Do parto da Alicinha e dos eventos subsequentes na aldeia de Mbunhane...

   Até que naquele fim do mês de Setembro a Alicinha deu entrada na maternidade do Hospital da Missão Suíça para o parto que já vinha com a data atrasada. Na sala de partos ela contorcia-se de dores. Apesar dos encorajamentos das enfermeiras, ela tinha muitas dificuldades em ter um parto espontâneo. Teve de ser operada à barriga-aberta para extrair o bebé. E deu à luz um rapaz a quem, de imediato, deu o nome de Martinho. Doutro modo nem poderia ser. Era a reencarnação do seu noivo, a perpetuação do nome da família.

   Na manhã do segundo dia depois da operação-cesariana a Alicinha aprontava-se para ir à sala de pensos, na companhia duma enfermeira. Era a estas horas do fim da manhã que, por rotina, recebiam visitas de caridade de freiras, ou de irmãs filantrópicas; outras mulheres que vinham ajudar as parturientes em tarefas mínimas como mudar as fraldas dos recém-nascidos, aconchegá-los ao colo quando as mães se deslocassem à casa-de-banho; enfim, uma mãos caridosas ao serviço das mães que delas necessitassem.

    A senhora enfermeira Judite, que era a chefe do turno da manhã na sala das parturientes operadas, chegou e, com aquele seu sorriso espontâneo, já tradicional, convidou a Alicinha para a rotina da mudança do penso. “ ... Deixa lá o bebé com esta nossa amiga...”, dissera, a oferecer os serviços daquela irmã que era já figura quase obrigatória naquele sector. Todas conheciam a irmã Cacilda, uma mulher que habitualmente frequentava a enfermaria em missão de filantropia. Esta nem hesitou porque essa era uma das suas missões: oferecer o seu gesto de entrejuda às parturientes.

   Quando, vinte minutos depois, que foi o tempo em durou a mudança do penso, a Alicinha regressou ao quarto, não viu a tal irmã Cacilda, nem o seu bebé recém-nascido! Teve um baque no coração. Olhou ao redor e não viu a mulher a quem confiara a guarda do bebé. Gritou pelo seu nome; o espanto do pessoal e doutras parturientes foi a resposta. O alarme sobre o desaparecimento daquela mulher e do rapto da criança foi lançado. Havia uma emergência no hospital. Foi um corre-corre, desde as casas-de-banho à sala de partos; desde os corredores ao portão de saída da instituição. Em vão, tudo em vão: a dita Cacilda raptara o filho da Alcinha e levara sumiço do hospital sem deixar rastos. Foi um escândalo numa instituição que se prezava pela qualidade dos seus serviços e pela segurança dos seus utentes.

   Dizer que a Alcinha ficou abalada é minimizar a dimensão do seu sofrimento. Nada havia que a consolasse. Havia perdido grande tesouro, o mesmo que lhe legara o seu falecido noivo, o mesmo que era uma promessa de uma vida confortada com a companhia desse filho que acabava de perder. Agora, com desaparecimento deste o que restava mais senão entregar-se à morte, porque de que valia viver se não usufruiria do direito de casar e do privilégio de ter filhos? Uma angústia profunda acabrunhou-a e quase levou-a à loucura e ao suicídio.

   A irmã “Cacilda” era uma mulher de meiaidade que fazia estadias sazonais no bairro do Chamanculo. Poucos conheciam a sua morada certa ou donde provinha. O que se sabe é que, por vezes, embarcava nas carreiras dos Oliveiras com destino a Chibuto, ou de lá vinha em viagens de curta duração a Lourenço Marques. Quando aí estivesse oferecia-se para pequenos serviços no Hospital da Missão Suíça, onde era acolhida com simpatia. Era uma mão extra para pequenos trabalhos nas enfermarias, nos cuidados a doentes acamados. Enfim, quando não comparecesse até chegava a fazer falta. As enfermeiras estimavam-na, era já considerada um membro activo da sua equipa.

