Elogio a Aníbal Aleluia

Aníbal Aleluia: «Da parte paterna, só conheço a genealogia até ao meu bisavô, precisamente Aníbal Aleluia, vindo, segundo me contaram os meus ascendentes, “muito de fora”. Meu avô, Henrique Aníbal Aleluia, e meu pai, Roberto, Roberto, eram naturais de Séui (Inhambane, cidade). Eu nasci na Península de Linga-Linga. Desde o meu bisavô, eu é que quebrei a tradição de construtores barcais.»
 

Henrique Aníbal Aleluia descrevia-me, assim, a sua ascendência. Nascera em Agosto de 1921. Estávamos em Agosto de 1990. Da parte materna registava que a família remontava ao século XVI. Registei esse diálogo para um livro de entrevistas: Os Habitantes da Memória. Naquele dia, como em outras diversas ocasiões em que me atardei a ouvi-lo e a cumpliciar com ele, senti que o tempo que vivera – atravessara dolorosamente o período colonial – deixara marcas vivas e fortes. Também percebi que estava diante de um homem que soubera perseverar. Um homem obstinado. Tinha uma bondade extraordinária. Tinha uma respeitável e caudalosa cultura.

Leitor compulsivo, chegara a ler dez romances por mês quando frequentava a Escola de Professores. Observador atentíssimo da realidade. Os seus escritos nasceriam desse olhar avisado (“os meus contos nascem da observação de factos do quotidiano, um gesto, uma palavra”). Além disso, era um nómada: “calcorreei Moçambique de tal modo que vivi no extremo norte (em Palma), em Angoche (a Leste), a Oeste (Zóbuè e em Espungabera) e aqui no Maputo, que conheço desde 1935” (Aníbal Aleluia).  

Esteve para ser professor indígena (era assim que se designava!), foi enfermeiro, escreveu para jornais, foi escriturário. Palmilhou o país. Tinha um profundo conhecimento do país, eu diria até antropológico. Ainda se matriculou em Direito, contudo as adversidades da vida impediram-no de fazer o curso. Era um homem culto, uma biblioteca ambulante. Falava, com rigor, um português escorreito, culto, sem perder a sua pronúncia de Inhambane. Para além de assinar com nome próprio, Aníbal Aleluia escreveu sob diversos pseudónimos: Roberto Amado, Augusto António e Bin Adam.

Redigi, anos depois, no empolgado lead daquela remota entrevista: “Tinha eu um grande afecto pelo velho Aníbal Aleluia. Tinha igualmente um enorme respeito pela sua trajectória que foi marcada por uma corajosa persistência de um homem que sempre teimou em afirmar a sua dignidade. Era uma lição exemplar a daquele senhor que escondia na sua modéstia uma grande sabedoria porque sabia que não há Faculdade que substitua a vida.”

Não me cansava de ouvi-lo. Tinha uma história de vida exemplar: corajoso, persistente, digno. Escrevera no Itinerário e n'O Brado Africano. Chegou à ficção porque António Caetano Fernandes – uma figura do burgo lourenço-marquino – o informa de que na revista Elo havia quem “asseverasse existir um substracto orgânico que incapacitasse o negro de fazer ficção e a minha recusa é disso prova bastante.” Na época, Aleluia achava a intervenção nos jornais mais adequada ao espírito contestatário que animava a sua geração. A ficção, algo lúdico, não lhe parecia ter essa capacidade reivindicativa, era demasiado “frouxa”. A despeito, esse repto levou-o a escrever um conto. Ainda julgou ser o único. Não o foi. Entre 1955 e 1956 escreveu os contos que iriam constituir Mbelele e outros contos. Os textos permaneceram na gaveta décadas. Publicou-os à beira dos 70 anos. Publicaria ainda O Gajo e os Outros. Estão por editar Contos Avulsos e Contos do Fantástico Litoral.

Tinha um livro a caminho do prelo nos primórdios da década de 60. Retirou-o quando foi preso a 27 de Maio de 1961 pela PIDE, acusado de ser “nacionalista africano”. Diziam que “mancomunava com o Baltazar da Costa a revolta do Norte da Zambézia”, acusavam-no, delirantemente, de se encontrar com o Dr. Banda, do Malawi, atribuíam-lhe filiação ao MUD-Juvenil. Tudo invenções de “bufos do Zóbuè, na sua maioria enfermeiros.” Os contactos que ele tinha: os Democratas. Santa Rita, Soares de Melo, Ricardo Fernandes, Rainho da Silva e Bradeiro de Matos. Ele trabalhava no Foro, praticava para tirar a carta de solicitador.

