“É preciso que tenhamos um sistema de arte mais ou menos estabelecido”

“É preciso que tenhamos um sistema de arte mais ou menos estabelecido”

As artes plásticas, em Moçambique, sempre forneceram e ainda fornecem grandes artistas nacionais. Exemplos não faltam: Malangatana, Alberto Chissao, Renata Sadimba ou Naguib. Ainda assim, actualmente, não recebem um investimento que as tornem uma instituição forte, enquanto parte de um sistema artístico mais vasto. Conhecedora da realidade moçambicana, Alda Costa refere-se ao que vai mal e ao que pode ser feito, de modo que o sistema de arte, no país, seja mais ou menos estabelecido.

 

Alda Costa é formada em História, com especialidade na área de Património, Museologia e História de Arte. É, sem dúvidas, uma das pessoas que acredita no poder das manifestações artísticas na construção do Homem e na afirmação da cultura dos povos. Por isso, a estudiosa defende convicta que é preciso que o país tenha um sistema de arte mais ou menos estabelecido, com boas escolas de artes. Nada de outro mundo, até porque, num passado recente, Moçambique teve essas instituições que contribuíram para o surgimento de artistas nacionais de grande qualidade. “Já tivemos períodos altíssimos, com escolas que ainda hoje existem. Estou a falar das escolas das Artes Visuais, de Dança ou de Música. As escolas ainda existem, mas, se calhar, os professores não têm a mesma formação ou têm menos recursos: instalações com oficinas menos adequadas ou bibliotecas com menos capacidade do que aquela que já tiveram, em alguns casos”.

Segundo observa Alda Costa, actualmente, o país tem formação de nível superior em artes ainda muito embrionária. Por isso sugere a necessidade de se acarinhar a UEM, a UP ou o IsArc, no que à formação em artes diz respeito. “Nós temos de ter museus mais fortes e não estou a falar apenas do espaço público, estou a falar dos bancos, das empresas, esses também são agentes culturais”.

Olhando para trás, a estudiosa lembra que o Estado moçambicano que nasce depois da independência, desde o princípio, preocupou-se com a educação, “e eu trabalhei nesta área durante algum tempo. Vi preocupações na área de Educação Estética, que foi muito forte, quer ao nível das escolas, quer ao nível de formações mais especializadas. Acho que muito do que foi semeado não se desenvolveu, talvez por falta de recursos”.

O desenvolvimento das iniciativas que no passado deram certo no país, para Alda Costa, deve incluir uma atenção nas crianças. E argumenta: “Enquanto não tivermos crianças que tenham contacto com expressões artísticas, que visitam exposições de artistas, museus e galerias, nós não vamos ter público. Se não criamos público, não teremos interesse, por exemplo, de coleccionadores de arte. Fica um circuito que não é saudável porque faltam muitas pedras importantes neste jogo”. E sublinha: “A arte é o centro de nós, como humanos. É fundamental que cada um de nós tenha essa possibilidade de se desenvolver, enquanto criança, de ser emocionalmente desperto, de apreciar e poder escolher…”. Afinal, “que cidadão é esse que estamos a formar, que só sabe de Matemática ou de engenharia? Onde está aquilo que nos completa como seres humanos?”. O leitor, certamente, sabe.

Outro aspecto que Alda Costa realça, tem que ver com a luta dos artistas, que estão sozinhos. “Tem sido interessante ver que desde os anos 90 têm criado as suas associações, mas não chega”.

Apesar da fragilidade do país no sector das artes enquanto sistema, apesar das dificuldades relacionadas aos espaços como galerias, Alda Costa defende que, no sector das artes plásticas, Moçambique continua com artistas de grande qualidade, os quais alguns não vêm da escola, são autodidatas, “e estes artistas têm maior ou menor exposição naquilo que é a arte a nível global. Eu acho que estamos num bom caminho, do ponto de vista das possibilidades e das potencialidades, mas falta claramente que nós tenhamos atenção àquilo que no sistema de arte escasseia. Nunca é demais insistir na educação, desde muito cedo, e na formação profissional, no domínio das artes. Não estou a dizer para voltarmos ao modelo que tínhamos, estou a dizer para encontrarmos um modelo mais adequado”. Nisso, Alda Costa envolve o Estado porque o direito à educação e à cultura é constitucional. Então, de que maneira é que o Estado se associa, faz parcerias, sugere e cria uma série de possibilidades para que nós tenhamos nas artes plásticas um ambiente mais adequado para o seu desenvolvimento? Parece-me necessário reflectir sobre isso, inclusive porque as nossas Casas Culturais já nem estão a funcionar como antes”.

Por fim, para que as artes plásticas continuem num bom nível, Alda Costa sugere que se invistam em mais duas escolas de Artes Visuais em outras zonas do país, projecto antigo, que nunca sai do papel. De igual modo, é apologista da criação de exposições itinerantes. “Já fizemos isso, num tempo de outras carências, mas agora se perdeu. Temos de dar possibilidades às pessoas delas se desenvolverem. Se não conseguirmos fazer isso de forma específica, o sistema de ensino tem de fazer, porque não basta só aprender a ler e a contar, as artes também são fundamentais”.

 


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