   Esta “irmã Cacilda”, por aquilo que se poderia apurar, era uma mulher que vinha elaborando um projecto de raptar uma criança da maternidade do hospital. Para dizer a verdade, ela tinha problemas de conceber e ter filhos. Casara-se fazia três anos com um mineiro que todos os anos descia à terra natal em Mabunganine, com a esperança de que esposa lhe concederia a felicidade de lhe dar um filho. O tempo passava e ela sem dar sinais de que, um dia, aquele sonho viria a materializar-se. Vivia na angústia permanente de ouvir recriminações dos familiares, farta das chacotas das vizinhas e, o que era mais grave, das ameaças de expulsão de casa pelo marido. Do íntimo vinha também uma voz que lhe dizia que algo tinha de fazer para ganhar a honra de ter uma criança a que chamasse sua. E então, meticulosamente, elaborou aquele plano. O esposo regressara ao Djone em princípios de Janeiro daquele ano, depois de uma estadia de cerca de um mês. Fora para as celebrações das festas do Natal e do Ano Novo. O casal não poupou tempo ou esforço. Entregou-se em efusões na cama até ao esgotamento. No fim de cada contacto ficava nos espíritos de que ao cabo dum mês os resultados far-se-iam revelar, os de que ela concebera e ao fim dos nove meses outra felicidade entraria no lar.

   Dois meses depois do regresso do esposo à África do Sul, a “irmã Cacilda” escreveu uma carta ao marido, ou alguém fê-lo por ela, para anunciar que “estava de grávida” e que aguardava o parto para a última semana de Setembro. Escusado é imaginar quanta alegria encheu o espírito do esposo. Lá nas minas, entre os colegas, começou a anunciar a novidade de que, se tudo correr bem, passaria as próximas festas do Natal com um filho ao colo. O seu filho! Porque já muitos lá na aldeia, e mesmo nos compondes, já duvidavam da sua virilidade e fecundidade. Nada diziam abertamente, mas caçoavam à socapa: “...ah, esse nunca pode ter um filho porque foi mordido por um coelho!...”. E ser “mordido por um coelho” era o mesmo que ser impotente sexual, incapaz de reproduzir um filho.

   Durante o período do desaparecimento do filho da Alcinha o Hospital da Missão Suíça entrou em estado de sítio. A administração da instituição considerava que a ocorrência daquele incidente era um enorme vexame, uma grande nódoa à sua reputação. Como se explicava que uma pessoa estranha tivesse acesso às enfermarias, se introduzisse nas equipas de trabalho com aquela facilidade e, mais!, fosse capaz de cometer aquele acto? Tal só seria possível com a conivência de alguém de dentro. E essa era a enfermeira Judite, a mesma que aconselhou à parturiente a deixar o bebé com aquela mulher que se intitulava “irmã” Cacilda.

  A enfermeira Judite penou tormentos às mãos da Polícia Judiciária. Foi levada aos calabouços de Ka-Mussana e submetida a intermináveis interrogatórios. Como não confessasse torturaram-na com sessões de palmatoadas, de manhã, à tarde e ao deitar. Como insistisse em dizer que de nada sabia sobre aquele assunto, os detectives resolveram ministrar-lhe o mesmo castigo nos pés e no já magro traseiro.

   “ Quem é a mulher que levou o bebé? Onde ela vive? Como entrou no hospital?”, eram as perguntas para as quais ela não tinha resposta. Apenas choramingava e lamentava-se:

   “ A única verdade que conheço é que não sei de nada!”.

   Como a enfermeira era uma mulher crente em Deus, que sempre vem ao socorro dos injustiçados, os eventos sobre o desaparecimento do filho da Alicinha tomaram novos contornos, dos quais resultou a sua soltura, os mesmos que passo a relatar.

   O marido da “irmã” Cacilda, o senhor Muthakathe, regressou da África do Sul para as festas do Natal revigorado pela ansiedade de ver e aconchegar o filho varão ao colo. Claro que recomendara que dessem ao mesmo o seu nome: Jonas César Muthakathe. Desembarcou da carreira dos Oliveiras, no terminal da vila de Manjacaze, ajoujado de bagagens em que abundavam roupas e outros mimos para o recém- nascido, e para a esposa, é de se ver. Daí embarcou numa camioneta que o transportou até ao destino: a localidade de Mbunhane, na povoação de Mabunganine. A recepção foi efusiva, cheia de ululações pela parte dos familiares. A “irmã” Cacilda, porém, não parecia partilhar do contentamento geral. Havia um certo retraimento em toda a sua pessoa, como se a chegada do esposo significasse o fim de um bom sonho, ou o final de uma jornada feliz. O caso é que a criança apresentava feições que se não assemelhavam a nenhum dos parentes próximos, ou mesmo distantes, seus ou do marido. A avó deste, de olhos ramelosos mas aquilinos e com muita experiência da vida sobre os ombros, manifestara a sua desconfiança quando o bebé tinha apenas um mês de idade. Este chorava que até metia pena, durante o dia, e durante as noites, o que, na óptica daquela, significava que “comeram” o apelido do menino, que é filho de alguém estranho à nossa família”. Sem poder conter-se, porque também já corriam boatos na povoação, disse à nora-neta que “...esta criança não parece ser do meu neto... na nossa família não há ninguém com esta cor ou com cabelo tão liso como o dele... parece mais filho dum indiano ou dum mulato... ná, aqui há gato!...”. E por aí ficou-se. O resto ver-se-ia com o tempo. Escusado será dizer que as relações entre as duas mulheres não eram de molde a considerarem-se afectivas e pacíficas.

