Das estórias de Ka-Thlavana e de seus protagonistas singulares...

   Dissipada a tempestade, sobrevieram tempos de bonança.

   O senhor Ruben e a esposa, a dona Sara, exilaram-se no bairro de Thlavane, longe das murmurações dos residentes do Bairro Indígena, que outra coisa não sabiam fazer senão maldizer e propalar boatos. O senhor Ruben é muito cauteloso na escolha de companhias e de amizades, dado também o facto de pretender esquecer as circunstâncias da perda do dedo, que ele sempre atribuiu a “um acidente de trabalho”. Prefere o recolhimento do lar, embora corra o risco doutras mutilações mais radicais, dado o carácter irascível e imprevisível da consorte. De peso maior na mudança de hábitos_ diga-se a verdade_ é a vigilância permanente com que a esposa o cerca. Não vá dar-se o caso dela distrair-se e, às tantas, inventar ou saber doutros envolvimentos dele com outras galdérias fingidas de comadres que, já se sabe, o que querem é destruir o seu lar e andar atrás dos maridos das outras. Porque maridos, nos dias de hoje, custam a apanhar!

   Thlavane pode significar muitas coisas. Se perguntássemos ao senhor professor Carlos, que lecciona na Escola Nova, o que thlavane quer dizer, ele divagaria do seguinte modo: ”...etimologicamente, thlavane, é um vocábulo pertencente ao idioma  ronga. Deriva da palavra xitlavana, que em Português quer dizer pico! Ora, como é do conhecimento de todos e está também patente debaixo dos nossos olhos, nesta área a planta predominate é a espinhosa, um arbusto que dá flores roxas e folhas ovais, e que cresce abundantemente em lugares de savana, ou semi-desérticas. É uma variante de cacto. Por outras palavras, espinhosa pode estar na origem da designação deste território. Outra possibilidade é que aqui neste lugar era comum haver assassinatos de cidadãos, por malfeitores provenientes do campo, principalmente da província de Gaza. (Aqui, o professor Carlos descuidou-se e não pôde evitar a denúncia de tendências tribalistas visto que era um maronga empedernido; para ele a única etnia digna de ser assim chamada era a sua, a ronga). Então, thlavane pode significar “o lugar onde se esfaqueam pessoas”, porque esfaquear é picar, penetrar com um instrumento perfurante. Não sei se me estão a entender. Duma maneira ou doutra, ka-Thlavana, é o lugar onde se pica, seja por cerdas das espinhosas, seja por usar facas e punhais para assassinar gente”. E estaria dada a explicação por um dos mais destacados eruditos dos que já houveram em todo o subúrbio de Lourenço Marques.

   O casal Ruben foi viver num barraco por detrás da Fábrica de Tabacos Velosa,  à distância de um assobio da cantina de Manhamele. Tinha vizinhos singulares: o senhor Augusto, um curandeiro matswa proveniente da Maxixe, negociante da vida e da morte dos seus concidadãos. A sua casa era frequentada por gente de muita categoria, como os assimilados, funcionários públicos e, até, brancos da cidade. Vivia com uma senhora mestiça de nome Maria Cafusa, antiga beldade, reformada da Rua Araújo, e que então tivera a sorte de encontrar algum encosto para a velhice no ombro  do adivinho. Mudara-se para a casa deste com uma filha,  a Maninha, um vitelo em miniatura. Assim, aos treze anos, a menina exibia um corpo anafado, redondo, com banhas para dar e vender. Nela, na Maninha, o que contrastava com a carinha de felino era uma voz de falsete esquisitamente timbrada. Chamava “mano” e “mana” a toda a gente com sonoridades que muito se assemelhavam ao miar dos gatos. Daí que a meninada da zona a atribuiu-lhe a alcunha de Maninha, a Gata.

   O outro vizinho dos Rubens era outro curandeiro, o papá Josefate, especializado em exorcismos. A sua residência assemelhava-se ao reduto dum mago, onde se espalhavam potes de plantas medicinais, caudas de búfalos, caveiras de macacos, peles de répteis, cabeleiras barradas de tinturas, eish! e outros objectos de aspecto medonho a que ele chamava “chaves para abrir as portas do sobrenatural”. Era um colégio de formação de adivinhos para onde afluíam jovens possessos de espíritos,  encaminhados àquela tenda para a aprendizagem das artes de adivinhação. O seu posto era o de nhamussoro-mor que formava futuros nhamussoros.

   O terceiro dos eminentes vizinhos do Ruben era o senhor Alberto Sithói, trabalhador da Estiva, na ponte-cais e pastor duma seita zione. O que mais se salientava deste  cidadão era o facto de que, mesmo em época em que o calor abrasava, de Janeiro a Janeiro, era visto sempre encasacado, de sobretudo comprido, envergado como se fosse a sua própria pele ou debaixo da indumentária pretendesse ocultar algo. E fazia-o com essa intenção, se quisermos trazer a verdade dos factos ao conhecimento de toda a gente. Muitas vezes regressava dos piquetes com os bolsos a abarrotar de  produtos, como garrafas de bebidas, alguns utensílios domésticos e, enrolados no corpo, como se de roupa interior se tratasse, faixas de tecidos caros, os mesmos que, sabe-se lá como, retirava dos armazéns da ponte-cais, ou dos porões dos navios que descarregava; um autêntico armazém ambulante!

