Eduardo White – O tradutor de inquietações

Eduardo White – O tradutor de inquietações

Todas as manhãs tudo se repete.

O poeta Eduardo White se despede de mim

à porta de casa, 

agradece-me o esforço que é mantê-lo

alimentado, vestido e bebido

(ele sem mover palha)

me lembra o pão que devo trazer,

os rebuçados para prendar o Sandro,

o sorriso luzidio e feliz para a Olga,

e alguma disposição da que me reste

para os amigos que, mais logo,

possam eventualmente aparecer.

(...)

O poeta, visto-o depois

e é com ele que amo

escrevo versos

e faço filhos.

 

Eduardo White

 

1.

 

Leio esta noite, de 21 de Novembro, Eduardo White. Ele é, indubitavelmente, o maior poeta da minha geração, e um dos mais intensos e belos e luminosos poetas moçambicanos de sempre. Escreveu sempre sobre o amor. O corpo da mulher, a nave da sua permanente viagem. Cito-o de novo: “Felizes os homens/ que cantam o amor./A eles a vontade do inexplicável/ e a forma dúbia dos oceanos.” Estes quatro versos definem muito, ou mesmo tudo, da poesia de Eduardo White, um homem que amava a felicidade de ser poeta, amava o ofício, assumia sem pudor o amor à mulher, à poesia, às palavras. À felicidade de amar o corpo da mulher: “Teu corpo é uma casa feliz”. Creio que este tema, recorrente na poesia do Eduardo, mas também na de outros poetas seus contemporâneos, tem muito que ver com a necessidade incontornável de fugir de um quotidiano opressivo, obsidiante, violento, de guerra, de desencanto e desespero. Era, por assim dizer, uma forma de resistência. O amor em vez do desespero. Lembram-se dos anos 80? Como se verá mais tarde, ao longo do seu excurso de trinta anos, a poesia do Eduardo White irá denunciar um crescente desencanto. A Pátria doía-lhe e condoía-lhe. Ele abominava a mediocridade, não se cansava de a cauterizar. Inconformado e incompreendido, não deixava de ser o poeta do amor, sempre exaltado, mesmo quando perpassava pelos seus versos uma certa ternura magoada. Foi assim que a sua poesia nasceu, que fez de Eduardo White um tradutor de inquietações, um poeta audaz, na contra-mão do sistema, nos antípodas do establishment. Um rebelde por excelência. Poeta de um apelo extraordinário, de um poder encantatório, de um soberbo imaginário, de um esplendor na língua, que amou e cultuou como poucos entre nós, sempre com os seus temas eletivos: o amor, a mulher, o mar, o Índico, a Ilha de Moçambique, o Oriente. A língua portuguesa. Este foi o seu programa poético, por assim dizer, a sua viagem esplêndida e vasta. Assim foi Eduardo White no seu profundo ecletismo, na sua solidão e na solidariedade, na sua iconoclastia e inconformismo, fiel à sua forma de estar e de ser, na sua exuberância, por vezes irracional, ou provocatoriamente irracional, levando até às últimas consequências o seu ideário poético, sempre transgressor e disruptor daquilo que para muitos seria a ordem. Poeta culto, premonitório, exigente e, sobretudo, um grande esteta, soberbo na sua linguagem caudalosa, que soube sempre ser um magnífico intérprete da complexa moçambicanidade sempre com a sua extraordinária paixão e minuciosa exegese.

 

2.

 

Aqui cito alguns versos, livro a livro, para que o próprio ilumine, com a sua poesia, o que tentei dizer acima:

 

Amar sobre o Índico (1984):

 

“Tu/ doce acre/ linfo possuído que a terra grita./ Amo-te assim/ neste lado do barco”

 

 “Filho que fosse/ a metade justa/ da oferenda”

 

“Deixa que me vista/ com a cor nua da tua fenda”

 

Homoine (1989):

 

“é o pássaro lento do esquecimento”

 

“com a morte explodindo como um tiro”

 

O País de Mim (1989):

 

“Eu já amava e escrevia versos/ nas paredes do útero de minha mãe.”

 

“Assume o amor como um ofício/ onde tens que te esmerar”

 

“Não gosto do pudor de certas palavras.”

 

“Quando morrer/ quero fazê-lo sem rumor algum, / sem ninguém que me chore/ ou a quem doa.”

 

“Diário é também/ o ofício da morte neste país”

 

“Não há enigma maior/ e que nos aflija tanto/ como o da morte.”

 

“Eu prefiro o respeito/ que não é medo nem coragem/ e que é parte de tudo aquilo/ que nós ganhámos/ depois de mortos.”

 

Poemas da Ciência de Voar e da Engenharia de Ser Ave (1992):

 

“Voar é uma dádiva da poesia”

 

“Eu gosto do modo como desarrumam os meus assombros, os meus desesperos ante tanta podridão e também como me alarmam quando quero não admitir cercas coisas. Estou contente, mãe, deste-me a poesia por eternidade embora me doa tanto criá-la, aqui, na pátria da lassidão.”

