hesitou em bater de frente com o que acha injusto.  O instrutor da Confederação Africana de Futebol  ( CAF) para futsal,  Inácio Sambo,  contesta a proposta  apresentada pelos clubes para a fixação de tecto salarial nas equipas que disputam a prova mãe do futebol moçambicano. Sambo fala em marginalização dos jogadores. O antigo seleccionador nacional de futsal diz, no entanto, que o debate é pertimente mas defende que todos actores do futebol devem ser ouvidos.

 

Clubes, Sindicato Nacional de Jogadores de Futebol e Associação de Treinadores de Futebol iniciaram, há dias, uma discussão para fixação de tectos salariais nas equipas que evoluem no Moçambola. Qual a sua visão sobre esta proposta em termos de conteúdo e viabilidade , tendo conta a realidade do futebol moçambicano?

Não é oportuno tomar decisões. Se o debate é oportuno, portanto, a tomada de decisões já não no contexto em que nos encontramos. Os jogaodores, repito, sairão em desvantagem neste  contexto porque estamos numa situação em que país está a ser afectado pela pandemia da Covid-19. As empresas não estão a produzir, as equipas não estão a treinar, vamos jogar à porta fechada. Portanto, todas decisoes serao tomadas em função da situação em que nos encontramos. Nós sabemos que esta situação é passageira. Tem que se tomar uma decisão olhando para o futuro. Nós sabemos que isto vai passar, a nossa economia irá ret0mar e tudo voltará à normalidade. As coisas foram decididas num contexto em que nós não estavamos em condições de poder tomar este tipo de decisões. Eu penso que se deve discutir, sim, mas as decisões devem ser tomadas em função do futuro do jogador. O atleta é que deve dar o espectáculo. Portanto, se o atleta está desmotivado

 

Ao que o “O País” apurou, os clubes avançam com uma prosta de um salário mínimo de seis meticais e máximo de cinquenta mil. É justo? Estes valores aproximam-se das necessidades dos jogadores e realidade dos clubes?

Não concordo com o salário míninmo.  Porquê? Porque estamos a dar o salário minímo os atleta de seis mil meticais, mas sabemos que a carreira de um atleta dura 10/15 anos em Moçambique. Portanto, o jogador é remunerado a partir dos 18 anos e, até aos 28, já terminou a carreira. E, portanto, o que é feito desse jogador? Como é que ele se arranja? Como é que será a reforma deste jogador para poder se beneficiar da segurança social? Eu acho que é um período muito curto. Não é por acaso que eles recebem valores altos.  Isto acontece, também,  porque a sua carreira é curta. Tem que ser revista, para além de que está a dar-se um salário mínimo de um escalão. Nós temos que olhar para as diversas actividades económicas. Sabemos que a cultura tem um salário mínimo. Os serviços administrativos têm um salário mínimo. A panificação tem um salário mínimo. Os atletas também. Qual é o salário mínimo dos jogadores do Moçambola? Qual é salário mínimo dos jogadores que competem ao nível provincial? Portanto, é neste aspecto que temos que discutir. Deve-se estabelecer esses escalões todos, ou seja, salário mínimo para cada caso. Uma equipa da província, ou seja, que disputa o campeonato provincial, é diferente de um conjunto que evolui no Moçambola. Esse é um caso. Qual é o tratamento que se vai dar aos estrangeiros? Qual é o salário mínimo dos estrangeiros? Não quero falar do salário máximo.  O salário mínimo é o que conta mais porque os jogadores precisam, de facto, de ter uma base que possam estar motivados. Se de um lado a Federação Moçambicana de Futebol está a organizar os seus diversos departamentos, formação de atletas, formação de treinadores, do outro lado vai desmotivar os atletas. Nós nunca mais vamos bater o que pretendemos. O salário mínimo de seis mil meticais é de um padeiro que trabalha 35 ou 50 anos. Agora, um jogador que vai trabalhar 15 anos não pode ser. Por favor, a Cesár o que é de Cesár. Temos que olhar para este lado da carreira do jogador.

 

“Descontos no INSS? Isto é esperteza de saloio”

Os clubes defendem ainda  que há  necessidade de se fixar  um salário mínimo e  máximo dadas as dificuldades  que estão a atravessar neste momento, uma vez que  não há fontes de receitas seguras…

Eu continuo a rebater esta questão de que, no contexto em que nos encontramos, não podemos tomar decisões. Este momento de pandemia é para nos cuidarmos. Temos que velar pela nossa saúde. Se nós tivermos que velar pela nossa saúde e, ao mesmo tempo, termos que tomar decisões nas outras áreas, fica um pouco complicado. Eu penso que podemos debater o assunto no sentido de encontrarmos os pontos para, no momento certo, podermos tomar as decisões certas.  Fora disso, vamos tomar decisões que vão lesar os atletas. O Sindicato Nacional de Jogaodres deve reunir com os atletas por forma a ouvir a sua sensibilidade para depois decidir o futuro, obedecendo os escalões que referi. Devem, neste momento, estabelecer o tecto para o Moçambola,  provincial    e divisão de honra. E, acima de tudo, dizer qual o tratamento a ser dado aos jogadores estrangeiros.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                        

Os clubes querem que  sejam os próprios jogadores  a assumir os descontos para o Instituto Nacional de Segurança Social. Faz sentido que os jogadores assumam esta responsabilidade de descontar no INSS?

Isto é esperteza de saloio. Quer dizer, nem o Ministério do Trabalho pode concordar com isso. E os 4% dos clubes? Portanto, eu acho que não é correcto. O clube deve fazer a folha de salário e  encaminhar as contribuíções dos seus jogadores e outros trabalhadores da colectividade. É isto que os clubes devem fazer porque os 4% estão lá. Nas outras empresas ou áreas, o trabalhador  paga 3% e a empresa  entra com 4%. Onde é que vão os outros 4%? Agora, numa situação de desemprego, o atleta vai-se encarregar de contribuir e meter o valor que é para a sua reforma. Isso de deixar os atletas se encarregarem do desconto ao INSS não faz sentido. Mesmo o Governo, acredito, não pode aceitar isso. É o clube que está a fugir das suas responsabilidades. É obrigação do clube encaminhar a sua contribuíção e a dos atletas: 4% de um lado e 3 do outro. Os clubes reuniram-se e estão a tomar decisões a seu favor. Está tudo a penalizar o atleta e, depois, vamos exigir alto rendimento. Queremos ter atletas motivados, quando desde logo traçamos caminhos que desmotivam os mesmos.

 


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