Aníbal Aleluia: “Eu pertenço ao número dos que não fizeram da detenção crachá nem bandeira e muito menos gazua.”

Do vício da leitura, que lhe vinha da infância, acompanhava o que se escrevia na então emergente literatura moçambicana. Lia José Craveirinha, Noémia de Sousa, Rui Knopfli, Rui Nogar, Ruy Guerra, Fonseca Amaral, Augusto Santos Abranches. Lia Sobral Campos, Alípio Rama, António Só, Irene Gil, Glória de Sant’Anna, Augusto Conrado, Rui de Noronha. Lia sobretudo os poetas. “A prosa era monopolizada por um homem que se orgulhava de ser fascista e cuja temática colidia com os meus pontos de vista.”  

Quando eu era miúdo cultivava a prática de estar com os mais velhos. Gostava de ouvir os precatados. Visitava-os, lia-os e interpelava-os. Atraía-me a memória. Sempre me fascinou a memória. O conhecimento, a experiência, a sabedoria, a sagacidade, a inteligência. Ouvir do aviso dos que nos podiam alertar. Ouvir a história, diversa daquela que estava nos compêndios. Sobretudo num contexto em que o passado era uma espécie de oráculo. Aníbal Aleluia disse-me, naquela remota conversa, que andava às voltas com um romance histórico. Isso aguçou a minha curiosidade. Qual era a ideia central do romance? – quis saber.

Aníbal Aleluia: “Que o nacionalismo (chamemos-lhe antes proto-nacionalismo) brotou no Centro e Norte, antes do Sul. Nunca vi esta tese defendida pelas oficinas de História oficiais. O berço da resistência anti-portuguesa não é Gaza, como se convencionou oficialmente por razões que me parecem tribais, mas Angoche, onde, desde o tempo de Mogossurima, no século XVIII, até ao sultanato de Farley, já no limiar deste século, os sultões cotis, de origem quiloana, opuseram o Crescente à Cruz.”

Para mim foi um dos grandes privilégios da minha vida conviver com Aníbal Aleluia. A amizade partilhada com gente da estirpe da do Aníbal Aleluia. E não estou só. O Marcelo Panguana, num livro recente, Os Peregrinos da Palavra, que recolhe velhas entrevistas, ao falar do Aleluia releva o mesmo tipo de sentimento que eu tenho ao enunciar que “tive a honra de conviver com Aníbal Aleluia”, de quem escutava “palavras sábias.”

Marcelo Panguana: “Detentor duma invejável cultura geral, de extraordinária memória e um profundo domínio da língua portuguesa, adicionados à sua coragem e frontalidade, cedo se transformou numa incontornável referência nos meios literários.”

Revejo-me nas palavras do Marcelo: “Infelizmente somos pouco dados à evocação dos nossos mortos, mesmo quando possuem a grandeza que os diferencia dos simples mortais. E penso que será esta uma das razões pelas quais não somos capazes de aumentar os níveis da nossa moçambicanidade e enriquecer a nossa auto-estima. E o que se torna mais grave é a incapacidade de indicar às novas gerações as referências nacionais que escreveram, a seu modo, a história deste país. Aníbal Aleluia quase que deixou de fazer parte da nossa memória colectiva, tal como acontece com outras figuras que se tornaram célebres. Hoje, pouco se fala do poeta Rui Nogar. Recusamo-nos a reconhecer a importância de um Estêvão Macambaco na história da pintura moçambicana. Como alguém dizia, no nosso país, quando uma figura de destaque morre, morre de vez! De resto, incapazes de homenagear os vivos, como seríamos capazes de idolatrar os mortos?”

Quando, em 1984, surgiu a Charrua, fundada por um grupo de jovens irreverentes – Eduardo White, Armando Artur, Juvenal Bucuane, Ungulani Ba Ka Khosa, Hélder Muteia, Filimone Meigos, Marcelo Panguana, entre outros – Aníbal Aleluia haveria de participar activamente naquele projecto e abraçar o seu ideário. Ali estava ele, no meio daquela juventude: escreveu e publicou imenso na Charrua. O Aníbal tinha a juventude e a irreverência da nossa geração. Atrevo-me a dizer, não obstante, o facto de ele ser oriundo de outras décadas, que Aleluia pertencia à nova geração de escritores moçambicanos. Um outro testemunho, o de Ungulani Ba Ka Khosa, num texto do livro Cartas de Inhaminga, numa fabulosa evocação geracional, na qual honra a escrita do Eduardo White, fala de Aníbal Aleluia.