 

Os Materiais do Amor seguido de O Desafio à Tristeza (1996):

 

“onde igualmente possa chorar a minha trágica fatalidade de poeta”

 

“porque cedo me deram a poesia, essa voz cândida, funda, pela qual empobreço escrevendo versos”

 

“Não há pão para a fome que o amor fabrica, não há perdão.”

 

“Todos os dias enlouqueço de uma loucura qualquer, de qualquer sentido doente que sobre o meu sangue se curva. Todos os dias tenho perguntas para tudo e não tenho respostas nenhumas e a minha mente, que é carnal de medo e memória sem propósito, não descansa”

 

“A vida que é um suposto mal-entendido como, aliás, eu próprio.”

 

“Estou cansado de trazer este peso comigo, este abismo para onde me atiro.”

 

“Por isso é que deixei que os versos me desvanecessem a juventude até onde podiam.”

 

“Por isso é que não há tranquilidade para quem se põe a escrever. E por isso também é que pergunto porque escrevo e que sentido é que terá a escrita dessa maneira que ninguém a lê.”

 

Janela para Oriente (1999):

 

“Escrever é uma razão forte, é uma audácia profunda.”

 

“Para que precisa um poeta de glória quando não pode escrever?”

 

“Não quero outra coisa senão este mistério em que me invento.”

 

“A janela do quarto de onde escrevo é de um esplendor que dá vontade de saltar por ela.”

 

Dormir com Deus e um Navio na Língua (2001):

 

“Vivo intensamente todos os dias esse milagre de não parecer estranho o que se parece estranho em mim, porque posso perguntá-lo, tentar conhecê-lo porque posso traduzi-lo traduzindo-me.”

 

“Doer-me-ia se tivesse que viver exilado dela, morreria se a ela fosse impossível voltar. Tem uma origem divina esta língua quando a pronuncio e me embevece, um bálsamo para o que choro. Preciso dela, pois é tudo o que tenho como ferramenta e como trabalho, como propósito e intuição. Escrevo para que se entenda.”

 

O Manual das Mãos (2004):

 

“Sim, é verdade, e dou-lhes razão porque não é justo que um homem desista de sonhar com o melhor da vida tão-somente pelo facto de que pôs na cabeça que deveria escrever livros e poemas e fosse viver disso.”

 

“Aqui ninguém liga peva à poesia. Nem à poesia e nem a outra coisa nenhuma que cheire a cultura.”

 

“Amor. Um poeta que anda descalço, sobre a língua, tem muitos sonhos na cabeça e não tem cabeça nenhuma.”

 

“Um poeta não é para se perceber, é para sentir-se.”

 

“Alguém perceberá porque usará um poeta, óculos escuros à noite?”

 

“Nos poetas cada palavra tem o seu milagre.”

 

O Homem A Sombra e a Flor e Algumas Cartas do Interior (2004):

 

“Todos os dias me deito mestiço e pardo e acordo mestiço e pardo, feliz porque me sinto bem a sonhar e a viver com isso, sem estigma que me incomode ou revolte, porque jamais me concebi de outra maneira que não fosse esta e nem de outra forma vi o Mundo.”

 

“Deste meu passado orgulhoso de que me levanto e deste algum do meu presente em que sonha e cresce o meu pardo mestiço Eduardo White, moçambicano sem o favor de ninguém, a ser na vida a grande palhota dos palácios das suas cores.”

 

Até Amanhã Coração (2005):

 

“Adeus, coração, adeus. Nunca fui tão grande em todo o significado da minha existência e nobre, como deveria, ao senti-la.”

 

3.

Recordo esta noite um poeta inspirado. Um poeta genial. Um poeta assombrado pela vida e pelo destino do amor. Talvez o único, entre nós – falo dos poetas da minha geração! -, que encarnou a figura do poeta “maldito” e que a assumiu até às últimas consequências. Amou implacavelmente a vida. A morte desde sempre rondou os seus versos. A morte, esse pássaro lento do esquecimento, como ele a designava. Esse ofício. O ofício da morte que nos deixou sem um dos seus mais brilhantes oficiantes. Um prodigioso esteta. Morreu a 24 de Agosto de 2014, em Maputo. Tinha nascido em Quelimane, a 21 de Novembro de 1963. Leio-o esta noite, com júbilo, como sempre. Leio-o no dia dos seus anos. Para que ele não seja deslembrado – essa tarefa inclemente dos prosélitos da pátria e do esquecimento primoroso a que votam os que divergem ou os que simplesmente não levam trela no pensamento ou na criação. Porque a invenção literária é o território da liberdade. É preciso amar-se a liberdade para se ser um poeta. Leio-o como se o acenasse para esse país para onde ele terá emigrado, esse moçambicano sem favor de ninguém, livre e rebelde, genial e exuberante, que foi em vida um absoluto iconoclasta e se chamava Eduardo White.

 

 

 


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