Das façanhas do Aliberto e eventos consequentes...

   Quando o Aliberto passou à disponibilidade do exército, regressou para a casa dos pais. Tinha em mente voltar à escola e concluir a educação primária. Sonho distante que não estava nas contas da mãe, a dona Catarina. Lá na tropa tinham-lhe metido na cabeça que “estudar é bom, um dia podes ficar doutor ou arranjar um bom emprego”; enfim, coisas do capitão lá da Companhia. Prometeu que assim faria, mas doutor não queria ser porque não se dava bem com sangue, muito menos com injecções. Assim, à chegada, ficou pasmado com a grande surpresa que a mãe lhe reservara. Não era festa de boas-vindas com matança de cabritos e frangos, nem maheu e refrigerantes. Mas sim, a novidade é que aguardava-o uma esposa! Quando a viu pensou que fosse uma dessas mulherzinhas com problemas de espíritos e estava ali para os competentes exorcismos. Em segredo a mãe seleccionara essa moçoila, das muitas que conhecia lá em Marracuene, provida de um corpo soberano, principalmente duma bacia e dumas ancas que prometiam muitos filhos. O Aliberto sorriu sem querer fazê-lo. Meneou a cabeça e perguntou à mãe:

   “ Quem te disse que eu preciso duma mulher?”.

    “ Tu já és um homem, e um homem precisa duma mulher. Não vais passar a vida com raparigas por aí, hoje uma aqui e amanhã outra acolá. Não! É hora de te casares e, ainda por cima, eu e o teu pai estamos a ficar velhos e precisamos de netos”.

    “ Se precisam de netos então falem com a Julia, porque eu não estou para isso!”.  

   “ Ah, filho sem respeito, a tropa fez-te mesmo muito mal”, zangou-se a dona Catarina, que já  via os projectos de casamento a afundar água-abaixo. Se o palerma do filho não alinhar nos seus planos o que dirão os pais e familiares da moça a quem prometeu este mundo e o outro se aceitassem o matrimónio com o seu Aliberto? E a moça escutava tudo, sentada sobre uma esteira à sombra oblíqua da cabana. O seu ar era de indiferença.

   “E tu o que achas?”, perguntou o Aliberto à proposta futura esposa. “Mas em primeiro lugar como te chamas?”. Esta é que deveria ter sido a primeira abordagem. Contudo, a surpresa da comunicação do noivado deixara-o perplexo e sem espaço para digerir o alcance do caso. 

   A primeira pergunta dele pareceu à moça uma proposta de noivado. Esta respondeu de pronto:

 “Não sei, os meus pais é que sabem”.

 O regresso do pai Sithói da Estiva trouxe alguma serenidade na discussão. Aquela era hora das orações. Na sessão dessa noite o Aliberto penou os suplícios do Purgatório às mãos de um “sacerdote”, pastor-ajudante do dono da casa. Foi exorcismado, isto é, sacudido, virado, revirado, deitado, levantado, socado, contorcido, descontorcido, e tudo o mais que se pode imaginar para tirar-lhe do corpo e da mente as ideias subversivas de desobediência à autoridade paterna, as mesmas que lhe ministraram na tropa. O zeloso “sacerdote” não se poupava na voz; berrava ordens para comandar a retirada dos maus espíritos ancatonados no corpo do paciente. ” ...sai Satanás!...deixa o corpo deste filho de Deus em paz!...sai!...”, e esfregava-lhe o rosto, a cabeça, as costas, o ventre e os genitais com uma cruz.

   O Aliberto rendeu-se à vontade dos pais e prometeu casar-se com a desconhecida “só para vos fazer as vontades”.

   “Pudera!, naquelas orações sai tão cheio de dores como se tivesse a acabado de sair de uma batoneira em movimento. Caso-me sim, não há problema! Caso-me com quem vocês quiserem!...”.

   Aprazado foi o dia do pedido de casamento à moçoila de Marracuene. O que, todavia, ninguém poderia sonhar foi o que sucedeu na respectiva cerimónia. Um escândalo.

