E o Gungunhana vende frutas numa banca do bazar

Fonseca Amaral: “Lembras-te, Lina, / do beijo roubado entre girassóis/ ou de quando íamos/ de mãos dadas, meninos/ ouvir as barcarolas/ do marinheiro negro na praia?// Mamana Celina/ não voltou mais à esquina da rua/ com suas badgias picantes e castanhas de caju/ e o negro coxo que jogava futebol/ morreu numa noite de bebedeira// Lembras-te, Lina,/ do moleque Fabião que nos trazia do mato/ maçalas e amendoim?/ É agora um velho alquebrado/ à porta da palhota/ embrulhado numa réstea de sol.// Os nossos companheiros doutrora/ se dispersaram, também: / os meninos brancos trabalham nos escritórios,/ Zé Mulato sonha Brasis e ritmos de samba/ e o Gungunhana/ vende frutas numa banca do bazar.” (Excerto do poema “Evocação”).

A primeira vez que ouvi falar do Fonseca Amaral foi num texto empolgado e evocativo do Rui Knopfli, no caderno de poesia Caliban, número 2, de novembro de 1971, que ele fazia editar, na companhia do poeta Grabato Dias. Escrevera o autor das Mangas Verdes com Sal: “Fonseca Amaral é, por direito e mérito próprios, um dos nomes mais altos e representativos da Poesia em Moçambique e, simultaneamente, por desleixo ou abulia, um dos menos conhecidos e apregoados, espécie de grande ausente nos vários certames em que vamos acrescentando pátina às nossas acanhadas glórias caseiras.” Assim começavam as “Notas para a recordação do meu mestre Fonseca Amaral”, nas quais se acrescentava: “Tímido, reservado, inseguro de si próprio, que não da sua poesia, membro daquela família de criadores que, cumprindo-se embora, se apagam e auto-anulam não se sabe bem porque estranhos caprichos da vontade, é o poeta em larga medida responsável pela pouca, ou nenhuma, divulgação de uma obra merecedora da mais vasta audiência.” A geração que desponta para a literatura nos anos ulteriores à II Grande Guerra muito lhe deve. Esta geração (à falta de melhor termo, di-lo-ia Knopfli) incluía José Craveirinha, Noémia de Sousa, Ruy Guerra (o cineasta) e Rui Guedes da Silva, Rui Nogar e o pintor António Bronze e o próprio autor daquela pungente homenagem.

Rui Knopfli: “Frágil, mefistofélico, com um rosto elusivo de pássaro, João da Costa Fonseca Amaral – de seu completo nome – estimava dizer que nascera no Cairo, para não confessar que vira a luz, prosaicamente, em Viseu, no final da década de 20. Desde a mais tenra idade, porém, estro e coração ficaram-lhe para sempre ancorados no Largo Albasini, bem na fronteira nevrálgica da “outra” cidade, onde – ao observador mais arguto – não escaparão, ainda hoje, os modelos vivos que tão sugestivamente lhe animam a poesia. Poesia que, alicerçada nos moldes esquiçados pelas correntes modernistas portuguesas da primeira metade do século, é das primeiras a integrar harmoniosa e originalmente, nesse modo de dizer, todo um bem tipificado e colorido microcosmos local erigido – pela escorreita finura de uma límpida e vigilante inspiração lírica – à condição de linguagem e mitologia de sabor iniludivelmente moçambicana. A tal título são acabados exemplos como “Evocação”, “Para um barco…”, “S’Agapo”, ou “Passagem de nível”, coordenadas maiores para a rigorosa consciencialização e delimitação de um espaço literário até aí fluído e incaracterístico.”

Fui visitá-lo à sua casa, em Janeiro de 1990, a pretexto de uma entrevista, tendo como linha de cota o artigo do Rui Knopfli e os depoimentos afectuosos da Noémia de Sousa e do José Craveirinha, que me falavam dele com abundante e transbordante emoção e indisfarçável amizade e bonomia. Era um homem de certo modo sibilino, esquivo, tímido. Mas adorável. A conversa que mantive com ele foi inesquecível e emotiva. Sincera. Profundamente sincera. Nascido em Viseu, em 1928, Fonseca Amaral fora para Moçambique com apenas três anos de idade. A sua infância – e por aí iniciamos a nossa conversa – passara no Xipamanine, nas terras do “Ka Amaral” (seu avô) –, com amigos negros com quem falava Ronga. Também tinha amigos de outras origens e que se misturavam naquelas periferias: muçulmanos, indianos, chineses. Passará pelo Chamanculo e, depois, a ascensão social levá-lo-á ao Alto-Maé, ao Bairro Central e, ulteriormente, à Polana.

