Das chuvas torrenciais e do aluimento de terras na casa do senhor Compadre

Naquele época das batucadas choveu a valer em todo o subúrbio. Era uma ameaça renovada pela ocorrência doutro xitala-mati. Os caminhos inundaram-se, alguns barracos desmoronaram-se com a força das ventanias. Costas com costas à casa do senhor Augusto vivia um sujeito conhecido por Compadre. De quem, nunca se soube, mas chamava compadre e comadre a toda a gente. No seu quintal agigantava-se um cajueiro que dava fruta até vergar de peso. Em tempo de maturação manifestava uma generosidade rara no lugar, e ofertava cajus suculentos aos vizinhos. Mudara-se do Vulcano para o Thlavane depois de um incêndio que devorou a sua palhota. No acidente perdeu a mulher e todos os bens que possuía. Vivia com um filho menor de nome Lito, oito anos de idade cheios de travessuras, a quem as senhoras da zona tomavam como filho. Era uma criança disputada por todas as mães, pela graça da sua tagarelice e pela impertinência das suas perguntas. Ele divertia-se e aprendia com elas; elas aprendiam e divertiam-se com a inocência da sua curiosidade.

Mas eis que o destino, uma vez mais, prega outra das suas partidas ao Compadre. Naquela madrugada chuvosa o Lito saiu da esteira para a retrete a fim de fazer necessidades maiores. Acocorou-se sobre o tampo do assento e fez o que tinha a fazer. Eis senão quando, o solo cedeu e todo o assento mergulhou na profundidade da latrina. As areias deslizaram, amolecidas pelas águas das chuvas. E registou-se aquele desastre que abalou e causou estupefação em toda a comunidade.

Aquando daquele evento o senhor Compadre encontrava-se ausente. Já largara para a Estiva e deixara a criança só, pegada ao sono. Assim sempre sucedia porque era ainda cedo para a vizinha dona Nica vir buscá-lo e cuidar dele. Eram oito horas da manhã quando a Nica franqueou o portão do quintal e chamou pelo Lito. Não obteve resposta. Dirigiu-se à cabana onde habitualmente ia recolhê-lo. Na esteira apenas viu cobertores. Da criança, nem um sinal! Chamou uma vez mais pelo seu nome. O silêncio foi a resposta. Alarmou-se. Para onde teria ido a criança nesta hora tão matutina? Muito estranho porque o Lito não era criança de evadir-se para meter-se em brincadeiras nas casas da vizinhança sem a sua autorização. Estranho também porque encontrara o portão do quintal com o cadeado trancado. Vasculhou pelos quatro cantos do quintal. Quando penetrou na retrete não quis acreditar naquele horror do afundamento do assento da latrina. O terreno em redor desta aluira, quebrara e levara consigo as estacas de suporte e pedaços de madeira. À tona dos excrementos flutuava o corpo daquela criança que todos amavam como a um filho. Paz à alma do Lito!

Diziam as comadres e os seus desconsolados maridos que a morte do Lito era apenas uma etapa de um esconjuro que perseguia o Compadre e que outra tragédia estava a caminho. Dito e feito, na madrugada daquela manhã do fim da época de chuvas, o Compadre foi encontrado enforcado, pendurado por uma corda a um dos ramos do cajueiro. E foi assim que nasceu a lenda da Casa do Cajueiro Assombrado. Até hoje a casa permanece desabitada. O cajueiro, perene, continua a frutificar durante todos os anos. Os seus frutos cobrem aquele chão sagrado, intactos e suculentos, porque aguardam pelo regresso do Lito para os apanhar e ofertar a todas as mães do bairro.

 

*in “Caderno de memórias, vol II”, 2015.

 

 


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