Dum viajante clandestino a bordo do comboio da Manhiça...

O apeadeiro do Vulcano era rico em incidentes. Ora eram as brigas entre as vendedeiras de lenha, de carvão ou de frutos silvestres variados como massala, nozes, tintsiva e outros tantos, que disputavam fregueses na multidão dos que os adquiriam para revenda nos mercados do Diamantino, do Xipamanine ou mesmo aos portões dos quintais; ora eram os pequenos ladrões que a coberto da movimentação de gente, sorrateiros, roubavam incautos dalguns bens e criavam grandes alvoroços na multidão.

 A avó da Alicinha deslocara-se ao Vulcano para recolher uma encomenda de carvão e de lenha que encomendara de Marracuene. Habitualmente fazia destas viagens àquela estação para adquirir mercadoria para a banca, já muito afreguesada, que montara diante da sua casa. Contava com ajuda dum camionista que transportava a mesma até à sua residência. A novidade que trouxe às netas no fim daquela manhã deixou-as boquiabertas e reforçou no espírito delas a crença de que o feitiço era coisa para se levar muito a sério na vida das pessoas. O que narrou, e porque foi isso o que lhe contaram, passamos – sem garantia de não exagerarmos por ser já história recontada – a reproduzir:

     “Aquela mulher viajava embuçada em panos pretos, da cabeça até aos pés. Parecia estar em luto pesado. Pouco falava com os companheiros sentados em frente e ao lado. Vocês sabem que nestas viagens a maioria das pessoas gosta de conversar, trocar impressões, contar as coisas que sucedem lá nas aldeias e nas machambas. Mas ela, nada! Só grunhia ...hum!...hum!...hum!..., nada que se entendesse. Trazia um carregamento às costas, talvez uma criança doente, um leitão ou coisa parecida. Desde a estação terminal da Manhiça e durante toda a viagem a tal criança nem chorava para mamar, mas mexia-se muito, talvez por causa do calor que já era demais na carruagem. Aos pés dela protegia um cesto cheio de hortaliças. Quando o comboio chegou a Mavalane, antes da estação do Vulcano, o revisor entrou na carruagem para controlar os bilhetes de passagem. Já se sabe que alguns passageiros, armados em espertalhões, sempre procuram fugir à cobrança e escondem-se nas casas-de-banho. Por causa disso as carruagens de segunda e terceira classes não têm aquele tipo de utilidade. Se alguém estiver aflito... paciência!”, tem de aguentar até à chegada à estação seguinte.

   Quando o revisor chegou ao pé daquela mulher vestida de luto ela levantou para ele os olhos duma maneira suspeita.

   “ Mamã, mostra lá o teu bilhete”, ele pediu, sem dar confiança.

    Ela mostrou. Mas o revisor, ainda muito desconfiado com o tamanho do bebé que ela trazia às costas, perguntou:

   “ O que trazes aí nas costas?”

   “ É o meu filho que está doente. Estou a levar ao hospital na Missão Suíça”, gaguejou a viajante.

   Os passageiros sentados ao lado também estranharam o silêncio da tal criancinha, mas enfim, se calhar estava mesmo muito doente e não podia sequer chorar para mamar.

   “ Que idade tem o teu filho, mamã? Parece muito grande para ser um bebé. Se for grande tem de pagar bilhete, meio-bilhete pelo menos”.

   A mulher parecia atarantada. Virou os olhos para a esquerda e para a direita, mas da boca nada saía. O tal bebé mexeu-se de novo.

   “ Mamã, fachavor de mostrar o teu bebé. Não vou ficar aqui o dia inteiro a pedir favores. Vamos embora, mostra lá a criança!” –  havia determinação na voz do fiscal.

 “ Mostra o bebé ou mando parar o comboio e ponho-vos fora, a ti mais o teu filho”.

   A carruagem estava superlotada. Todos calaram-se para escutar – sempre os mesmos bisbilhoteiros, não deixam passar nada!”.

  O combói continuava, ...ca-tã!...ca-tã!...ca-tã!...a vencer a linha já à entrada do apeadeiro do Vulcano. A mulher ergueu-se do assento e começou a folgar a capulana com que cingia o filho às costas. O revisor e os demais passageiros encontravam-se atentos aos movimentos dela.

  Mas eis que, quando a mulher desfaz o último nó dos panos, do meio destes emerge um crocodilo comprido e muito escamoso.  

   Gerou-se um grande pandemónio a bordo.  “...I ngwenya!!!...É um crocodilo!!!...A ngwenya!!!”. Os passageiros saltaram dos bancos e atropelavam-se numa correria medonha em todas as direcções. Uma algazarra nunca vista. O crocodilo bocejava e arreganhava os dentes, livre dos apertos e da asfixia da capulana. Pior foi o que sucedeu logo a seguir. O fiscal e alguns dos passageiros, talvez devido ao pânico e para encurtarem o caminho da fuga, escapuliram-se pelas janelas da carruagem em movimento; outros misturaram-se na comoção até ao estacionamento do trem na estação.

   Do rescaldo do incidente apuraram-se sete mortos, vítimas de quedas nas bermas da linha, e dezenas de feridos, entre graves e ligeiros.

   Soube-se dias depois que a “mãe“ do crocodilo chamava-se Sabina, uma famosa feiticeira da Manhiça que, por via de acordos e promessas, levava aquele réptil como fornecimento para um curandeiro seu cliente residente no Tlhavane, para uso em rituais de esconjuro”.

   Sobre o animal conta-se que, obedecendo ao instinto natural de anfíbio, rastejou até às águas do lago situado nas proximidades da cantina do Mendes, para aí reforçar a população de crocodilos que, ciclicamente, devoram incautos residentes das adjacências.

   E o poeta dedicou uma ode ao evento:

    ...no comboio da Manhiça/ apanharam uma mulher

    ...com um crocodilo às costas/o seu nome é mamã Sabina...

   No fim da narração a Alicinha e a Júlia suspiraram profundamente. Mentalmente, juraram que, a partir daquele instante, levariam mais a sério as estórias de feitiços e de feiticeiros que a avó muitas vezes contava como nkaringanas.       

 

 


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