Da surpresa fatal do senhor Alberto Sithói...

   Conforme já se apurou, porque o narrador assim o declarou, a Julia era uma moça possante, daquelas que despertam a curiosidade e gula daqueles gigolos, valentões que apreciam mulheres avantajadas, providas de tecido adiposo e doutras vantagens anatómicas. Ela matriculou-se num dos atelliers da cidade, mais precisamente no “Salão Usqvarna”, num curso de corte e costura que, segundo o pai, serviria para distraí-la e fazer alguma coisa de jeito em vez de  passar o tempo  em discussões com a mãe. Para a admissão naquela instituição requeriam dados pessoais e uma fotografia tipo-passe para o respectivo cartão de identificação. Para obter a mesma não foi à “Foto Milagre”, no Xipamanine, mas serviu-se de um fotógrafo vizinho de nome Mariquele, que cobrava mais barato e sofria de uma paixão doentia pela arte de fotografar. Quando depois a Julia viu as fotos não quis acreditar aquela pessoa fosse ela. Ela sairá muito desfavorecida na imagem, que mais se assemelhava a duma bruxa, algo com um ar de sobrenatural, de olhos enviesados, despenteada e muito escura. Mostrou as fotografias ao irmão que, ao vê-las, desatou a rir.

   “ Tás-te a rir de quê?”, arrancou-lhe as ditas das mãos, muito ofendida e com a testa carregada de  rugas.

   “ De nada! Só que esta pessoa que aqui está nem pareces tu...”, disse o mano Aliberto com um dedo espetado nas chapas.

   “ Achas que vale a pena devolver? Parece-me que houve uma troca”, esperança alimentada por melhor serviço. Devolve, não-devolve?

   E devolveu. O Mariquele, com aquela sua fleuma já por todos conhecida, condimentada por uma presunçosa erudição, disse à cliente duvidosa:

   “ Se a foto não saiu conforme não culpes a máquina ou o fotógrafo, mas sim o objecto fotografado”. Este palavreado foi grego na cabeça da Julia. Contudo, ela insistiu:

   “Estas fotos não são minhas. Devem ser doutra pessoa qualquer”.

   O Mariquele sorriu com benevolência e bonomia.

   “Minha filha, tenho de te dizer que se saíste feia a culpa não é minha, nem da minha máquina? Vai-te ver ao espelho e depois diz-me qualquer coisa, está bem?”.

   Claro que a Julia retirou-se a espumar de raiva. Arrependeu-se por não ter ido à  “Foto Milagre” no Xipamanine porque lá, ao menos, os profissionais eram bem educados e não chamavam nomes impróprios aos clientes. 

   Não passavam dois meses depois do desastre de Marracuene quando outros eventos tiveram lugar no lar do senhor Sithói. Parecia que alguma assombração para lá penetrara. A noiva esbofeteada regressara ao lar paterno. O Aliberto resolvera desertar de casa e vivia com um dos acompanhantes naquela aventura de tristes memórias. Depois de muito matutar inscreveu-se naWenela” para engrossar o contingente de aventureiros-sonhadores nas minas da África do Sul.

   Naquele fim de tarde o pastor Sithói aprestava-se para iniciar uma sessão de orações. À sua “capela” já haviam chegado alguns dignitários religiosos doutras zonas, como do Vulcano, do Mbongolwene, da Maria Caldeira e do Ka-Guro. Faziam parte duma numerosa congregação disseminada por muitos outros bairros, irmanados por princípios duma cristandade que integrava valores duma espiritualidade africana. A ocasião marcava um ciclo de encontros de preparação para as celebrações da Páscoa que se aproximava. Entre os presentes figurava uma mulher que, a avaliar pela sua juventude, devia ser um pouco mais velha do que o Aliberto. Revelava um à-vontade que, dir-se-ia tratar-se dalgum membro da família. O pastor Sithói saudou-a com reverência e convidou-a a sentar-se ao lado doutras mulheres.  

   “ Se me permite gostaria de falar com a dona Catarina”, respondeu a jovem estranha com muita humildade. Só neste instante é que o dono da casa se apercebeu que a mulher envergava um robe de maternidade que disfarçava, talvez, uma gravidez em estado inicial. Ele anuiu ao pedido e desapareceu por detrás da cabana à procura da esposa.

   “Está no quintal uma mulherzinha que querer falar contigo”, assim deu o recado.

    Regressaram com alguma crispação nos rostos ao lugar onde a mulher se sentara. Nenhum dos dois vira aquela cara antes, embora vagamente ao senhor Sithói nela descortinasse traços  familiares. Seria alguma parente distante que resolvera fazer-lhes a surpresa duma visita? A ver iam.

   “Peço que falemos em privado porque o assunto que trago é muito delicado e privado”, outra solicitação da intrusa, o que acresceu a ansiedade de ambos. Desta vez introduziram-se na cabana. Havia aí um início de penumbra que acompanhava o súbito anoitecer. Apenas a luz de um candeeiro a petróleo dava alguma claridade e bruxuleava ao sopro da brisa que soprava da porta.

    O pastor Sithói e a esposa escutaram da boca daquela mulher o que foi a novidade mais assombrosa que jamais alguém da família escutara.

 “ Acho que não me conhecem, nem nunca ouviram falar de mim”, disse depois de um suspiro. “ Chamo-me Deolinda e vivo em Mabone com o meu pai e a minha madrasta. Tive que viajar muito para chegar aqui”.

   Um silêncio carregado de muita expectativa continuou suspensa na atmosfera da sala.

   “ Vou casar-me lá em Mambone e acho que não ficaria bem fazê-lo sem vos comunicar”, disse a mulher.

   “ E porque razão vais dar-nos conhecimento do teu casamento? Mal nos conhecemos...”, perguntou o Sithói de sobrolho carregado. Estes assuntos malfadados de casamentos já haviam trazido grandes problemas à família, e deles já não quer mais ouvir falar.  

   “ Porque venho convidar a minha mãe, a dona Catarina, para estar lá presente!”.

   Dir-se-ia que minúsculos vulcões entrassem em erupção nos cérebros do pastor Sithói e de sua esposa Catarina. Em redor de ambos tudo rodopiou, como se a sala se insuflasse de ar e se dilatasse, os objectos ganhassem outros contornos; como se cada um dos presentes se agigantasse; como se as vozes que vinham do exterior gargalhassem, entrecortadas e alternadas de gritos e uivos.

   A mãe Catarina desequilibrou-se do assento, revirou os olhos dentro das órbitas como se nesse instante abarcasse toda a sua história passada e tombou no chão, derrotada e inconsciente. Era a admissão daquela falta antiga, ainda na tenra idade dos quinze anos, a do abandono da filha recém-nascida, de duas semanas apenas, à porta da casa do Armandinho, seu primeiro namorado e pai da Deolinda.

   Naquela mesma noite o senhor Sithói foi acometido de uma trombose. Ficou com o cérebro bloqueado. Não conseguia dizer uma palavra completa, os seus membros fraquejaram a tal ponto que já nem podia levar uma colher à boca para comer. Permaneceu entrevado na esteira até ao dia da sua morte, sempre a balbuciar a mesma pergunta: “...porque me mentiste Catarina?... porque me mentiste?...”. No dia do funeral alguém jurou tê-lo visto a mover os lábios, sempre a questionar: “...porque me mentiste, Catarina?...porquê?...”.

 

*in “Caderno de memórias, vol II”, 2015.


Contactos

Tef: +258 21 313517/8

Email: opais@soico.co.mz
Local: Rua Timor Leste, 108 Baixa
Maputo- Moçambique