Do noivado da Alicinha e do fim do sonho na lagoa do Ka-Tharrana...

   Talvez para dissipar da memória as recordações do escândalo, a Julia mudou-se para a casa da prima Alicinha. Como se disse, esta vivia com uma avó, que era a mãe do falecido pai. Não era pessoa de muitos estudos. A avó educara-a para mulher doméstica. E nisso de trabalhos do lar era muito prendada e devotada. Tirando os incidentes visuais hereditários a que se fez referência, possuía um corpo elegante, chamariz de magalas que se não cansavam de lhe fazer a corte, tal abelhas a rodopiar à volta duma flor para lhe sugar o mel. Não foi surpresa que a Alicinha ficasse noiva. E de quem? Dum rapagão mestiço-cafuso, nascido e crescido em Rikatla que respondia pelo nome de Martinho e era guarda na fábrica de descasque de castanha de cajú, no Tinkarossine. Todos os que o conheciam estimavam-no e alcunharam-no Martinho-Mulatinho. O noivado foi muito badalado, sobretudo pelas raparigas da instituição, que viam nele um partido a não perder. Mas o moço era ajuizado. Sabia o que lhe convinha. Escolheu aquela que era a mais recatada entre as trabalhadoras: a Alicinha.

   A Julia e a Alicinha eram primas, unha-com-carne. Não havia segredo que não revelassem uma à outra. A Julia pouco tinha  para contar, senão a perplexidade de saber que tinha uma irmã mais velha, casada em Mambone, e que a não conhecera por causa da mãe. Ainda zumbia na cabeça a pergunta do falecido pai, pela razão de não confessar aquela parte dum passado que, bem vistas as coisas, foi um incidente de infância. Mas uma filha ou um filho não se deita fora. Ou deita-se? A Alicinha e a avó davam-lhe o consolo que requeria, um ombro onde chorar. A mãe Catarina era, e sempre seria, a principal culpada pela infelicidade da família e pela morte do pai que tanto a estimava. O Aliberto atravessara a fronteira para a África do Sul e dele nunca mais tiveram notícias. A única pessoa a quem poderia chamar parente só a prima Alice. Daí a razão de se juntar a ela.

   Os preparativos para o casamento da Alicinha iam naquele frenesim que é característico em grandes acontecimentos. E um casamento o que é senão isso? Aos fins de tarde as amigas, do Chinhembanine ao Vulcano; as colegas lá da fábrica; as vizinhas do Ka-Tharrana, do Lourinho à cantina do Mário, e demais conhecidas confluíam à casa da noiva para temperarem as vozes na entoação das cantigas no dia do matrimónio. A rapaziada não ficava atrás. Aquela era uma ocasião apropriada para fazer conquistas e, porque não, exibir habilidades nas pistas de dança. Aos fins-de-semana aprimoravam passos de djiva-mafruta, do xi-sassenta e de xi-pangarassada, ao som de música de sonoplastas da zona.

   A Alicinha não cabia em si de felicidade. Mas também qual é a mulher que não almeja chegar a este ponto, contrair matrimónio e iniciar a sua própria família com o homem que a ama? Para ela era uma condição merecida, conquistada à custa de um respeito pela sua própria dignidade e pelos ensinamentos da avó.

   As instalações da fábrica de Tinkarossine encontravam-se instaladas no centro da zona de Katharrana, um campo acostado ao cemitério de Lhanguene dum lado e doutro a zona do Vulcano. Quase em frente cortava-a a linha férrea que unia a cidade às  regiões de Mavalane e Missavene. Um cercado de metal marcava o seu perímetro. Os residentes dos lugares adjacentes viam-se deste modo na contingência de encontrar caminhos alternativos para se deslocarem das suas habitações ou para aí chegarem. A fábrica constituía, por assim dizer, um obstáculo à circulação das pessoas, embora era por todos reconhecida a sua utilidade como fonte de emprego para uma grande parte da populaçao. E como esta tem sempre na manga uma solução para cada problema,  a cerca foi violada em lugares estratégicos que encurtassem caminho. Durante o dia na empresa a segurança era total. Havia sempre guardas a circular, a controlar o movimento dalguns habitantes apressados, prontos a fazer corta-mato. Durante as noites as guarnições sofriam  pesadelos com o aumento  do tráfego de pessoas. Estas esgueiravam-se através de buracos feitos na rede e caminhavam no interior do recinto como se este fosse uma área de circulação autorizada. As deficiências da iluminação  facilitavam a movimentação dos peões furtivos.

