Da visita às origens

Ao som das turbinas desta ave e suspenso na infinidade deste momento passageiro, ocorre-me colorir esta página ao mesmo tempo que eu e minhas memórias trocamos carícias. Não sei ao certo o que daí derivará. Confesso, sem pestanejar, isto me dá um certo regozijo.

Estou a bordo do voo TP284, de Maputo com destino à Lisboa. Uma altitude de quarenta mil pés me separa da superfície terrestre. No interior desta ave mecânica, longe de todos que me são queridos e na companhia de mais de uma centena de desconhecidos, revisito com incontida euforia e sem formalidades a visita às minhas origens.

Aquando do check-in pedi um lugar à janela e o meu pedido foi atendido. Ao espreitar por esta pequena janela vejo uma espuma branca que levita sob um fundo azul celeste. Não é a primeira vez que estas imagens me enchem a vista, contudo a sensação assemelha-se sempre à que tive na minha primeira viagem de avião. Um misto de estupefacção, realização e paz interior.

Não tarda e me sinto familiarizado a este habitat efémero, sou possuído por imagens dos últimos cinquenta e dois dias. Um misto de nostalgia e alegria é tudo que me enche a alma e a existência. Vejo minha mãe com um sorriso de fazer Deus se apaixonar e no mesmo momento o meu pai, os meus irmãos, toda família e amigos se juntam à fotografia. As imagens aparecem sem nenhuma organização, mas tudo me parece bastante familiar e harmónico. Minha mãe beija-me a face e de vez em quando faz intervalos para avaliar meu corpo. E enquanto meu pai conduz o carro, aos gritos com o meu irmão cantamos todos "Chegaste" de Roberto Carlos e Jennifer Lopez. Partilho refrigerantes e sonhos com um amigo, falo das raparigas e lembro acontecimentos cómicos com os outros. Todos fazem-me temer pelos meus ossos e meu coração, os abraços são fortes e profundos.

É incontível a minha alegria, beijo e abraço a todos. Piso a terra que me viu nascer com saudade e sinto nela uma carícia húmida e contínua como se há muito tempo me esperasse, como se nunca me quisesse deixar partir. Esforço-me para reencontrar a todos e reviver tudo que me é querido. Vejo-me nas ruas de Maputo, Ndlavela é a capital das emoções, o caos dos chapas me põe frenético, o calor da Matola acorda-me, danço em Mpumalanga e rezo a contínua oração da vida nas zonas altas de Namaacha. Sinto o meu Moçambique acontecer-me, sinto a brisa salgada do oceano Índico me sacudir as vestes europeias que trago e vivo África, cheguei à casa.

Nos encontros existe um eixo comum, poem-se todos a escutar a voz de quem esteve no lado de lá, querem todos saber como é Portugal, como é a Europa, como é o mundo fora. E eu não me faço de rogado, maravilho-lhes os ouvidos, a imaginação e juntos sonhamos nosso Moçambique próspero.

Encontro-me perdido num abraço negro, intenso e profundo, lavo-me e bebo duma boca que mistura temperaturas, afetos e paixões. De repente tudo é interrompido pela voz do comandante do TP284, anuncia que começamos a sobrevoar Lisboa e que devemos apertar os cintos para aterrarmos. Os assistentes de bordo agitam-se e fazem marchas pelos corredores, enquanto vão se assegurando que todos passageiros trazem consigo o cinto apertado.

As minhas memórias se esvaem sem pedir licença. Um "foda-se" entre dentes é tudo que consigo dizer. E pela mesma janelinha que vi minha visita às origens, vejo minha amada "Lisboa menina e moça" a se despir e canto em pensamentos a música do Carlos do Carmo:

 " Lisboa menina e moça menina/ Da luz que os meus olhos vêm tão pura/ Teus seios são as colinas varina/ Pregão que me traz à porta ternura/ Cidade a ponto-luz bordada/ Toalha à beira-mar estendida/ Lisboa menina e moça amada/ Cidade mulher da minha vida".


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