Conselho de Ministros decreta sete dias de luto nacional em memória do Marcelino dos Santo

Conselho de Ministros decreta sete dias de luto nacional em memória do Marcelino dos Santo

O governo moçambicano decretou sete dias de luto nacional alusivo à morte de Marcelino dos Santos, veterano de luta de libertação nacional., cujo funeral está marcado para a próxima quarta-feira, na Praça dos Heróis na capital do país

A decisão foi aprovada nesta quarta-feira, em sessão extraordinária do executivo, que decidiu que as exéquias fúnebres do Major General Marcelino dos Santos, que perdeu a vida na terça-feira, vítima de doença, deverão obedecer todas as honras do Estado.

Deste modo o Conselho de Ministros determinou “realizar o funeral de Estado” com as exéquias fúnebres a iniciarem no dia 18 de Fevereiro corrente, com um velório nos Paços do Município, na cidade do Maputo, e o funeral, no dia 19, na Praça dos Heróis, na capital do país.

O Conselho de Ministros destacou a vida e obra de Marcelino dos Santos, realçando “o sacrifício, a coragem, audácia e abnegação na resistência contra a ocupação estrangeira, na luta de libertação nacional contra o colonialismo, na luta contra o racismo e outras formas de opressão e dominação, bem como os serviços relevantes prestados ao Estado moçambicano”.

Refira-se que durante os sete dias em que vai durar o luto, a bandeira nacional deverá estar a meia haste em todas as instituições públicas e privadas e, fora do país, este sinal deverá ser observado nas representações diplomáticas e consulares nacionais.

Marcelino dos Santos (Kalungano) morreu na terça-feira, em Maputo, aos 90 anos, vítima de doença. A notícia foi dada pelo Presidente da República, a partir da cidade de Pemba, em Cabo Delgado, onde orientava um comício.
Filipe Nyusi disse que o país perdeu um herói no qual os moçambicanos devem se inspirar.

Diferentes personalidades vergam-se em reconhecimento ao heroísmo de Kalungano e o descrevem como um homem que sempre lutou pela libertação do país e dos moçambicanos.


“Inspirem-se e continuem a imortalizar este homem”

Marcelino dos Santos foi o sexto dirigente da província de Sofala, entre 1983 a 1986, em substituição de Armado Guebuza, na altura ministro residente. Os actuais timoneiros da província, Stella Zeca e Lourenço Bulha, secretária de Estado e governador, respectivamente, entendem que os moçambicanos não podem ficar abalados pelo desaparecimento físico do herói nacional. O seu desaparecimento físico deve ser um catalisador para que o seu legado seja perpétuo.

“O legado dele [Kalungano] é de muitos outros lutadores pela independência nacional. Cada moçambicano, no seu sector, pode inspirar-se naquilo que ele foi, pode inspirar-se nos valores que ele passou em vida. Marcelino dos Santos mesmo com a saúde debilitada ele continuava a passar valores patrióticos para as novas gerações. Portanto, fazemos um apelo para que todos os moçambicanos, sem distinção, continuem a imortalizar este homem”, afirmou Stella Zeca.

Para Lourenço Bulha, “Moçambique perdeu um grande lutador, um grande combatente em todas as vertentes e com princípios norteados. Quando se empenhava por uma causa ele não recuava. Esta característica devia ser seguida pelos moçambicanos na luta pelo subdesenvolvimento e na construção de uma nação sólida. Os jovens deviam seguir os passos deste que é um dos heróis nacionais, que ideias próprias de âmbito nacional e patrióticas e era muito corajoso. Inspirem-se nele”.

 

“Foi um revolucionário abnegado, militante da sua ideologia e socialista consequente”

Pio Matos, governador da Zambézia, disse que que o herói nacional para além de dar a sua vida pela pátria, sempre se preocupou com o bem-estar social do povo
 
“Lembro-me que, em muitos encontros e dos relatórios que nos líamos, dizíamos Moçambique está a crescer a cinco dígitos. E ele, sempre perguntava: «Mas este crescimento que Moçambique está a ter, está a entrar nos pratos da nossa população? Está melhorar a vida do nosso povo?»”
 
O governador da Zambézia destacou também as funções que Kalungano desempenhou como Presidente da Assembleia popular, como ministro da Planificação e Desenvolvimento, como governador em Sofala e fê-lo sempre com dedicação e entrega para o bem nação moçambicana.
 
