Dois mil e quarenta…

Nos tempos que correm a realidade confunde-se à imaginação e converte-se em algo sem precisão. É tudo duvidoso. Um discurso escorregadio embriaga-nos e tudo se transforma em ficção. A verdade deixou de interessar. O desejo de nos mantermos no poder nos faz ridicularizar a bússola que os génios usam para fugir de um despautério como o nosso.  Tontices e politiquices se aliam frequentemente contra a verdade.

As janelas fechadas e a luz fluorescente que era emitida por uma lâmpada colada a uma das paredes brancas do quarto neutralizavam o tempo. Naquele quarto, assim como em todos quartos daquele edifício, é sempre noite.

Os olhos de um homem deitado de costas numa cama abriram-se penosamente. O acamado olhou com muita atenção para única coisa chamativa que estava no seu campo visual. A máquina de reconhecimento que existe dentro de todos nós procurou por aquela imagem na base de dados. Já tinham sido armazenadas várias imagens semelhantes àquela, mas nenhuma delas correspondia à porta branca em questão. A mente do homem disse ao corpo que nunca tinham estado naquele lugar. Até ali os sentidos tinham funcionado desordenadamente, o homem que dirigisse a operação se quisesse respostas. Então ele virou a cabeça para o lado direito da cama e viu um monitor no qual ziguezagueavam algumas cobrinhas no sentido esquerda-direita e se destacava um número com uma cor vermelha. Os apitos que vinham da máquina despertaram a audição do homem.
– Pufffff! – bufou o homem.

À medida que se ia dando conta que aquilo era uma máquina que registava os seus batimentos cardíacos sentia no corpo os buraquinhos por onde entravam os tubos hospitalares aos quais o seu corpo estava ligado. Fez um esforço para se lembrar como tinha ido parar ao hospital. Mas o cheiro a éter que lhe beijava as narinas roubou-lhe a concentração. O despertar de cada sentido paria dores. Na cabeça tudo girava e se descontrolava como um país sem liderança. As tonturas o torturavam. O peito ainda se ressentia das fortes pancadas que o coração lhe dera.

A maçaneta da porta girou. Os olhos do homem voltaram-se ansiosos para a porta. Dois segundos depois um homem com um ar idoso que trazia vestida uma bata branca entrou no quarto.

– Olha quem está acordado… – disse o médico enquanto se aproximava da cama do doente.

O doente olhou para os lados como se procurasse o tal acordado e ao perceber que ele era o único que poderia ter estado a dormir cobriu a cara com a mão direita como quem quisesse esconder a vergonha.

– Olá doutor! Há quanto tempo estou aqui? Perdi a noção do tempo…

–  É normal que te sintas assim. Demos-te um sedativo, por causa das dores. Já passa…–disse o médico com um ar tranquilo enquanto tirava os óculos.

– Estou com umas tonturas… Durante quanto tempo dormi, que dia é hoje?

– Se tivesses dado entrada num hospital da província vizinha estarias a acordar em dois mil e quarenta… Não te preocupes, foram apenas algumas horas. – disse o médico com um tom jocoso.

– Dois mil e quê???? – perguntou o homem visivelmente aturdido. O médico não precisou de explicar aquele número, fez-se luz na cabeça do doente. O homem concluiu que o que o médico tinha dito só poderia ter algo a ver com a questão cabeluda do recenseamento eleitoral que tinha sido levantada há dias. – Awena! Ainda se anda nisso? A Propósito, alguma novidade?

– A mesma palhaçada de sempre! Quase que já nem se toca no assunto, anda tudo distraído com leões que comem milho e mandioca das machambas de Matutuine… – disse o médico com um tom irónico.
– Leões que comem o quê??? Desde quando os leões são vegetarianos? Começo a acreditar que acordei em dois mil e quarenta mesmo!

O médico riu-se. Levou as olivas auriculares do estetoscópio aos seus ouvidos e colou a outra parte do instrumento ao peito do doente para o examinar. Enquanto fazia o seu trabalho o sorriso denunciava a tranquilidade de um profissional, cuja verdade científica, por enquanto, não dependia do carimbo político para ser acreditada.
 


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