“É com medo de deixar de ser criança que eu escrevo”

“É com medo de deixar de ser criança que eu escrevo”

Um escritor que não gostaria de crescer. Ou melhor, que gostaria de continuar a ser criança. Tem livros para adultos, mas não os quer lançar. Esse escritor é Celso Cossa, autor de O menino que odiava números, o melhor livro publicado no país ano passado. Nesta entrevista, sempre com a imagem da criança nos argumentos, o escritor refere-se à importância do Prémio BCI de Literatura, da literatura infanto-juvenil e, claro, realça alguns aspectos do seu processo criativo.

 

Celso Cossa, imagino, está com os bolsos cheios de orgulho, pelo Prémio BCI de Literatura. Como qualifica o reconhecimento à sua obra?

Eu não me vejo como vencedor do Prémio BCI de Literatura. Na verdade, a distinção é de toda a juventude e da literatura infanto-juvenil. Enquanto jovens, todos nós deveríamos festejar pelo reconhecimento ao meu livro, porque se se diz que é de pequeno que se torce o pepino, então já temos aqui uma porta aberta para mostrar que queremos torcer o pepino ainda pequeno. Uma distinção do BCI de Literatura a um infanto-juvenil, por mais que não fosse o meu livro, é uma coisa que não cabia na minha cabeça. O que eu posso dizer é que estamos todos de parabéns. Houve uma passagem de testemunho.

 

Porquê não acreditava que um infanto-juvenil poderia vencer?

Porque, enfim, ainda há muita gente que pensa que escrever para crianças não é escrever. Então, penso que este prémio também foi uma bofetada para todas essas pessoas que pensam assim.  

 

Mas essa visão redutora em relação ao infanto-juvenil não é generalizada…

Exactamente! Mas quantos de nós vai aos lançamentos de livros infanto-juvenis? Um episódio. Ano passado, três escolas convidaram-me para dar uma palestra e oferecer livros aos alunos, no dia 1 de Junho. Na véspera, duas delas declinaram o convite – e o motivo é o mais mesquinho possível. Eles disseram-me que declinaram o convite porque os pais e encarregados de educação das crianças não viam a ideia de oferecer livros às crianças como boa, porque os meninos preferem camisetas do Barcelona, brinquedos ou bolas ao invés de livros. Ou seja, quem escreve para crianças é visto como uma pessoa que ainda está a caminhar para esta coisa de escrita. O prémio veio para alterar esta visão. Escrever para crianças é também escrever. E, se calhar, ao educarmos uma criança com livros, é menos um adulto na cadeia.

 

Que impacto pode advir deste primeiro reconhecimento a um infanto-juvenil pelo BCI de Literatura?

Antevejo um crescimento muito grande em termos de produção infanto-juvenil; antevejo maior interesse dos pais e encarregados de educação, das escolas e do Governo. A distinção ao meu livro foi um recado que, talvez, possa contribuir para acelerar a criação de um Plano Nacional de Leitura e de políticas que envolvem crianças. Eu antevejo um florescer da literatura infanto-juvenil, quer em Moçambique, quer nos PALOP. Num canal de televisão, que não preciso citar, quando foi anunciado o vencedor do BCI de Literatura, foi dito o seguinte: “um total desconhecido venceu o prémio”…

 

Entretanto esse “total desconhecido já tinha três livros”…

Sim. Aquela afirmação pode denotar algum desprezo, mas, no final das contas, é um chamariz muito importante. A partir daí, muita gente pode ter-se interessado em saber quem é esse desconhecido, que não é uma ilha, faz parte de uma colectividade e de um país. Há uma abertura e acho que vai mudar muita coisa.

 

Chegou atrasado à cerimónia da consagração. Como ficou a saber que O menino que odiava números tinha sido laureado o melhor livro de 2019?

Eu trabalho a mais ou menos 100km da cidade de Maputo. Alguém da organização da gala do Prémio BCI de Literatura conversou comigo sobre o evento ao telemóvel e, no final, a pessoa perguntou-me se eu estava em Maputo. Eu disse-lhe que não. Então a pessoa perguntou-me se eu poderia conseguir uma dispensa do trabalho ou algo parecido. Eu disse que sim. Aí a pessoa disse-me a organização estava satisfeita por se ter debatido à volta de um livro infanto-juvenil, algo que não era de se esperar. Depois disso convenceu-me a participar na gala e, depois, a tomar um vinho. Quando ouvi aquilo vi uma luz no fundo do túnel. Decidi que, independentemente de ganhar ou não, eu tinha de estar na cerimónia do anúncio do vencedor. Seria um mau perdedor se não tivesse ido. Entrei no carro e acelerei. Quando me encontrava a cinco minutos do Auditório do BCI, começei a receber várias mensagens de felicitação. Nisso, uma outra pessoa da organização liga-me a pedir que chegasse rápido para cumprir com aquele todo protocolo. Cheguei ao Auditório e o resto é a história que já se sabe.

 

O que lhe ocorreu no momento que recebe a primeira mensagem de felicitação?

A primeira coisa que me ocorreu é que vale a pena escrever e tirar as ideias que tenho na cabeça para o papel. Aquilo que penso quando me encontro na solidão da escrita serve para as pessoas. Fiquei feliz por todos nós que nos envolvemos na produção do livro infanto-juvenil. Eu tenho vários livros para adultos, mas não penso em lança-los.

 

Não agora?

Sim, e também não pensava há cinco anos. Desde essa altura que a minha preocupação é concentrar-me em produzir para uma faixa etária que é muito esquecida.

 

Indo à história do livro, quem é este Laerty, o menino que odiava números?

