E se a homilia do Papa tivesse sido antes da bolada?

Passaram-se três dias após a visita apostólica do Papa Francisco a Moçambique. As bandeirolas nas ruas de Maputo, a azáfama causada por crentes e curiosos que se colocaram nas ruas por onde passara o Sumo Pontífice e o ambiente de festa e segurança esfumavam-se. Naquela manhã de segunda-feira, a cidade recuperava a sua normalidade, para alegria dos que tinham achado aquilo tudo uma palhaçada com milhares de palhaços. Infelizmente a intolerância religiosa sempre será uma causa de conflitos.

O acto de comunicar requer muita paciência. A distância que separa o ouvir uma coisa e escutá-la assemelha-se à mesma que se precisa percorrer numa viagem entre a terra e a lua. Muitas vezes o som que dribla os canais visíveis e invisíveis da comunicação abandona a tua boca com toda tenacidade e atravessa os meus ouvidos, mas não alcança a minha mente. A mensagem dispersa-se ao longo da viagem e nunca chega a produzir os efeitos desejados. Ninguém é imune a este imbróglio, até o Papa.

Enquanto estacionava o carro na garagem do edifício do ministério onde trabalhava, o Indivíduo X não conseguia parar de tremer. Tudo tinha que ver com a discussão que se passava na sua cabeça. Milhares de vozes o assombravam. A garagem ficava no subterrâneo do edifício. Embora houvesse muitos carros naquele espaço, a escassa luz dava-lhe um ar sombrio.

De repente, o Indivíduo X ouviu uma bofetada estrondosa. Pisou no travão e o carro parou. Bateste a parede, disse-lhe uma das vozes. Ele cobriu a cara com as mãos como quem se recusava a ver a borrada que fizera. A borrada está feita, disse-lhe outra voz. Deixem-me em paz, gritou ele enquanto batia no volante do carro. Como se as vozes lhe tivessem escutado, tudo ficou em silêncio. Ele recuperou o controlo dos acontecimentos e disse para si mesmo enquanto passava a mão na cabeça calva, estás a ficar maluco broh!

O estrondo que há instantes visitara os ouvidos do Indivíduo X tinha vida própria, era muito diferente daquelas vozes que lhe coçavam a consciência com garras afiadas. O epicentro dele era palpável, por isso qualquer pessoa que ali estivesse também seria assaltado pelo mesmo som. E assim foi. O segurança que tinha sido escalado para guarnecer a garagem ouviu o som e se dirigiu imediatamente ao lugar onde se tinha dado o impacto.

O segurança, magro e alto, identificou o Range Rover que tinha batido a parede da garagem numa marcha de retaguarda.  «Boisse, está tudo bem?», perguntou o segurança enquanto se aproximava do carro.

No interior da viatura, o Indivíduo X continuava a esconder a cara com as mãos trémulas. O homem estava mesmo a passar por um mau bocado. Na cabeça tudo girava, não conseguia ouvir mais nada senão aquelas vozes que nem existiam. «Precisa de ajuda, boisse?», voltou a perguntar o segurança enquanto socava o vidro do carro.

Quando ouviu o vidro a ser socado por um jovem negro que trazia um uniforme azul e uma arma, o indivíduo X deu-se conta que tinha chamado a atenção do segurança e disfarçou o mal-estar. Ajustou a gravata, fechou o botão do casaco, puxou a chave com força, sacudiu-a e a guardou, pegou a pasta de mão e desceu do carro.  O Indivíduo X saiu do local do crime e disse ao segurança, sem lhe olhar a cara, «Bati a parede, nada de mais. Está tudo bem…».

O escritório do Indivíduo X ficava no segundo piso, mas preferiu ouvir uma das vozes que o incomodavam e foi ao terceiro piso resolver os pendentes com o Indivíduo Z. «Excelência, aquela bolada com os libaneses não vai acontecer», disparou ele logo que entrou na sala do chefe. «Podes me dizer a propósito de quê?». «Excelência, nós estávamos lá quando o Papa disse aquilo… Não vale a pena, Moçambique não merece isso…».

Uma bofetada de novo. Desta vez o Indivíduo X não está de pé na sala do chefe, mas deitado a suar sangue numa cama pequena na cela 33. Uma voz lhe acordava daquele sonho sofrido e perguntava «E se a homilia do Papa tivesse sido antes da bolada?».

 

 


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