Do medo à integridade, a proposta de um Santo(s)

Tudo tem limite. Até o medo. E quando o medo passa fica o homem inteiro.

Albino Magaia

 

A Poética de Carlos dos Santos gravita o espaço sideral, a problematização do futuro e um constante questionamento sobre o que move o presente. Quer nas histórias contadas nos seus romances quer nos infanto-juvenis aquela tríade é recorrente. Está lá, consciente ou inconscientemente. O mesmo acontece no novo livro do escritor, Na esteira das estrelas, recentemente publicado sob a chancela da Alcance Editores.

Ao novo título, Carlos dos Santos leva uma história que acrescenta à realidade muita imaginação. Na esteira das estrelas é uma ficção que aproxima ao Homem o que parece ser algo distante, essa plenitude das constelações, as quais parecem emitir sempre mensagens quase nunca compreendidas. Na verdade, e no sentido lato, o escritor continua no seu 16º livro com a ideia de buscar no firmamento o que parece complementar a sã existência humana na terra. Nisso, ficciona uma história cuja protagonista chama-se Nhiedzi, uma menina com ares agrestes, quem se propõe a uma odisseia com experiências mirabolantes. A narrativa começa com um passeio sereno da miúda por uma floresta, sozinha. De repente, o que era para ser um bom deleite esfuma-se, ficando a nossa personagem meio desesperada quando se sente perdida. Sem saber por onde ir para regressar a casa, Nhiedzi é possuída por medo e ansiedade. É a essas alturas do enredo que uma pedra falante enuncia: “Nós temos sempre medo daquilo que não conhecemos. É a nossa ignorância que nos faz ter medo (…) procura antes conhecer as coisas e aprendê-las. Vais ver que assim já não sentes medo” (p. 10).

O excerto acima é o prenúncio do que, nas páginas seguintes, torna-se história. Quer dizer, para a protagonista, personificação de inocência e ignorância sem que isso tenha que ver com idade, o medo limita, encarcera e inibe a busca de soluções. À medida que a Nhiedzi vai lidando e vai vencendo os seus receios, vai abrindo-se para escutar, raciocinar e somar os cálculos da vida como quem depende do resultado para regressar a casa. A sua situação não fica mais fácil por isso, mas fica menos difícil, pois, com a tranquilidade interior surge o discernimento preciso para a alteração de um quadro tétrico.

Ao colocar a Nhiedzi em cavaqueira com uma pedra, uma árvore e o vento, Carlos dos Santos leva-nos a um diálogo com a natureza, como quem nos convida a regressarmos a uma certa origem das coisas, na qual o Homem era ele e as suas circunstâncias. É numa floresta que Nhiedzi aprende a enfrentar os seus medos; nela, a menina aprende a ler o perigo, a antever bons horizontes, com recurso à sistematização do conhecimento. Por isso, estando perdida, a menina aprende a interpretar o recado do sol, da sombra, das estrelas e dos pontos cardeais decisivos para o desfecho da história.

Portanto, neste Na esteira das estrelas, escrito com pormenor e rigor vocabular, demasiado exigente para as crianças, fizemos o teste, o medo, de facto, existe, mas tem limite. E, como nos revela o célebre Albino Magaia no seu Yô Mabalane – obra cuja narrativa faz-se com tentativas de se vencer o medo e a dor –, é quando o medo passa que fica o homem inteiro, no caso, a menina engrandecida, resoluta, dona dos seus caminhos. Afinal, se por um aldo o medo prende, a coragem de saber liberta.

Sendo esta uma história infanto-juvenil, é, igualmente, um texto que purifica os covardes, dando-lhes a receita de como agir diante das mais variadas circunstâncias do quotidiano. Partindo de uma narrativa inocente, Carlos dos Santos conduz-nos numa dupla viagem: pela natureza das nossas emoções e pela das nossas necessidades. É nisso que se dá o conflito, o mesmo que ultrapassado nos transcende. Há-de ser esta a proposta de um Santo(s) armado escritor. 

 

Título: Na esteira das estrelas

Autor: Carlos dos Santos

Editora: Alcance

Classificação: 15

 


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