Desnutrição cultural crónica

“A cultura é uma coisa apavorante para os ditadores.
Um povo que lê nunca será um povo escravo.”
António Lobo Antunes
 
Quatro horas da manhã, a neblina ainda se impõe, com certa sagacidade, contra o retrovisor do carro. Lá fora o frio penetra as entranhas da escuridão. O grito de motor vai, com mais decibéis, invadindo os nossos pavilhões auditivos, já tínhamos todos comodamente as nádegas afixadas nos já cansados acentos do Toyota Hiace o ronronar do velho motor prenunciou o começo da viagem.
Partimos exactamente às quatro horas e trinta e tal minutos. O trajecto de Gurúè a Quelimane leva por aí quatro horas, tempo suficiente para alimentar a alma de paisagens e fragrâncias únicas, que este país com vários países adentro oferece.

É intenso o panorama que se perde de vista, nesta esverdeada pacata cidade do Gurúè, tudo aqui é motivo para admirar a mestria da mãe natureza. Há um certo rigor e capricho que a flora faz deste lugar, um verdadeiro espectáculo de embalar a alma. Fixada aos pés dos montes Namuli, este acidentado distrito é dos mais ricos lugares que este país tem para “dar e vender”, conhecido e reconhecido pelas plantações de chá e outras culturas de alto rendimento comercial, Gurúè ainda é um lugar por se descobrir.  

O interminável espanto faz emergir em mim uma vontade enorme de permanecer neste verdejante lugar de terra avermelhada, um verdadeiro prazer que a natureza nos faz sentir, mas a vida nem sempre é o que queremos, e eu preciso sair de mim para abandonar a cidade, porém, levo comigo a coreografia que a terra faz depois de a chuva cessar, o cheiro do saibro molhado, a fumaça cobrindo a montanha, o fumigar das palhotas, a fragrância do despoletar de flores e o amadurecer de frutas, o que há em abundância por aqui, dos cânticos, da música do linguajar lomuwé, do frio que embala a alma, tudo isso guardo na minha essência e parto com o coração todo partido.

O carro faz cantar os pneus no asfalto, de subida e descida, a viagem vai acontecendo com os pára-brisas abrindo o horizonte para o novo destino, até que, por alguma razão, chiam os pneus. Já são cinco horas e o frio continua intenso, todavia, a partir da janela, consegue-se ver crianças de troncos nu e certos recipientes cheios de frutas e outras coisas. Vê-se banana, manga, cana-de-açúcar, pêssego, uva, lichia, e vários tubérculos, como mandioca, batata; vários cereais, massaroca e diferentes feijões, e alguns citrinos, laranja, limão, toranjas e outros.

Os maltrapilhos, acompanhados por homens e mulheres igualmente esfarrapados, exibem-se cobertos de uma esperança de vender seus produtos, correm de um lado para o outro, atabalhoados. Vejo-os que os mais novos têm abdomens enormes e rostos infestados pelas moscas que são sempre atraídas pelo ranho e faraónicas ramelas; as mulheres exibem peitos enxugados, como balões rebentados numa festa infantil, que mal se mantêm em capulanas com a nítida aparência de muitas vezes repetidas, chegando mesmo a essa versão de trapos que nem para limpar o chão servem; já os homens de epidermes pálidas ostentam rostos que mostram vivenciar demasiadas atrocidades, a maioria deles traz sempre um palito na boca, e o cabelo mostra-se como qualquer coisa que desconhece o pente.

Tudo isso é comiseração que não sei explicar, um sentimento que me assalta a alma e me atira para além das ilusões de um país igualitário, e vou perguntado a mim mesmo se há moçambicanos da segunda divisão, ou somos todos iguais quando convêm alguns e certos interesses?

Cada um deles puxa o lume para a sua fogueira, gritam todos eles publicitando as características e o custo dos produtos que trazem suportados em bacias, baldes, sacos, plásticos, até nas mãos. É na verdade um festival de cores, aliás, um cemitério de sonhos e frutas, porque quando se afina mais a pupila consegue-se ver, além desses rostos ambulantes, variedade de frutos já deteriorados, certos homens e mulheres sem qualquer entusiasmo no rosto e fixos em seus lugares, e nem esperança do que poder e vier, com os rostos rebentados de tanto silêncio, todos eles como se tivessem esquecido o sorriso algures na parte incerta.