   Ao contrário da Maninha Gata que era aversa a amizades, os filhos do senhor Alberto eram camaradas afáveis, que não regateavam esforços para partilhar com os vizinhos dalguns dos benefícios que o seu estatuto permitia. O irmão mais velho chamava-se Aliberto, não Alberto, mas era xará do pai. Pessoa um tanto ou quanto obtusa, nunca se deu bem com livros, motivado este facto por algum tipo de retardamento no desenvolvimento mental que, segundo o pai Sithói, nisso saía à mãe. O Aliberto marcou passo numa segunda classe e ficou por lá enterrado até a tropa filá-lo e despertá-lo para o real da vida nas matas do Norte. Entrou soldado-raso para o exército e mais raso de lá saiu. Não se lembra de nada do que por lá aconteceu.

    A irmã do Aliberto chamava-se Julia, não Júlia com acento agudo no “u”. Havia  algo de exotismo e disparidade entre a sua figura e o seu carácter. Como o pai, era cortês e carinhoso para com os amigos. Tinha aquele sorriso fácil que sempre cativava os que com ela conviviam. Possuía; porém, uns olhos que procuravam ser ternos e encantadores; contudo, o destino enviezava-lhe o direito enquanto o esquerdo fitava  de frente. Se o direito fitava o interlocutor, o esquerdo seguia a sua marcha mais para  o mesmo lado, evidência de um estrabismo que tirava toda a graça à fisionomia do rosto. Tirando isso, era um anjo de rapariga. De quando em vez, na casa do senhor Sithói recebiam a visita duma prima chamada Alicinha, que vivia com uma avó na zona do Vulcano. A Alicinha, vista de perfil fazia adivinhar maravilhas. Todavia, quando se achasse de frente apresentava uns olhos que, a fitar, ficava-se sem saber para que objecto o faziam, tal como a prima Julia, indício de alguma doença de transmissão familiar.

   A estas três famílias vizinhas do senhor Ruben acrescia-se um cortejo de nomes-sem-nome, gente que deambulava pelos becos, todos os dias, entre as bhangas de xidangwana, de ntho-ntho-ntho ou de uputso, ou assentava posto aos balcões do Manhamele, à procura dum canto donde pudessem erguer alguma dignidade e respeito.

  No meio desta multidão como é possível esquecer a Fatinha que, na tenra idade dos dez anos, já se revelava uma ninfa insaciável de sexo, sempre aturdida de paixões por adultos solteirões, a quem se ofertava para labores domésticos, como varrer o quintal, sacudir o pó aos móveis e outras tarefas que exigiam alguma intimidade pessoal. Claro, daí à gravidez foi uma mera questão de tempo. De quem era a gravidez só Deus é que sabe, porque os nomes das pessoas para quem ela apontou o dedo eram vários, e algumas daquelas nem viviam nas proximidades. Enfim, a pequena Fátima tornou-se adulta sem perceber quanta malvadez existia nas pessoas ou que sentido tomava a rotação da roda da vida.   

   Como também esquecer aquele respeitado estudante, sempre a sobraçar calhamaços de livros, a exibir-se todo, nos machimbombos, nos caminhos, a falar português fino, extraido de dicionários, só para dar nas vistas e ganhar reputação na zona?

   Mas o pior nas relações entre os moradores está para se contar. Por vezes sucedia que na residência do exorcista Josefate se executavam os rituais de expurgação de espíritos aos instruendos. Em simultâneo realizavam-se orações na “capela” do pastor Alberto Sithói, assim como outras na casa do curandeiro senhor Augusto. Em todas elas as cerimónias decorriam com as habituais evocações de deuses e de espíritos de defuntos, sempre ao ritmo de batucadas. E o inferno vinha instalar-se, com todo o seu peso, naquela pequeno aglomerado ao redor da cantina do Manhamele. Os batuques iniciavam em dó maior, tum-tum-tum. Parecia a senha de chamada para o concerto de tan-tans. Os sons subiam de nota, cada qual o mais alto, sempre em competição com o da casa vizinha. Da casa do Sithói o ritmo das batucadas era acompanhado de coros de cantigas de glorificação a Deus. Da residência do Josefate eram vozes graves umas vezes; agudas outras, as dos exorcismados, trêmulas no transe da possessão. Os concertos prolongavam-se noites dentro, ensurdecedores, para desconsolo do estudante que não conseguia concentrar-se nos compêndios. E dizia até: “...se eu chumbar a culpa será destes analfabetos meus vizinhos...”, manobra de táctico desvio. Toda a gente sabia que os livros ele só os carregava, e não os compulsava, porque consumia o tempo nos becos dos quintais abraçado a raparigas ou em farras de que era frequentador assíduo e participante activo.

   De nada valeram os esforços dum senhor assimilado de nome Bambo que, usando do estatuto de ser agente da Pide-DGS, procurou esfriar o calor dos cultos com ameaças de prisão. Em vão. Quanto mais ele reclamava “pelo barulho ensurdecedor que polui a atmosfera do nosso bairro e não deixa ninguém gozar do direito ao descanso, nem sequer os bebés e os enfermos”, o entusiasmo das celebrações redobrava de intensidade, e à meia-noite atingia o auge. Caso estranho é que apartir de uma determinada altura a área começou a ser policiada por agentes da Polícia de Choque. Semanas depois do início das operações soube-se da morte de um dos agentes, que era também um residente da zona. Aquela foi atribuída à insatisfação dos espíritos, enviados por um dos curandeiros, por tentativa de travar o curso harmonioso dos cultos. O patrulhamento abrandou, para depois prosseguir em lugares mais distantes; não vá o Diabo tecê-las, porque nestas coisas sempre é melhor estar precavido e jogar no seguro.

*in “Caderno de memórias, vol II”, 2015.


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