Em Moçambique o vento sopra do norte

Finalmente, após o tira-teimas que obrigou a segunda volta da eleição intercalar, um facto inédito em Moçambique, encontrou-se o digno representante dos munícipes de Nampula para dirigir nos próximos 5 meses os destinos da autarquia, nada mais, nada menos que Paulo Vahanle. Até então um ilustre desconhecido na arena política moçambicana, apesar de já ter tido uma passagem pela Assembleia da República na qualidade de deputado da perdiz. Um docente de profissão e com humildade suficiente para não prometer céus e mundos aos munícipes. Estes, que viram suas aspirações goradas por água abaixo após uma infantilidade grosseira do MDM na gestão do caso Amurane, cujas consequências ainda se farão sentir nas próximas eleições autárquicas de 10 de Outubro próximo em todo o país. Mas a nossa análise não é essa, o que queremos alertar é a influência que o norte tem ou que pode ter sobre todo Moçambique.

Foi no norte onde se deu o primeiro tiro no início da luta armada segundo a história e foi por lá onde a guerra civil de 16 anos fez estragos incalculáveis da economia e do tecido social. O presidente da república é de lá, os grandes projectos estão lá e tantas outras coisas que já sabemos. Estes factores deveriam convencer aos sulistas de que Moçambique não é só Maputo e que as atitudes dos nortenhos devem ser replicadas e valorizadas, pois aqueles não toleram teatros e palhaçadas dos dirigentes políticos. Não se baseiam em sentimentalismos, camaradagem e não esquecem o tempo que passou, mas baseiam-se nos resultados que os dirigentes apresentam na gestão da coisa pública e sabem dar a César o que lhe pertence. O nosso espanto é que muitos aventureiros em políticos e analistas pro-governo defendem a tese segundo a qual foi um voto contra o glorioso partido e não pelo manifesto apresentado pelo felizardo Vahanle.

A olho nu, ficou claro de que nenhum dos candidatos apresentou um projecto sério de governação para o município de Nampula, mas devia-se eleger um dentre os melhores para assumir o comando. No nosso entender não havia necessidade de uma eleição intercalar, apesar de se ter evocado o imperativo legal, pois a conjuntura económica e o tempo que restava para o fim do mandato, por si só dispensavam a aplicação da lei às cegas, pois não há regra sem excepção. Entretanto, como a ocasião faz o ladrão, pensaram alguns amadores que aquela seria a oportunidade para assaltarem Nampula.

Devemos dar mérito aos que ganham, nos solidarizar e aconselhar aos que perdem para que treinem mais, até Barcelona de Messi perde. Devem ser humildes e não recorrerem a arrogância, extorsão, corrupção moral, ameaças e falsidade para lograr seus intentos, pois quando não conseguem a frustração é imensurável. Alguns minimizaram a vitória da perdiz e chegaram a aventar a hipótese de que o silêncio da sociedade civil resulta do cumprimento de uma agenda externa, será verdade? Outros tentaram manipular as mentes e aliaram-se a família do edil malogrado, prometendo o ouro sobre azul, mas quando aquele estava vivo não apanhavam sono com sua qualidade e integridade na gestão municipal.

O vento sopra do norte e os resultados de Nampula são um balão de oxigénio para uma democracia que estava a se asfixiar. Os órgãos eleitorais tentaram sem sucesso dificultar o exercício do direito de votar, confundindo os eleitores, atrasando a aberturas das assembleias de voto, visto que os observadores internacionais e nacionais tinham a lição bem estudada. Nesta eleição ganhou Nampula e a democracia e de outro lado perderam os ditos cujos que reclamam que são os únicos que fazem e que sempre fizeram. Então, assumam que fizeram brincadeiras desta vez, para perderem a eleição e aceitem aprender com os erros para vencerem futuras batalhas. Talvez a autoconfiança, o relaxamento de que o jogo está ganho, a desatenção na defesa e participação dos maputenses na campanha de Nampula ditou o triunfo da perdiz.

Pensamos que é tempo dos ambiciosos mudarem de táctica, mesmo quando o adversário tenha sido ganho nos campeonatos anteriores, cada jogo é um jogo. Apesar de o futuro ser incerto ele é previsível, a partir do momento que o MDM e outros partidos direccionaram o voto para a RENAMO ficou claro que os galácticos iriam perder o jogo. Deste modo, não havia necessidade de mobilizar buldozares, grandes engenheiros e empreiteiros para uma obra de 5 meses, pois para problemas locais são aconselháveis soluções locais. As elites políticas têm níveis, desde nacionais, regionais e locais.

Ademais, como é que continuam a usar recursos do Estado, com destaque para viaturas de luxo, funcionários e quadros seniores, inclusive do parlamento para fins domésticos? Concordamos com o dono da expressão o "preto nunca muda". Todavia, o moçambicano já está a mudar porque os ventos da mudança estão a surtir efeito e de algum lugar virão as respostas de tantas perguntas e insatisfações antigas. Apelamos aos partidos históricos e os aspirantes que preparem-se para as mudanças e tenham criatividade e mestria na sua actuação, devendo deixar sempre um legado, obra emblemática mesmo que não sejam eleitos para próximos mandatos. Chega de trabalharem hoje para garantirem trabalho amanhã e fazer carreira na política.

Política é ciência e ciência é invenção dos homens para o benefício dos homens. Apelamos ao povo que dê cartão vermelho aos jogadores e multa aos clubes desses jogadores que fizerem jogo sujo e comprarem resultados, tem de haver fair-play. Por outro lado, que compre camisetas dos melhores jogadores e apoie os clubes que mesmo sem recursos financeiros e jogadores de alto nível mas que fazem um jogo bonito e que agrada os adeptos.

Paulo Vahanle hoyee! Democracia hoyee!

 

 

 


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