Conto em quarentena

À Amina,

que a pouco chegou ao mundo

e já lhe andam à volta algumas coroas

 

— Pai, por que lhe chamam quarentena? — sentada no tapete de linóleo da sala de estar, perguntou a minha filha mais nova, a Amina, enquanto penteava delicadamente o cabelo da Sushi, sua companheira de todos os segundos, uma boneca que difere da Lília e do Rafa, primeiro por ser feita de pano, segundo por não trazer roupas aos corpo, terceiro e quarto por ter apenas um olho de botão e estar sempre a sorrir de orelha a orelha embora não tenha orelha alguma.

— Assim lhe chamam — disse-lhe, ajeitando os meus óculos com lente de fundo de garrafa —, porque há muito, muito tempo, muito antes dos avós dos teus avós terem nascido, numa cidade europeia chamada Veneza, os navios que vinham de lugares que sofriam de uma doença muito má chamada Peste Negra eram obrigados a esperar quarenta dias antes de atracarem no porto daquela cidade italiana.

— Entendi. Mais… ou… menos. Mas, pai!

— Sim, filha.

— A nossa casa é um navio?

— É claro que não. Nem sequer vivemos sobre a água. Mas onde é que tiraste essa ideia?

— É que a mãe disse-me, hoje cedo, porque estamos em quarentena, não podemos sair para fora de casa.

— E ela tem toda a razão do mundo.

— Não entendo, pai.

— O que não entendes, minha filha?

— Por que razão tenho eu de sofrer hoje por algo que aconteceu antes dos avós dos meus avós terem nascidos?

— Olha, filha! Nós não vivemos em Veneza. E a nossa quarentena não tem nada a ver com a Peste Negra. A verdade é que o tempo faz as coisas mudarem. De tamanho. De significado. E de outras coisas mais. Hoje, por exemplo, és pequenininha, mais ou menos do tamanho do meu travesseiro. Contudo já foste do tamanho de um camarãozinho. Com o passar do tempo, como sem dúvida a vida te vai mostrar, num piscar e abrir de olhos já terás o tamanho do Christian, depois do Laerty, não tardando que sejas tão alta quanto a tua irmã mais velha, a mana Naycha.

— E a Sushi, também irá crescer?

— Sim. Do jeito dela. Mas também irá crescer.

— E como é que as bonecas crescem?

— As bonecas não crescem como as pessoas. Elas não mudam de tamanho. Apenas mudam de significados aos olhos das pessoas que gostam delas.

— Para mim, a Sushi será sempre a Sushi: o mesmo tamanho e o mesmo significado.

— Fico feliz por ti.

— E eu e a Sushi agradecemos. Continuando…

— Ah, sim. Como eu ia dizendo, as pessoas crescem, para não dizer que mudam, e as palavras não ficam atrás.

— O pai quer dizer que a palavra quarentena não tem o mesmo significado que tinha antes dos avós dos meus avós terem nascido?

— Na mosca. Hoje, quarentena significa o tempo que as pessoas suspeitas de terem uma certa doença têm de ficar isoladas até que se tenha certeza que elas não estão doente.

— E os quarenta dias da época da tal Peste Negra: ainda continuam?

— Não. O tempo de quarentena é determinado pelo tempo de incubação da doença.

— Tempo de incubação?

— Desculpa, filha. Às vezes me esqueço que ainda tens de crescer. Tempo de incubação é o período necessário para o aparecimento dos primeiros sintomas de alguma doença.

— Então, estar em quarentena não é mesmo que ficar quarenta dias em casa?

— Não. A nossa quarentena, por exemplo, terá a duração de catorze dias, que corresponde ao período de incubação da doença de nome bonito, como lhe gostas de chamar.

— Viu, Sushi! — E a Amina passou o polegar pelo olho de botão da sua boneca, enquanto dizia: — Não há como não ter orgulho de um pai que nos fala de coisas que não sabemos.

— E eu digo mais ou menos a mesma coisa: não há como um pai não se encantar com a vida, tendo uma filha que lhe faz falar de coisas que ele também não sabia que sabia.

Tornei o corpo e os olhos para o ecrã do computador sobre a escrivaninha. Foi bom ter relaxado. Já me doía o pescoço. E sobre ele tenho a dizer alguma coisa, ou seja, existem pais que, para aliviar as suas dores, prefiram ir a uma farmácia ou a um hospital. Comigo é diferente. Eu já sei que as nossas casas escondem remédios naturais para muitas enfermidades do corpo e da alma — brincar com os nossos filhos.

— Pai! — disse a Amina, enquanto eu terminava a frase que me faltava para enviar o e-mail que o meu superior hierárquico pedira.

— Sim, filha — correspondi-lhe depois de fechar o computador novamente, para virar o corpo para a minha filha e a seguir, os olhos para a Sushi.

— Que idade tem a mãe?

— Quarenta.

— E a mana Naycha?

— Catorze.

— Por que então chamam à mãe de quarentona e à mana Naycha, de catorzinha?

— Por que os adultos adoram tornar as coisas difíceis.

— Os adultos deviam ser como as crianças, simplificar sempre, até o mais simples.

— E como é que a minha querida filha simplificaria o problema que viu nas palavras quarentona e catorzinha?

— Não seria mais fácil chamar-lhes apenas quarentona e cartozona ou quarentoninha e cartorzinha? — Meneei a cabeça, como se abrisse espaço para pensar mais a fundo no que acabava de ouvir. — E tem mais — disse ela, olhando depois para a Sushi com olhos iriados de brilho. — A partir de hoje, nós não estamos em quarentena; estamos em catorzena.

           

 

 


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