Para Pio Matos, as questões de Marcelino dos Santos sobre o crescimento do país revelavam sempre a sua preocupação em saber dividir a riqueza para todos. Disse que a sua luta foi sempre pela felicidade do povo. “Dos Santos foi um revolucionário abnegado, um militante do partido Frelimo que não se distanciou da sua ideologia, um socialista consequente. É um herói nacional, aquém todos temos que venerar”.
 

Marcelino dos Santos conviveu com todos no Chamanculo “A”

O bairro de Chamanculo “A”, na cidade de Maputo, guarda memórias de Marcelino dos Santos. Foi lá onde viveu a mãe do herói nacional. Moradores e vizinhos choram a morte do homem que conviveu com todos, partilhou e ajudou muita gente.

Aliás, no Chamanculo “A”, periferia da capital do país, existe uma rua baptizada com o nome do político e poeta cuja vida e obra se confunde com a história do país e da Frelimo. A Rua Marcelino dos Santos.

A via dá leva à casa – simples mas carregada de história – onde Marcelino dos Santos era visto com regularidade quando fosse visitar a sua mãe.

Laura Stefani, residente naquele bairro, contou que um dos seus filhos frequentou a universidade graças ao apoio de Marcelino dos Santos.

Sentada na varanda da sua casa, Laura revelou ter memórias frescas sobre Marcelino dos Santos e admitiu estar chocada com a sua morte.

“Ele foi uma pessoa muito boa para mim. Ajudou-me… e o meu filho entrou na universidade graças ao apoio dele. Para além disso era social”, disse a entrevistada, salientando que quando o herói nacional chegava no bairro não entrava na casa da mãe sem antes cumprimentar alguns vizinhos.

António Medeiros, vizinho da casa da mãe de Marcelino dos Santos disse ao “O País” que perdeu um amigo.

Amigo de todos é como Sílvia Mangano, também residente no Chamanculo “A”, descreve o Marcelino dos Santos. Garantiu que brincou por muito tempo na casa da mãe de Kalungano quando era mais jovem.
O antigo secretário-geral da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) considera que Kalungano ou Lilinho Micaio é uma referência na poesia de combate. É necessário divulgar a obra e o pensamento do herói nacional, afirmou Jorge Oliveira.

A fonte explicou que Kalungano é uma grande referência da poesia de combate por ter, a par de outros companheiros, lutado pela libertação do país através das artes.


Lutou pela causa dos moçambicanos

O edil da cidade da Beira endereçou condolências à família de Marcelino dos Santos à Frelimo, porque não existem dúvidas de que a perda de um parente e ou uma pessoa muito próxima é sempre dolorosa.

Daviz Simango disse que o herói nacional deixa saudades para os moçambicanos, mormente para quem o rodeava. Ele lembra-se do ícone da libertação nacional em diferentes momentos, sendo um deles o da sua união a muitos outros jovens, no princípio dos anos 60, para libertar o país, por uma causa do povo moçambicano.


Marcelino dos Santos: “companheiro de todas as horas” de Amílcar Cabral

O maior partido da oposição cabo-verdiana – Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV) – disse ontem que Marcelino dos Santos como um “combatente exemplar” e foi “companheiro de todas as horas” de Amílcar Cabral, Samora Machel, Agostinho Neto, Aristides Pereira e “tantos outros, os quais escreveram com letras de ouro o processo conducente à independência nacional dos nossos países”.

Na sua mensagem de pesar, a líder daquele partido, Janira Hopffer Almada, diz que os momentos que Marcelino dos Santos viveu com outras figuras que deram corpo pela independência dos seus países são “históricos, jamais serão esquecidos” por conta dos “enormes sacrifícios consentidos”, particularmente pelo “elevado espírito patriótico sem falhas, pela clarividência de uma inteligência ímpar, pelo amor à pátria e às nobres causas dos povos sob jugo colonial”.

PAICV é uma das principais formações políticas responsáveis pelo processo que levou à independência de Cabo-Verde.

Janira Almada descreve Marcelino dos Santos com “um combatente exemplar nas várias frentes da luta, distinguindo-se sempre, muito em particular nas relações diplomáticas, e ainda no contributo maior que dedicou à edificação do Estado de Moçambique no pós-independência”, segundo a Lusa.

Janira endereçou votos de pesar à Frelimo, sentimentos de “maior conforto” à família enlutada e leva a figura de Marcelino dos Santos à memória como sendo “um amigo e um camarada de longa data, de muitas e inesquecíveis lutas, de elevada estatura moral e patriótica. Um homem com apurado sentido de Estado e cujo rico legado, certamente, irá inspirar muito, em particular, a juventude”.

 

 


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