Consistência, um poder de cura da crise existencial

“Nunca é alto o preço a pagar pelo privilégio de pertencer a si mesmo”, Friedrich Nietzsche


A morte é o recipiente inferior da ampulheta e os grãos de areia que inelutavelmente caiem nele somos nós, os seres humanos. A queda é iminente. Ninguém sabe se está perto ou distante do funil para boca da morte. Estamos todos misturados e distraídos com a fugacidade do mundo até que, de repente, o chão que pisamos se nos abre num abismo sem mais saída. E aqueles, que dispõem da sorte finita de colocar o pé num degrau rígido, voltam-se às pegadas da nossa vida para perceber “qual foi o destino traçado pelos nossos passos?”

Quanto menos cambaleantes tiverem sido os nossos passos na vida, mais nítida é a nossa existência no mundo. Se quisermos deixar uma memória concisa sobre nossa existência no cosmos, é mister que os nossos passos, em forma de decisões e acções, sejam tão consistentes quanto possível. Eis o poder existencial da consistência que não se nos afigura fácil de conquistar tal como qualquer outro tipo de poder. Para conquista da essência da nossa existência, mais do que carácter, é-nos preciso uma vida acorrentada aos princípios ético-morais, a virtudes ou à negação radical de quaisquer princípios – o que se chama nihilismo. Caso contrário, a nossa existência incorre no risco de ser medíocre, extinguindo-se connosco tão rápido quanto o abraço da morte. Os princípios ético-morais, aqui referidos, não têm de ser necessariamente valores convencionados pela sociedade. É-nos possível projectar a nossa essência para o mundo por meio da contra-cultura ou concepção subjectiva dos valores.

Todavia, o homem enquanto vivo está destinado à falibilidade de contemplar-se como projecto final. Tal falibilidade deve-se ao facto do fim da sua acção ser imprevisível, embora definida a sua intenção. Hannah Arendt já cogitara tal impossibilidade de homem conhecer a sua essência em vida, cabendo sempre aos terceiros biografar a sua identidade póstuma. Constitui, especialmente, um dever dos historiadores, escritores, poetas e artistas perpetuar a memória daqueles que em vida disseram e praticaram palavras e actos extraordinários testemunhados pelos homens.

Mesmo que o homem não chegue a se contemplar como resultado final do seu próprio projecto ainda vivo, a sua vida é digna de honra pela consistência com que se desdobrou ao longo do tempo. E para buscar-se uma vida d’honra, todos os homens dispõem das mesmas oportunidades, não importando as circunstâncias a que estão sujeitos. A condição sin qua non de uma vida d’honra inconfundível é a consistência nas palavras e acções. A dupla moralidade é própria de um homem medíocre que deixando se vitimizar pelas circunstâncias fugazes do mundo esvai o barro da sua vida sem nunca ter moldado o seu próprio ser. O aforismo “sou eu e as minhas circunstâncias” de Ortega y Gasset, quando interpretado como manifesto de um homem que busca definir o seu ser em função das circunstâncias, revela-se-nos uma filosofia de vida que ordena ao olvidamento constante de quaisquer traços ontológicos do homem ao longo de uma série de situações. Ou seja, na perspectiva de Ortega y Gasset, o ser humano é incapaz de construir-se ao modelo da sua vontade e pensamento, senão aos tentáculos das circunstâncias em que se insere. Ele é sempre chamado a adaptar-se ao espírito de cada circunstância, assumindo todas as contradições do seu ser que os momentos lhe impõem.  

Um homem de circunstâncias arrisca-se a experienciar a crise existencial que consiste na inquietante ignorância do seu propósito no cosmos. Embora extremamente profunda, esta dor metafísica pode ainda levar o homem a criar-se como um projecto que possa dar sentido à sua existência e, deste modo, curando-se dela. A existência com sentido obriga a vida a ser consistente, e é pela consistência que o homem liberta-se da crise existencial. Além do essencialismo e do existencialismo, o homem tem a terceira alternativa que consiste na redefinição da sua vida supostamente predestinada. O mais crucial já não é mais saber se, de facto, nascemos com um propósito ou devemos criar um, mas sim é manter-nos consistentes no que achamos que somos ou queremos ser.

Só a consistência é capaz de nos livrar de uma vida sem sentido. Que os pequenos desvios da vida cometidos por nós mesmos não nos sirvam como desânimos, mas sim como rascunhos do tipo de existência a partir do qual gostaríamos de ser lembrados.


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