Detido

Agarrou a cabeça. A culpa pesava. A primeira reclusão de um culpado é a consciência. Por isso levou a mão à  cabeça que é onde estava, supostamente, a consciência.

Ainda ouvia o eco da voz desesperada do comparsa a cochichar, do outro lado da linha: "Estamos tramados! O caldo entornou. E agora? O que faremos? Alô... alô..."

Não respondeu, precavendo-se de possíveis escutas. Ficou sem reacção enquanto digeria, amargamente, a nova. O telemóvel, na mão, encostado ao ouvido, escorregou. Escapou da Palma. Bateu no ombro, na cintura, num móvel próximo e fez "pah!" dramático quando se esparramou pelo chão. 

Tal como a consciência, tudo começou a pesar. O ar tornou-se espesso, a dificultar-lhe a respiração. O corpo também pesava, como se lhe tivessem pendurado nos ombros uma mochila com todo o dinheiro das dívidas ocultas, em moedas! Cedeu, sentou-se na cama. Apoiou os cotovelos nas coxas. A cabeça, com o peso da culpa, precisava de um guindaste. Afundou entre os ombros e apoiou-se nas palmas das mãos. Os dedos furavam a carne flácida das bochechas. Sentiu, entre os cílios das barbas, o suor do rosto a inundar as mãos já húmidas. Suspirou, exorcizando a consciência. Deitou-se como se, pelo descanso do corpo, pudesse repousar a culpa. Voltou a suspirar, levantou-se. Não havia posição que desse. Levou as mãos à cabeça. Desarrumou o cabelo para reorganizar os cacos das ideias. O suor molhava as roupas de dormir e inundava os lençóis. Pensou em Deus. Quis rezar. Desistiu quando se lembrou que Deus só é bom para os bons.

Fechou os olhos para procurar uma luz no pensamento. Via tudo escuro. Abriu. Continuava escuro. Pensou em telefonar aos amigos influentes. Procurou ressuscitar o telefone espalhado pelo chão: bateria para um lado, telefone para ali, a tampa para lá... o tremor da mão dificultava. O telefone voltou a cair. Irritou-se.

É quando um homem enfraquece que se percebe a força duma mulher. Estava deitada. Via, pelo nervosismo, a gravidade da situação. Recolheu o telefone caído e arrumou o puzzle das peças soltas na queda. Deixou-se estar sentada ao seu lado, em prontidão feminina. Interveio, sem perguntar nada, à distância de não interferir nos assuntos do marido, como fora sabiamente aconselhada. Juntou as mãos e fez uma concha, segurando a do homem ao jeito de uma reza. Apertou-a para conter a tremedeira. Manteve-se calada. O homem percebeu a pergunta muda.

Passou os dedos indicador e polegar pelos olhos, como se limpasse uma lágrima invisível. Foi aproximando os dois dedos até se encontrarem, na parte superior do nariz e permaneceu assim, como se aquele gesto o  aliviasse alguma dor.

-- Está tudo lixado. Tudo.

-- Tudo o que? -- ousou a mulher, quando percebeu que o homem queria falar.

-- Vou ser detido. Descobriram tudo.

-- Tudo o quê? Os negócios? Qual deles?

Rodou bruscamente a cabeça. Olhou para a mulher com o sobrolho franzido, apercebendo-se que tinham sido muitos "negócios", o que agravou a sensação de culpa.

Baixou a cabeça. Uma gota de suor deslizou pelo rosto. Foi parar à ponta do nariz. Suspensa. A gota inchou, inchou, inchou como as suas contas bancárias. E soltou-se. Caiu. Ocorreu-lhe que as contas bancárias inchadas poderiam cair, à qualquer momento como aquela gota de suor.

-- Vou ser detido. Acusam-me de estupro.

-- Estupro?

-- Dizem que estuprei a pátria. 

-- Mas estupraste ou não?

Silêncio.

-- ...mas não fui o único. A pátria é estuprada todos os dias. E agora que está grávida e doente... Mas juro. Não fui eu quem a engravidou.

A mulher calou-se. O silêncio de uma mulher pode dizer muita coisa. Entre o medo de escutas e os problemas da telefonia,  não conseguiam ligar para os amigos influentes. A cabeça pesava. Pesava  cada vez mais. O ar estava mais espesso. Cheirava à podridão e ferrugem. Fossem talvez os portões enormes, metálicos, das celas da consciência, a trancarem-se.

 


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