Ungulani Ba Ka Khosa: “Criámos uma revista, a CHARRUA, lutámos pelos nossos ideais literários, formámos uma malta maravilhosa que estendeu os laços de solidariedade até aos dias de hoje, com respeito às idiossincrasias de cada um: Juvenal Bucuane, Pedro Chissano, Aldino Muianga, Marcelo Panguana, Armando Artur, Hélder Muteia, Filimone Meigos, Tomás Vieira Mário, Ídasse Tembe, Nelson Saúte, Pinto de Abreu, o falecido Aníbal Aleluia, o também falecido amigo Ciprian Kwilimbe, e outros. Foi um período fecundo. A poesia, o lugar dos deuses no nosso panteão. E não foi por acaso que a colecção por nós criada na Associação dos Escritores Moçambicanos, a Colecção Início, teve como obra iniciática o Amar sobre o Índico, do Eduardo White. Em White, como dizíamos, nesses tempos de iniciação, estava o vulcão em permanente actividade. Dele são os versos: E hei-de ser o veneno/ o infame selvagem/ o duro seio das rochas/ e moldar no barro a pele que me acolhe.”

Ba Ka Khosa refere-se a factos de 1984. O Aldino Muianga era o mais velho entre nós e tinha 34 anos. O Juvenal Bucuane e o Marcelo Panguana tinham ambos 33 anos. O Pedro Chissano tinha 28 anos. O Ungulani, 27 anos. O Tomás Vieira Mºario estava com 25 anos, o Filimone 24, o Muteia 24, o Armando, 22, o White 21, o Pinto de Abreu 19 e eu, 17. Estávamos nos antípodas do sistema. Acreditávamos que a literatura era o lugar do questionamento, da indagação, da crítica. Por vezes, muitas vezes, éramos severos em relacção ao establishment. Éramos rebeldes. Aníbal Aleluia tinha 63 anos e estava connosco. Isso foi extraordinário. Pode atestar-se aqui a sua juventude. Nos nossos convívios, entre cerveja, coca-cola e muita zombaria, seja no bar da Cindoca, na cave, ou nos bancos do jardim, da AEMO, divertíamo-nos a caricaturar, afectuosamente, o recorte peculiar do português do nosso Mais Velho Aníbal Aleluia.  

Por vezes, perante aquela transbordante sabedoria, perguntava-lhe se não escreveria memórias. Admitia que sim. Mas também lembrava que a sua vida tinha sido marcada por dificuldades e que talvez “a leitura do meu testemunho acordaria em algumas pessoas recordações amargas.” E disse-me, na sequência disso, uma frase brutal: “Tenho um hábito que atrai empatias incómodas.” Dizia-o magoado, de certo modo, por se sentir incompreendido. Creio que ele morreu com essa mágoa. “Chamar as coisas pelos seus próprios nomes sem chamar nomes às pessoas.” Era isso o que ele dizia e praticava.

Em Fevereiro de 1989, fomos a Lisboa, a um congresso de escritores, ele partilhou comigo muita recordação da sua vida sofrida, das suas memórias magoadas, mas falou sempre com candura dos jovens que escreviam à época e foi gratificante ouvi-lo. Estava encantado com aquela viagem e um dia retornou ao hotel, exultante, depois de ter reencontrado Almeida Santos. No ano seguinte, fui-me embora daqui. Deixei de o ver. Continuei a lê-lo e a recordá-lo. Faleceu a 14 de Maio de 1993. À época redigi, para o Jornal de Letras, onde assentara arraiais, um “Elogio de Aníbal Aleluia”. Texto juvenil e ulcerado, comovido e agradecido. Como estou hoje e sempre.

Tenho-me recordado dele, amiúde. A sua bondade, a sua transbordante sabedoria, a sua cultura e a imensidão do seu carácter. O homem probo e generoso, que me aceitou, entre o fim da minha adolescência e o início da minha idade adulta, como seu igual, como seu par. Recordo-me das nossas intermináveis conversas. E estou grato a essa magnanimidade. A antiga Eduardo Noronha, no bairro da Coop, é agora Rua Aníbal Aleluia. Em tempos frequentei idilicamente aquela rua. Continuo a passar por lá. Ontem, divisando o nome na chapa da rua do meu bom amigo Aníbal Aleluia, inclinei ligeiramente a cabeça, em sua honra, agora que passam 25 anos sobre a sua morte, a quem faço esta humílima vénia aqui nestas páginas.

 


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