Convite para “Incêndios” – Apontamentos sobre a peça de Wajdi Mouawad

Convite para “Incêndios” – Apontamentos sobre a peça de Wajdi Mouawad

Nos dias 09 e 10 de Agosto, sexta-feira e sábado desta semana, às 19 horas o caro leitor é convidado a assistir às apresentações da versão moçambicana de “Incêndios”, texto de Wajdi Mouawad e encenação de Victor de Oliveira. Trata-se de um espectáculo de teatro inédito no país, uma proposta protagonizada por três gerações de actores moçambicanos, um elenco de “luxo” que dará vida as personagens dum dos mais conceituados e respeitados dramaturgos do nosso tempo.

Nascido em Moçambique e radicado em Paris, na França há mais de vinte anos Victor de Oliveira resolveu brindar a terra e o povo que o viu nascer com um espectáculo cujo enredo em muito dialoga com a nossa realidade, com a nossa história. Para além de ser actor e já ter trabalhado com alguns dos encenadores mais conceituados tal como Wajdi Mouawad ou Stanislas Nordey, Victor de Oliveira é também professor de teatro no Institut d’Etudes Théatrales da Universidade Sorbone-Nouvelle, Paris 3. Um artista de grande gabarito e com muito a partilhar. Tenho a sorte de ser o seu assistente de encenação.

Segue-se um pequeno apontamento sobre o texto de Wajdi Mouawad. Uma espécie de argumento do convite que dirigimos ao caro leitor.

 

Apontamentos sobre “Incêndios” de Wajdi Mouawad

A beleza do teatro reside na sua capacidade de falar da vida com o mesmo encanto e a mesma fatalidade tal como a sentimos. De repente a história que vemos desenrolar-se a nossa frente não diz respeito a personagens fictícias, inventadas pelo dramaturgo, mas na verdade é a nossa própria história diante dos nossos olhos, somos nós, nus, despidos de todo tipo de pudor, é a humanidade inteira exposta no palco da existência. E como se de morte se tratasse não há como escapar. Ninguém escapa a chama da verdade. Ninguém escapa a “Incêndios”, esta narrativa dramática em que Wajdi Mouawad fala-nos sobre as marcas indeléveis da guerra, mas também sobre a necessidade de conservarmos a esperança e o amor para podermos combater o ódio que cega os Homens.

Escrevo com a alma carbonizada, pois não pude escapar à flecha em chamas que nasce de cada palavra, de cada cena, de cada imagem, e de cada personagem deste perturbante texto de teatro, considerado uma das maiores e belas tragédias modernas/contemporânea. Não pude escapar. Impossível alhear-me de uma história que fala de mim, das vitórias e das derrotas do meu povo. Dos seus “carrascos e das suas vítimas”.

Nawal Marwan, a personagem central da peça, a rapariga que segue o conselho da sua avó Nazira e a aprende a ler, a escrever, a contar e a pensar para sair da miséria é o retrato mais profundo da importância da alfabetização, no sentido mais profundo do termo, do acesso à edução para que se derrube as muralhas da pobreza, em que vivem aprisionados milhares de moçambicanos. Quantos não têm acesso à uma escola? Quantas vidas condenados a miséria e ao ódio?

Nawal Marwal a mulher que vivencia as barbaridades da guerra, que é vitima dessa barbárie e que mesmo assim não se verga, ao meio a desgraça e desolação permanece fiel ao amor, ao perdão, o olhar “lúcido e decido” dessa personagem lembra a determinação da mulher moçambicana, tantas vezes mãe e chefe de família, tantas vezes batalhadora incansável, tantas vezes sustentáculo da nossa sociedade.

O poder do teatro traduz-se pela sua capacidade de nos fazer pensar profundamente na condição humana e plantar em nós a vontade e a crença de que é possível transformar a realidade. Não há como ficarmos indiferentes perante às chocantes revelações sobre a vida de Nawal que aos poucos, ao longo da peça, durante à busca dos seus filhos, Simão e Joana, o regresso às suas origens, às origens de tudo, do amor e do ódio que marcaram a vida dessa mulher, nos vai sendo revelando.

Tudo se passa como se alguém desfolhasse uma flor, pétala a pétala, um gesto belo e ao mesmo tempo doloroso. Talvez seja daí que resulta a poesia desta peça. A poesia de Wajdi Mouawad, a sua capacidade de falar de coisas tão perturbadoras de forma simples e bela, falar da morte como quem descreve a doçura de um beijo. Como tudo isso foi traduzido em espectáculo? Felizmente essa pertinente questão só terá resposta nos dias apresentações do espectáculo. O convite está feito. Até já!

 

Ficha técnica de “Incêndios”

Encenação: Victor de Oliveira. Texto: Wajdi Mouwad. Tradução: Mnuela Torres. Interpretação: Alberto Magassela, Ana Magaia, Bruno Huca, Eunice Mandlate, Eliot Alex, Horácio Guiamba, Josefina Massango, Rita Couto, Rogério Manjate, Suafaida Moyane. Assistência de encenação: Venâncio Calisto. Luz: Caldino Perema. Vídeo: David Aguacheiro. Música: Nandele Maguni. Figurinos: Isis Mbanga.

 


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