    “ Vocês nem imaginam o que lá vai contecer”, dissera o Aliberto aos seus dois parceiros, acompanhantes e testemunhas na oficialização do engajamento, como é uso e costume fazer-se nestas ocasiões.

   A cerimónia do pedido foi muito concorrida. Como poderia ser doutro modo, se este tipo de acontecimento arrasta a curiosidade das populações, que querem conhecer de perto o futuro marido duma filha da comunidade? Comeu-se, dançou-se e bebeu-se. O Aliberto tomara mais do que permitia a sua resistência ao álcool. Era um outro modo de dissimular o desapontamento, de sacudir da cabeça a pressão daquela obrigação. Não se conteve mais. Começou aquele monólogo em que ofendia os da casa. “...ainda estou para saber quem disse a esta gente que gosto da filha deles...se querem casamento pois então ela vai casar com a minha mãe...eu não lobolei ninguém...o dinheiro é deles, pode ficar lá em casa mas comigo não pode contar...tenho um filho no norte...hen!? nunca vos disse, ehn!? ...pois então toma lá, tenho um filho no norte...se queriam um neto já têm um...está no norte com mãe dele...”, a voz era entaramelada, mas alto o seu tom. Todos ouviram-no a chamar estafermo à futura noiva, que a sogra era uma bêbada gorda, e a mãe uma interesseira, que ninguém escolhera os maridos delas, que “...cada um tem os seus gostos e medidas...pois casem com ela porque eu vou-me embora!...”.

   Os anfitriões sentiram-se muito melindrados com as ofensas do futuro genro. Era uma grande falta de respeito abrir a boca e proferir aquele discurso de bêbado, que muito feria a dignidade e a honestidade da gente da casa. Aquela fora ideia da comadre Catarina que até afirmou que o compromisso era do conhecimento do filho. Era só uma questão de deixar o Aliberto voltar da tropa e tudo estaria consumado. Agora vinha com aquela conversa de que estavam a fazer negócio com a filha. O dono da casa adiantou-se e pôs-se diante do Aliberto. E pediu-lhe contas e justicações para tamanho atrevimento. Aquele não se intimidou. Continuou o discurso, difamatório, na opinião de todos. A mãe Catarina, auxiliada pela futura nora, tentou chamá-lo à razão. Seguravam-no pelos braços e tentavam encaminhá-lo para um lugar donde não poderia ser escutado. E o caldo entornou-se: o  Aliberto desembaraçou-se dos abraços e despediu uma violenta bofetada à noiva, a outra acertou a cara da mãe com outro estrondo. A confusão generalizou-se. Os da casa sentiram-se agravados em seu próprio domicílio, o que exigia um desforço imediato, severo e educativo. Os hóspedes de Thlavane foram sumariamente sovados, incluindo a mãe Catarina e outras comadres suas vizinhas a quem se concedera a honra de testemunhar aquela cerimónia. O Aliberto e os seus galhardos companheiros, galvanizados pelos bofetões e pelos pontapés recebidos, arregaçaram as mangas das jaquetas e aceitaram o pleito. Não eram rapagões de deixar os seus créditos em mãos doutrem; demonstraram o quão habilidosos eram nas artes de pelejar. A barafunda foi total, todos espancaram a todos. Aquilo era uma guerra campal, um tumulto que fez correr muito sangue nas caras dos convidados; alguns dentes quebrados cairam, muitos olhos ficaram tumefactos e, sobretudo, muito pristígio se perdeu.   

   A história correu pelo bairro Thlavane com muita celeridade. Alguns vizinhos diziam que “...é bem feito...o que é que a Catarina julgava que era? ...com um filho como aquele, o que esperava? ...a filha de dono teve a sorte de apanhar uma sova no primeiro dia, porque depois de casados ele até era capaz de matá-la...”.

   Depois destes sucessos a Julia jurou que “pela alma do avô Tchowana eu não me caso...depois daquilo que assisti, só se eu for uma maluca!...”.

    E ponto final à estória deste filho que deu uma sova à própria mãe, à futura sogra, à noiva e aos familiares desta para desembaraçar-se de compromissos assumidos à sua revelia de modo a defender interesses particulares de seus pais.

 


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