   Talvez devido à falta de melhor solução, as autoridades da fábrica mandaram cavar um enorme buraco que servia para a recolha dos desperdícios de laboração. As normas de salubridade pública não permitiam que aquele tipo de material fosse despejado na lixeira municipal oficial da Bucaria, supostamente pelos efeitos altamente tóxicos dos seus sub-produtos.A solução que a gerência tinha à mão era a do aterro sanitário. Assim, aquela escavação no recinto da fábrica passou a constituir o lugar preferencial onde, dia-a-dia, grandes quantidades de casca da castanta partida eram depositadas. Aí sobrenadavam e formavam camadas cada vez mais espessas. Era como se ali se contruíssem as fundações dalgum edifício que nunca chegava a ganhar altura. As águas das chuvas, assim como os líquidos que se desprendiam  das cascas formavam um substracto semi-sólido, oleoso e pegajoso. Foi assim que se formou aquele lago artificial, de superfície movediça que deixou histórias na História da fábrica de descasque de castanha de cajú de Tinkarossine.   

    Conta-se que os malfeitores que frequentavam a zona lançavam os cadáveres das suas vítimas naquele lodaçal. As buscas que se efectuvam para as localizar resultavam infrutíferas. Os seus corpos, acredita-se, permanecem submersas naquele lugar, impossíveis de serem recuperadas.

   Naquela noite chovia a potes, com trovões incomuns nesse mês de Novembro a fazer estremecer as coberturas das casas. Um vento raro para a época soprava com muita violência e ameaçava derrubar árvores e habitações. Já lá dos céus da zona do Lourinho uma luminosidade amarelo-azulada denunciava que havia um incêncio em progresso. Relampejos de luz alumiavam os céus da cidade. Martinho atrasara-se em casa, numa reunião de emergência com membros da família provenientes de Rikatla, para acertos dos últimos detalhes no programa da cerimónia de casamento. Se utilizasse a via habitual de ganhar acesso ao posto de trabalho pela frontaria da instituição gastaria mais de trinta minutos do que se o fizesse pela via das traseiras. E esta era a da vedação que muitos dos residentes usavam. Assim, decidiu-se pelo corta-mato. Uma contradição: iria utilizar a via que ele próprio proibia aos outros de utilizar! Assim, aventurou-se à chuva pela via dos buracos da cerca. O chão encontrava-se alagado. As águas progrediam numa corrente branda naquele desnível do terreno. Mesmo para olhos conhecedores das características do terreno como os seus, era difícil avaliar os trajectos dos carreiros. A escuridão, a chuva e o alagamento do solo cumpliciavam para a ocorrência de um desastre. E esse aconteceu: Martinho desequilibrou-se num buraco e precipitou-se desamparado no lamaçal que era o depósito do lixo da fábrica. Esbracejou, gritou por socorro, em vão. Embora excelente nadador nada pôde fazer para a sua própria salvação. O seu corpo, paulatinamente, palmo a palmo, foi tragado pela massa espessa das cascas de castanha de cajú,. Aí ficou submerso para nunca mais ser recuperado. Estava-se a três dias do seu matrimónio com a Alicinha. Esta, na sua condição de noiva-viúva, todos os Domingos, em vez de atravessar a Avenida do Trabalho para a depôr flores sobre a campa do noivo amado no Cemitério de Lhanguene, fá-lo à beira daquele lago que, até hoje testemunha uma aberração na História da fábrica de Tinkarossine: a de ser a sepultura de alguns dos seus trabalhadores e dalguns habitantes do lugar de Katharrana.

   Dizem os moradores que, em noites de chuva, na zona de Tinkarossine escutam-se vozes e lamentos das pessoas mergulhadas naquela lagoa, e que elas permanecem submersas naquele líquido viscoso, a penar os tormentos da busca duma porta de saída. Outros, acostados às verdades proferidas pelos curandeiros, garantem que naquela vala comum os desaparecidos conservam-se vivos e nadam tranquilamente, como peixes num aquário, e convivem numa harmonia só possível na paz da eternidade.

   Muitos dos vizinhos da Alicinha, pessimistas por natureza, diziam que a morte do Martinho era o fim dela.  É como se ela tivesse sido abandonada no altar, porque não é comum um noivo ou uma noiva morrer nas vésperas do seu próprio matrimónio. A Julia fez  o que uma irmã deve fazer nestas ocasiões de perplexidade  e desorientação.

   A maior surpresa para todos é que a Alicinha estava grávida. Ela própria mal poderia imaginar que isso sucedesse. Quando, um mês depois do falecimento do noivo lhe faltaram as regras, adivinhou que, pelo menos, teria dele uma recordação e uma companhia que perpetuaria a memória daquela relação. Uma certa alegria reentrou na casa das duas primas; as rotinas mudaram para melhor acomodar as necessidades da Alicinha ao seu novo estado.

   A Julia redobrava nas actividades da costura para amealhar mais proventos _e clientes era o que menos faltava_ , a avó  esqueceu-se do reumatismo e da “tensão” para dedicar mais tempo aos fritos e às compras dos produtos para venda à porta do quintal. A Alicinha, por sua vez, não descurava das suas obrigações na fábrica; aquele emprego dava-lhe os proventos de que necessitaria para sustentar o filho que vinha aí.

 

*in “Caderno de memórias, vol II”, 2015.


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