Na adolescência foi vizinho do Eugénio Lisboa, que irá, muitos anos mais tarde, prefaciar, com o seu conhecido e festejado tom sulfuroso, o livro Poemas, editado postumamente em 1999, em Portugal. Mas lá iremos. Pus-lhe, depois da romaria à infância, uma questão sobre a juventude, questão similar que eu pusera à Noémia: por que razão é que eles (incluindo, pois, a Noémia de Sousa) haviam colaborado na revista da Mocidade Portuguesa? “Por ingenuidade, por sacanice”, disse-me ele. “Era uma sacanice ingénua.” Julgavam que poderiam tomar de assalto a publicação. Tinham o ideário oposto ao defendido pela Mocidade, tanto mais que alinham com o MUD-Juvenil e, mais tarde, são presos: ele, Rui Knopfli, Ruy Guerra, os mais jovens; ou aqueles que ele chamaria de “os trutas”: Henrique Beirão, Sofia Pomba Guerra, Sobral Campos ou João Mendes, todos eles deportados para Portugal, presos em Caxias. Sem provas, seriam libertados após o julgamento, mas o João Mendes segue degredado para Cabo Verde. João Mendes, é preciso lembrá-lo, irmão de sangue de Orlando Mendes, irmão de coração da Noémia de Sousa, que lhe dedicará Sangue Negro.

Influenciados pelos neo-realistas, irão lançar estes jovens os tentames de uma literatura de raiz marcadamente moçambicana. Não é alheia, no entanto, a figura de Augusto dos Santos Abranches, que traz a Moçambique a experiência do Novo Cancioneiro de Coimbra e que divulga, com Fonseca Amaral, autores neo-realistas, da Presença e do Orpheu. Uma verdadeira agitação cultural. Contou-me o Fonseca Amaral que foi o Augusto dos Santos Abranches que levou muitos dos jovens a desenhar, entre eles, o Rui Knopfli. Em 1955, Fonseca Amaral vai para Portugal onde permanece 20 anos. Escreve para a Voz de Moçambique. Traduz. A sua produção própria é, a despeito, avara.

Regressado, nos alvores da independência, trabalha entre o Ministério da Informação ou o Instituto Nacional do Livro e do Disco, em tarefas sempre urgentes e agitadas, num tempo que avulta a falta de quadros, onde é preciso fazer tudo, Amaral também não escreve. No entanto, aquela poesia que fora, para muitos da sua geração ou anterior, inspiradora do que viria a ser a nova poesia produzida em Moçambique, parece-lhe, a esta altura – aquando da nossa entrevista -, datada, não lhe apetece reuni-la, nem editá-la. Insisto com ele: “Fonseca Amaral, eu quero lembrar-lhe isto que você sabe melhor do que eu: os seus textos, mesmo datados, revestem-se de importância histórica e documental. As gerações presentes não têm à disposição a sua poesia em livro.” Ao que ele irá retorquir-me: “Nelson, eu sempre fui um homem de produção muito escassa. Os poemas, alguns, são dolorosos; doem muito. Para já não quero sofrer. Os poemas custam-me muito. Não é o acto, a caneta, o papel e a máquina. Doem muito. E agora devo fugir à dor. Sofri muito.”

Vi, nesta confissão, um homem sincero e honesto. E não quis escavar mais a sua dor. Porém, ainda quis saber se ele escrevia. Disse-me que sim, às vezes, por catarse: “Para me equilibrar. Não tem interesse. São coisas muito pessoais. Tem que ver com a vida afectiva.” Divergimos, então, do tema que lhe doía, falamos dos extenuantes 5 anos que vivera em Moçambique no pós-independência, das suas frustrações, do seu esgotamento, do regresso a Portugal, onde a mulher tinha uma carreira que lhe garantiria a reforma. Foi muito amável e senti que tinha sido muito franco ao lembrar as suas memórias da sua já longa trajectória. Recordo com saudade aquele encontro e há dias descobri as fotografias que o documentam. Vimo-nos mais tarde, em finais de 1992, na casa do Rui Knopfli, na companhia da Noémia de Sousa, do Eugénio Lisboa e do Eduardo Pitta. Foi pouco tempo antes de ele falecer, em Janeiro de 1993.