Laerty é o meu filho mais velho, e, com a excepção dos números, todas as personagens da história representam os meus familiares. Eu escrevo este livro pensando naquilo que passei quando me encontrava no secundário. Eu era muito bom a Matemática e via os meus colegas a exprimirem-se e odiar a disciplina. Então esta é uma forma de dizer que a Matemática não é um bicho-de-sete-cabeças.

 

Numa perspectiva pedagógica?

Não o escrevi a pensar em ensinar. O livro é sobre a Matemática, mas não ensina. Acho que aí está a diferença entre o professor e o escritor. Enquanto o primeiro ensina, o segundo “desensina”, para mostrar o outro lado da coisa, as diferentes perspectivas do mesmo objecto. Por exemplo, não ficaria muito feliz se duas pessoas lessem a minha obra e ficassem com a mesma percepção. Quem pode ficar feliz, nesse sentido, é o professor.  

 

Do ponto de vista técnico-narrativo O menino que odiava números é igualmente sugestivo, com histórias intercaladas de um aluno, de um avô e os seus netos e mais uma pouco aprofundada: a dos números. Por que decidiu contar a história de Laerty nesta perspectiva?

Quando projectei a história, quis que fosse uma série de sete livros. Entretanto, por não acreditar muito na receptividade, eu e a minha editora, Teresa Noronha, preferimos começar por uma trilogia. Quando diz que há uma história pouco aprofundada, tem razão. Esta história não termina ali. Como se pode notar, existe um prólogo no final do livro para indicar que a história continua.

 

Como tem sido este processo de revisitar a criança que existe dentro de si e, a partir dessa revisitação, dialogar com as outras crianças?

Se existisse uma maneira de não deixarmos de ser crianças, eu gostaria que isso acontecesse.

 

Estou a ver que gosta do Peter Pan…

Exactamente. É com esse medo de deixar de ser criança que eu escrevo para crianças. As melhores fases da minha vivi ainda criança. Agora que sou pai, muitas vezes ocorre-me coisas destas: “quem me dera que os meus filhos tivessem sido crianças no tempo que eu era”. Também escrevo para isso… para que os meus filhos possam resgatar a minha infância. Por exemplo, Laerty, personagem da história, também é um bocado de mim ainda novo.

 

Laerty, enquanto protagonista da história, é uma combinação do autor e do seu filho?

Não. O Laerty é o que eu gostaria que o meu filho fosse. É uma combinação daquilo que eu fui e daquilo que eu gostaria que o meu filho fosse. Acho que todo o pai vê no seu filho um portal para que se concretize aquilo que ele não conseguiu ser.

 

Com ou sem obsessão?

Não pode ser com obsessão. Eu gostaria que o meu filho realizasse alguns dos meus sonhos, mas isso não é forçado.

 

E na história temos uma história de amor pueril, com a Matemática como ponte…

Exacto. Mas, sem querer ir para o segundo livro, as coisas não serão fáceis para Laerty. Ele terá de provar que gosta muito de Matemática para conquistar a menina com cintura de vespa.

 

Como é esta coisa de ver a vida e as várias dimensões de um objecto a partir de uma perspectiva matemática?

Eu acredito em números. A minha vida é feita de números. Preocupo-me com as datas. Por exemplo, o Prémio BCI foi anunciado no dia 27 e um dos personagens do livro é o 7. Há essa toda simbologia para mim. Eu acredito que se Deus fez o mundo e tentou dar algumas dicas sobre o que é o sentido da vida, Ele deve ter escondido muita coisa na Matemática.

 

E repara, no dia 27 era suposto que a cerimónia iniciasse às 17 horas.

Exactamente. Tudo isso tem alguma coisa a ver… O meu primeiro livro também invoca muito o 7: Sete histórias sobre a origem de quem come quem.

 

Acredita que o 7 é um número mágico?

Eu gosto de compor e de tocar. São sete notas musicais. A semana tem sete dias e existem sete pecados capitais. A minha mãe é a sétima filha dos pais.

 

Então temos de mudar o seu nome. Passa a ser Celso Sete.

Acho que seria boa ideia.

 

O que lhe deu mais gozo ao passar para o papel O menino que odiava números?

Voltar à infância e dialogar com os amigos que perdi ao longo do tempo. Esse reencontro fez-me bem. Outra coisa, pude colocar mais um livro na prateleira da minha casa. Meus filhos têm mais opções de leitura. Na casa onde eu cresci, havia apenas três livros na cabeceira da minha mãe: Zabela, um romance em rhonga ou changana de Bento Sitoe; A minha luta, de Adolf Hitler; e A Bíblia Sagrada.

 

Está a querer dizer que escrever, para si, é uma forma de lembrar e de eternizar as suas lembranças?

Eu acredito que as pessoas estão na terra para tentar explicar o sentido da vida através de três formas: da arte, da ciência e da religião. Eu elegi a arte.  

 

Sugestões artísticas para os leitores do jornal O País?

Sugiro Ferramentas para desmontara a noite, de Japone Arijuane; e João Gala Gala, de Pedro Pereira Lopes.

 

PERFIL

Celso C. Cossa nasceu em Maputo. Possui uma licenciatura pela Universidade Pedagógica. É membro da Associação dos Escritores Moçambicanos e autor de Sete estórias sobre a origem de quem come quem (Prémio Nacional 25 de Maio, PAWA, 2015), O Gil e a Bola Gira e Outros Poemas para Brincar (EPM-CELP, 2016), Dandiwa – a menina que ganhou uma bolsa de estudo (Menção Honrosa no Prémio Matilde Rosa Araújo, 2015), O Sol e o Solzinho (Menção Honrosa no Prémio Matilde Rosa Araújo, 2016) – as duas últimas não publicadas.  


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