“É cinquenta, patrão”. “Três cem, boss”. “Leva toda bacia, paga vinte”. “Amendoim fresco, aqui”! “Massaroca cozida, numa boa.” Dizem os motivados, cercando o Toyota Hiace, como moscas numa carne fresca, de seguida ouve-se o resmungar do motor do chapa, esses transportes onde entornamos toda a vitalidade. “Motorista, espera, ainda não levei o troco”. “Motorista, vamos, estamos atrasados”. Motorista, isso e aquilo, ralham os meus ocasionais companheiros de viagem. O carro desliza e desliza sem qualquer constrangimento, lá vamos nós, com a fragrância de toda aquela gente em nossas entranhas e suas culturas dentro daquele carro velho. Alguém, por alguma razão, tem a alma esquecida naquela paragem e vasculha com a boca dentro do automóvel.– Aquela gente tem tudo, mas não sabe.
– É cultura deles.

Diz um chico esperto, que deixou todos de boca aberta a quando a sua chegada, naquelas quatro horas da manhã, vestido a rigor, uma gravata larga que não combinava nem tão pouco com o casaco também largo, e tudo parecia que a boca também o era. Logo cedo tentou puxar papo com qualquer um que estivesse disponível, infelizmente o frio inibia-o, mas naquelas sete horas da manhã, visto que o horizonte já se apresentava limpo de cacimba, o sol timidamente sorria e o frio arrumara com certo cuidado o seu manto, o que permitiu a certas bocas estivessem disponíveis ao alongamento matinal, eis que o homem largo não perdeu tempo e largou algum palavreado:
– Essa gente é fiel a sua cultura.
– Como assim cultura? Sabe o que é cultura o senhor?
– É cultura deles, cultivar e não se alimentar desse cultivo.
– O senhor está equivocado.
– Eu sou doutor em esclarecimento.
– Entendo que não temos tema para conversa.
– Eu sempre tenho conversa para tema.

O jovem que, sentado ao seu lado, o respondia preferiu responder-lhe de forma mais eloquente: o silêncio. Foi dentro desse silêncio que todos, taciturnos nos vimos despidos de nós mesmos. É claro que debatíamos connosco mesmos “o produzir e não consumir” daqueles moçambicanos. Olhamo-nos, esperando que alguém derrubasse o silêncio, mas ninguém o fez, muito menos eu. Continuei reflexivo, com os olhos postos na janela e deixei o machimbombo viajar-me a vista.  

Quando despertei desse devaneio já pensava em arte, passeavam-me na mente pitorescas imagens de artistas moçambicanos; pensava em certos personagens e poemas de autores moçambicanos; fotografias e esculturas introduzindo-se-me adentro; bailados e orquestras; peças teatrais; toda essa arte produzida por moçambicanos e pelos moçambicanos não consumida, tudo isso me fustigava. De tal forma que me colocava em total delírio. Seriam estes, os que não consomem a arte de e feita por moçambicanos, moçambicanos da segunda divisão? Estariam estes moçambicanos, assim como aqueles que logo a matina carregam frutos que produzem e nem consomem, também desnutridos?  

Estas interrogações foram-me fazendo companhia cogitativa. Debatia comigo mesmo a desnutrição cultural crónica de certos moçambicanos. E conclui que, assim como aqueles moçambicanos do interior da Zambézia que produzem tudo e não consomem, muitos achados moçambicanos da primeira linha também padecem da mesma enfermidade: desnutrição cultural crónica. Que é essa cultura de não se cultivar, o que, hoje em dia, infelizmente e excessivamente se cultiva neste país.

Perante neste marasmo em que se encontra as nossas artes, sem consumidores, somos todos um cemitério de sonhos e cores dos nossos próprios artistas. O debate sobre desnutrição deve passar também pelo consumo da arte, sobretudo a arte produzida em Moçambique, assim evitamos que os nossos artistas vivam desnutridos e nós, como consumidores, evitamos a desnutrição cultural. É preciso que haja fartura no estômago do artista, também na alma e no espírito dos moçambicanos, para o bem de todos.


 


Contactos

Tef: +258 21 313517/8

Email: opais@soico.co.mz
Local: Rua Timor Leste, 108 Baixa
Maputo- Moçambique