“Dondza” e “Ahirimeni”: duas propostas complementares

A letra é um som, quando o olhar é uma esperança

Mirette Muzi  

Albino Mbie brinca de ser um músico a sério. Na verdade, é nisso o que ele se torna, quando, em dois álbuns, apresenta-se com uma qualidade bem apreciável. Quer em Mozambican dance quer no mais recente Mafu temos um artista categórico, que sabe o que está a compor, para quem e as razões de seguir por uma via e não por outra. Mas não é nada disso que nos traz cá. Hoje, o que nos move é a complementaridade existente entre duas músicas: “Dondza”, do álbum Kwiri, da autoria de Roberto Chitsondzo, e “Ahirimeni”, do álbum Mafu, da autoria de Albino Mbie. As duas músicas têm em comum uma dimensão moralística sintetizada num nós capaz de fortalecer o equilíbrio social. Nos dois casos, nota-se claramente o compromisso que cada um dos músicos tem com a sua gente. Logo, as letras aparecem com teor fraterno, veiculado numa linguagem apelativa, moderada e emocionante. A pretensão é a mesma: fazer das composições um mecanismo de persuasão de modo a que a lucidez possa ser cantada e disseminada quando a música é ecoada aos ouvidos. Vejamos:

 “Dondza”, de Roberto Chitsondzo, o eterno professor de educação física muito comprometido com o ensino, é uma música com três minutos e cinquenta e oito segundos. Neste tema, na verdade, o músico canta a educação, aquela que depende de nós, do nosso interesse e que deve constituir um modo de vida. É uma educação nunca tardia. Por isso, a música sugere a todos – às mães, aos pais, aos jovens em geral e às crianças – para investir na escola, esse lugar caro a muita gente sem possibilidades financeiras e sociais para frequentar. A letra de Chitsondzo é simples, breve e, por via desta música, o autor dirige-se aos seus com a convicção de quem sabe o que é a vida sem escola e o que pode ser com os seus ensinamentos.  

A terceira música de Kwiri começa, de facto, com uma recomendação (estude), meio nostálgica, restrita à sua mensagem abrangente. No entanto, a medida que progride vai ficando (mais) animada, mesmo sem abstrair-se dessa atmosfera melancólica, de tal forma que lá para o fim até estimula uns gestos passos de dança, ao de leve.

Se, por um lado, Roberto Chitsondzo aposta, em “Dondza”, numa mensagem dirigida à necessidade de se investir na escola, em “Ahirimeni”, Albino Mbie convida os seus a lutarem por um futuro digno. Neste aspecto, Mbie alia-se ao “bom rapaz” por também ser sua percepção a importância dos livros, dos seus ensinamentos. Entretanto, Mbie não se prende à escola. Naquela música, a oitava do álbum Mafu, temos a convicção de que a escola é importante, é verdade, na mesma proporção que a arte e a agricultura, por exemplo. Aliás, a partir da actividade agrícola, “Ahirimeni” (vamos cultivar), num claro jogo metafórico, sugere que as pessoas cultivem, pois, assim, poderão colher no futuro. Mais do que se pegar na enxada, o que está a ser dito é outra coisa: todo sucesso provém do trabalho árduo.

Ambas as músicas, ao apontarem uma direcção, idealizam os benefícios possíveis de serem alcançados com uma vida preenchida de dignidade, sabedoria e bem-estar. Chitsondzo e Mbie cantam pela educação e pela perseverança no trabalho por se preocuparem com indivíduo enquanto entidade que faz um grupo, uma comunidade e, no sentido mais lato, uma nação. Por isso, a mensagem das músicas dois autores é sempre plural. Em “Ahirimeni” temos, constantemente, traduzido do rhonga, “Vamos cultivar [trabalhar], meus irmãos”. Não são irmãos de sangue, mas da afinidade a ser salvaguardar pelo facto de um conjunto de gente ter nascido no mesmo espaço territorial ou então por fazer parte deste espaço, independentemente da sua naturalidade. Em “Dondza” também não falta o colectivo, representado em grupos: crianças, jovens, homens e mulheres.

Sem se absterem da sua qualidade artística, bem preservada, “Dondza” e “Ahirimeni” traduzem o desejo de ambos os músicos contribuírem na construção de um país com mensagens acertadas e, com isso, envolver mais pessoas nessa construção.

 

 


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