A Imprensa Nacional-Casa da Moeda, em Portugal, fez editar a reunião da sua escassa produção poética. Rui Knopfli, a quem incumbia a tarefa de organizar o magro espólio, morreria no Natal de 1997, tendo deixado a cargo da INCM os papeis por organizar e antes de redigir o prefácio combinado. Coube tal tarefa a Eugénio Lisboa. Diz o ensaísta com algum vinagre: “Que Fonseca Amaral teve, sobre um grupo de jovens moçambicanos (Noémia de Sousa, Rui Guerra, Rui Guedes da Silva, Rui Nogar, José Craveirinha, António Bronze – pintor – e o próprio Knopfli), uma fecunda e duradoura influência, não é matéria de dúvida. Nenhum deles, suponho eu, o negaria e vários de entre eles o têm repetidamente confirmado. Que tal influência não está à proporção nem da quantidade nem da qualidade da obra produzida (a qual existe, mas, a nosso ver, não o torna, como pretendia Knopfli, “um dos nomes mais altos e representativos da Poesia em Moçambique”) fica também, quanto a nós, fora de qualquer dúvida.” Numa passagem mais adiante, onde também narra os tempos em que foram vizinhos, “no extremo limite da cidade branca”, Lisboa afirma: “Gostava de falar com o Fonseca Amaral, mas devo confessar que, embora reconhecendo-lhe competências na área literária, me sentia singularmente imune às suas seduções. Em primeiro lugar, desconfiava (sem razão, digo-o agora...) de uma personagem que tão frontalmente rejeitava (com desprezo mais afectado do que real?) a magia das ciências exactas. Como se podia não ser sensível à beleza pura da álgebra e da geometria euclideana? Que estranha “falha” existiria naquela organização humana, que assim a tornava impenetrável a uma exigente e pura área de conquistas e promessas que a mim me fascinava? Se quisesse ser sincero – mesmo sem pretender ferir – haveria de confessar que uma tal assintonia com as matemáticas me tornava suspeita a qualidade mesma dos seus juízos literários...”

Não concordo de todo com o Eugénio Lisboa. Creio que neste depoimento se percebe que aquela desconfiança não fazia sentido, de que o próprio Lisboa faz contrição. Não me parece que um bom poeta, um grande poeta até, tenha que ter uma sintonia com as ciências exactas. Creio aliás que a poesia, a grande poesia, vem de outras ordens, de outras sintonias. Provavelmente, o Fonseca Amaral não é um poeta soberbo, não o foi porque a isso não se quis dedicar ou não teve estro para tal, mas não foi a sua assintonia com as matemáticas que o impediu de o ser. Contudo, o poeta de “Passagem de nível” (ou de “Exílio” ou de “Karamchand” ou ainda de “L`Après-midi d´un gala-gala”) escreveu, a seu modo, o seu nome nos armoriais da literatura moçambicana. “Ali a nossa Pátria mal nascia”, queria ele e fê-lo bem. Transcrevo, a terminar, um dos seus mais belos poemas, evocativo, quase elegíaco, como foi toda a sua poesia, desta voz, quase sempre ensimesmada, aludindo a uma memória ulcerada, acenando ao mundo e à emoção que nunca o haveriam de o abandonar no seu longo e dolorido “Exílio”:

Fonseca Amaral: “Longe embora cidade paráclica/ a língua se nos cola ao céu da boca/ se vier o olvido. // Banhas-te connosco em águas de desterro/ flutuas sempre por nossa boca/ nas praias da memória. // Nos dias mais soalheiros da diáspora/ és tu quem materna vem dizer “aqui estou” / à emoção que nos habita//. Marulham outras águas aqui/ mas quando as invocamos é Baía do Espírito Santo/ o nome que nos corre à boca. // São lembranças que viajam para ti/ mãe estuante que nos deste o leite e o mel/ hoje por tão longe dissipados.”


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