Despachos do tempo

Quanto tempo leva o tempo para nos despachar? quanto tempo o tempo precisa para se desfazer de nós e seguir adiante aparentemente voando para os seus próximos afazeres ditando o seu próprio destino? É a questão que surge quando caminho pela cidade de Maputo, a “dejá connu Delagoa Bay ou Lourenço Marques”, como provavelmente terá dito Mac Mahon em 1875 quando se encontrava a arbitrar o conflito que definiria a fronteira sul de Moçambique.

Da escrita “Av. Pinheiro Chagas” constante em um dos edifícios da actual avenida Eduardo Mondlane até a escrita “A Linha Portuguesa” no edifício multi-color instantaneamente do lado oposto a Casa de Ferro de Maputo, na avenida Samora Machel (Ex. Dom Luís) passam-nos diversas marcas deixadas pelo tempo que, para muitos cidadãos, são incubadoras de diversas questões, como é o caso das inúmeras salas de cinema já encerradas cujos traços fazem-nos pensar que foram, em tempos, locais onde se cultivava a cultura.

Foi exactamente sobre as salas de cinema da cidade de Maputo e Matola que recentemente vi-me entretido em uma conversa nostálgica com dois amigos meus, afim de dar alento a curiosidade e encontrar resposta para algumas questões. Armando Lote Mate, nascido em 1942, que, se não fosse a sua obstinação, quase via o seu nome alterado para Armando Lopes Matos por sugestão do seu padrinho de Baptismo, João Mateus (de quem herdou-se o nome da paragem de chapas cita na cidade da Matola), recorda os tempos de glória nas salas de cinema da então Lourenço Marques. Geralmente, após uma tarde de futebol no campo João da Silva Pereira (Maxaquene) ou no campo Freitas e Costa (Ferroviário, na baixa) seguia ao abrigo de um autocarro de marca Leyland ou Guy até ao Cinema Império, que tinha como proprietário o Senhor Salamago, isso quando não fosse ao cinema Olímpia, Tivoli (do senhor Julio Rito) ou São Gabriel. Não podia, obviamente, devido as restrições de raça, frequentar os cinemas Dikha (cine-teatro Gilberto Mendes) Xenon, Charlote, Gil Vicente, Scala, Manuel Rodrigues (cine África) ou cinema Nacional (Centro Cultural da UEM).

Feliciano José Fernandes Jofane, nascido em 1949, que também, graças a sua obstinação, conseguiu, contrariando a sugestão do seu padrinho, manter o apelido “Jofane” no seu nome, recorda ainda do cinema São Miguel (Assembleia da República), cinema Infante, cinema Machava e Cinema 700.

Os ingressos custavam, por exemplo, no cinema Império, entre 6 escudos (sentados no chão) 7 escudos (cadeiras frontais) e 10 escudos (cadeiras traseiras cimeiras). O porte da caderneta indígena ou cartão de identificação (para os assimilados) era imprescindível pois os filmes dispunham de restrições de idade. Os filmes que ainda pairam na memória destes dois amigos são: Sodoma e Gomorra, Sansão e Dalila, The good, The bad and the ugly, Trinital e Bud Spencer, Ali Baba e os 40 Ladrões, Madala Bêbado, dentre vários outros que eram frequentemente exibidos.

No cinema Império, na avenida Angola, era comum que os geradores do senhor Salamago, parassem de funcionar no meio do filme devido, geralmente, a falta de gasolina. Para que os clientes não ficassem prejudicados recebiam um carimbo na palma da mão que os permitisse ter livre trânsito imediatamente no dia seguinte para concluir o filme. Porém, manter o carimbo exigia um esforço adicional que era de não passar água por cima para não o perder. Os jovens, fanáticos dos filmes da “cowboyada” ou de “Karate” descobriram, com o tempo, que humedecendo as mãos, era possível duplicar o carimbo passando-o a outro jovem que não estava presente na sala do cinema, ganhando assim o ingresso para também “voltar” no dia seguinte. De certeza que o senhor Salamago ficava atónito ao ver o número de expectadores quase a dobrar.

As salas em causa eram bem cuidadas, cadeiras funcionais, limpeza impecável, lâmpadas fundidas eram substituídas sem demora, os lavabos também eram funcionais e não se viam as teias de aranha em alguns cantos. Mas, melhor que tudo isso, era a consistência na exibição de filmes e a dispersão geográfica ao longo da cidade desses pontos de exibição, o que permitia acessibilidade e abrangência.

Em suma, não se sabe ao certo como tal sucedeu, mas, o facto é que até a década 90 maior parte das salas de cinema, se não quase todas, já estavam encerradas. Talvez tenha sido o advento da televisão e do VHS que permitiu com que maior parte dos cidadãos pudesse, em sua própria casa, ou nos cinemas improvisados no interior dos bairros, passar a ver filmes e outros programas televisivos.

É impossível, ao passar por uma dessas relíquias, em tempos, expressão do reinado da 7ª arte, e hoje armazéns, igrejas, ou simplesmente encerradas, e não se ter a sensação de que o tempo despachou-se de nós e deixou saudades.

 


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