   A avó do Muthakathe já vinha desconfiando dos procedimentos da mulher do Jonas desde que este regressara ao Djone na época anterior. Esta viajou para Lourenço Marques onde se fixou e dizia viver num bairro chamado Hlamanculo. E mais, que arranjara emprego num hospital como auxiliar de serviços. O estranho é que das poucas vezes que viajou para Mabunganine vinha embrulhada em panos e vestidos-à-mamã, como se estivesse “de grávida”. Mas a avó, que já vira milhares de mulheres grávidas, e até ajudara muitas em trabalhos de parto, não enxergou na nora-neta sinais de que na verdade estivesse naquele estado. Mesmo a cara era a mesma, sugada, de mulher esfomeada, nada que se parecesse aos rostos das grávidas, que são arredondados e com algumas borbulhas; as pernas, em vez de mostrar algum inchaço, continuavam fininhas como as das dançarinas de massesse; nunca se queixou de faltas de apetite, ou do seu exagero, nem de vomitar durante as manhãs, embora deglutisse torrões de matope. Para a avó, toda aquela representação era uma farsa, uma tentativa de convencer a toda a gente de que estava grávida. E a verdade veio ao de cima com o “ nascimento” daquele bebé mulatinho. Das duas uma: a nora-neta estava mesmo “de grávida” e a gravidez era de um homem mestiço, ou o mais certo era ter roubado o bebé dalgum lado porque grávida não estava. Qual era a verdade? Como a paciência é a mãe de todas as virtudes, e porque uma gravidez é como um furúnculo que um dia vai rebentar, resolveu esperar para ver. A verdade ia falar por si. E falou.

   Naquela mesma tarde do desembarque, o recém-chegado Muthakathe exigiu que lhe depusessem o filho ao colo, o que a esposa fez a contragosto, deve-se confessar. Aquele descobriu a cobertura da cabeça e do rosto do bebé e não gostou do que viu. Não se achava nenhum papalvo, nem tão cegeta que não descobrisse que aquela criança tinha um cabelinho liso, escuro, a pele francamente pálida, como é a dos mestiços. Era, e porque doutro modo não poderia ser, filho de pai ou de mãe mestiça. E estes não os havia na família. Devolveu-a à mãe, carregou o sobrolho e trovejou:

   “ Matildana, és capaz de me dizer quem é o pai desta criança?”. Meteu a cabeça entre as palmas das mãos e escondeu-a entre os joelhos. Estava aniquilado de desapontamento, crucificado na cruz da humilhação, um animal enclausurado na jaula da vergonha.

   A resposta veio sob a forma de silêncio.

   “ O que eu quero saber é: quem foi o homem com quem tiveste esta criança. Só isso. Do resto trato depois”, Jonas persistiu no interrogatório, a ranger os dentes. As mãos estremeciam e os traços do rosto crisparam-se, evidência de uma ira que crescia. 

   Da boca da pretensa “irmã Cacilda” as palavras saíram atropeladas, um balbuciamento de falsidades mal forjadas: “...hã... porque eu..., hã... porque a mãe da criança morreu..., hã...porque já não sabia o que fazer...”. Era a queda do embuço, a confissão pronunciada do crime de rapto que cometera e da mentira que pretendera impingir ao marido para ganhar o direito ao lar e sustentar o orgulho de ser mãe.

   E a bomba explodiu em Mabunganine: a Matilidana sequestrara aquele bebé dalgum hospital em Lourenço Marques, o mesmo que declarara ser seu. E que, pobre da mãe – sabe-se lá quem é, e onde estará – a penar as angústias do Inferno pelo desaparecimento do filho.

   A notícia chegou acelerada aos ouvidos das autoridades na vila de Manjacaze através dos arautos do régulo.

    Quando os agentes da Polícia Judiciária chegaram a Mbunhane, lá nos matos recônditos da povoação de Mabunganine, encontraram a falsa irmã Cacilda à beira da morte, da sova monumental que o marido lhe ministrou. Com eles levaram a criança raptada e, com brevidade, devolveram-na ao colo da Alicinha que, assim, ressuscitou do estado de desespero e de depressão em que já vivia.

 

 

*in “Caderno de memórias, vol II”, 2015.

 


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