Emancipar a Pós-Graduação em Moçambique

Introdução
Naturalmente, em qualquer país que desponta para o mundo, comemorar dez anos de pós-graduação simboliza conquista, busca incessante pelo conhecimento e, obviamente, desenvolvimento. Poderemos não ter a melhor pós-graduação do mundo, todavia  começamos a sua consolidação e, mais importante, será o nosso referencial de desenvolvimento nos próximos anos.

Depois do “boom” nos cursos de graduação, um pouco por todo o país, a Universidade Pedagógica assume-se como um farol e um marco no número de quadros produzido. Esgotaram-se os tempos dos certificados e diplomas de graduação.

Hoje, num mundo em competição e com o surgimento, por exemplo, das Nano Ciências e da Robótica, os desafios da pós-graduação fixam-se no aumento do investimento financeiro, em melhores condições logísticas, na formação de docentes e investigadores, sendo a internacionalização um factor de normalização e de regulação a ter em conta nas prioridades de desenvolvimento traçadas.

Defendo, então, a necessidade de uma pós-graduação emancipada – livre e independente –  que, em poucas palavras, se traduz numa pós-graduação epistemologicamente inclusiva e integradora dos saberes do Sul.

O mundo primitivo do Desconhecimento
Os primeiros seres humanos tiveram sempre uma relação de assombro com os fenómenos naturais e, principalmente, com o Universo. Eramos incapazes de compreender e interpretar, racionalmente, todos os fenómenos que ocorriam ao nosso redor. Por conseguinte, foram criados, ao longo de séculos, um vasto panteão de Deusas e Deuses que explicavam, ou serviam de base para explicar, todos os fenómenos naturais. Estas Deusas e Deuses serviram de argumento para a falta de racionalidade científica, mas era, sobretudo, o conforto e a protecção o que mais importava.

As Deusas e Deuses que ganharam diferentes denominações e designações justificavam, desde as mudanças sazonais com Perséfone, até as subidas e descidas dos mares que eram atribuídas a Poseidon, ou até, a infertilidade causada por Juno. Por conseguinte, estas inúmeras divindades não explicavam, apenas, os fenómenos da natureza, como serviam também para explicar as enfermidades e as doenças com que a humanidade se debatia.

Com o aumento do conhecimento científico as lacunas da compreensão humana foram, gradualmente, sendo preenchidas, na mesma proporção que as divindades foram desaparecendo. São poucas o que resistiram ao tempo e todos eles estão, hoje, associados ao fenómeno de fé.

Actualmente, com uma sociedade intelectualmente evoluída e com níveis tecnológicos excepcionais, não só deixamos de acreditar e depender das divindades, como podemos recriar esses fenómenos.

Persiste a relação científica baseada e produzida no hemisfério norte. Vivemos dependentes da ciência produzida e estruturada nas escolas e correntes de pensamento eurocêntricas. É, por outras palavras, uma relação colonial com a própria ciência. Não nos emancipamos cientificamente. Persiste a falta de cultura científica e encontramos justificação para os fenómenos que acontecem ao nosso redor em mitos e crenças.

As Epistemologias do Sul
Diferentes cientistas começam a questionar esta relação norte-sul e apelam para que se aposte num conhecimento intrínseco e que explique e redescubra os fenómenos locais. Maria Paula Meneses escreve, a propósito desta relação, “A constituição mútua do Norte e do Sul e a natureza hierárquica das relações Norte-Sul permanecem cativas da persistência das relações capitalistas e imperiais. No Norte global, os ‘outros’ saberes, para além da ciência e da técnica, têm sido produzidos como não existentes e, por isso, radicalmente excluídos da racionalidade moderna. A relação colonial de exploração e dominação persiste nos dias de hoje, sendo talvez o eixo da colonização epistémica o mais difícil de criticar abertamente. ... Esta hierarquização de saberes, juntamente com a hierarquia de sistemas económicos e políticos, assim como com a predominância de culturas de raiz eurocêntrica, tem sido apelidada por vários investigadores de ‘colonialidade do poder´.”

As epistemologias do Sul seriam a minha proposta de argumentos para que este debate integrasse a agenda das  instituições de Ensino Superior em Moçambique. Precisaremos  de ter consciência e assumir a nossa dependência  em  relação ao poder  hegemónico e científico do Norte. Deste modo, reequilibrar os saberes e encontrar racionalidade para vários fenómenos sociais e culturais dos nossos países e povos, começa a ser uma tarefa urgente e obrigatória.

Como explicaremos, epistemologicamente, um crescente número de fenómenos que ainda grassam no campo e, por vezes, nas cidades e que ultrapassam, largamente, a normalidade?

Os Desafios de Pós-Graduação em Moçambique
Os desafios da pós-graduação passam por prestar mais atenção a autonomia epistemológica - produzir conhecimento comprometido com a realidade de Moçambique.

Produzir ciência e tecnologia com os olhos voltados para o Sul e, não somente, para o Norte. A inspiração para a pós-graduação não deveria ser apenas para os centros internacionais de conhecimento localizados em contextos distantes da própria realidade africana.

Com certeza, o intercâmbio internacional e a produção científica produzida no eixo Norte têm muito a contribuir e, ao vislumbrá-los, compreenderemos o tanto que, ainda, podemos avançar.

Mas o mundo é muito maior do que o Norte. Há beleza, conhecimento, tecnologia, sabedoria no Sul, onde se encontram, por exemplo, África, Ásia e América Latina. São conhecimentos ancestrais e cristalizados pelas guerras civis, conflitos e colonialismo ou agora pelo Neo-liberalismo.

Temos o dever de olhar para dentro, para as nossas comunidades, a nossas universidades devem fazer eclodir um diálogo epistemológico que valorize os conhecimentos que produzimos. Compreender o quanto nos falta de investimento interno para fazer desabrochá-los, bem como, reconhecer os sujeitos que os produzem e o potencial de ciência e tecnologia que temos em Moçambique. Isso poderá ajudar a repensar a formação de quadros, repensar as áreas que mais necessitam de investimento, os critérios para a internacionalização.

A internacionalização, a troca científica entre Moçambique e restantes países parceiros só atingirá um carácter emancipatório se não negarmos os conhecimentos produzidos pelo próprio país e potencializamos o nosso desenvolvimento científico e tecnológico interno.

Epistemologias do Sul como Conceito e Prática
Nas últimas décadas, diferentes cientistas apresentaram o conceito “etnos”. Ubiratan d’Ambrosio e até o Etnomatemático Paulus Gerdes sempre lutaram por uma ciência emancipar e de raiz culturalmente forte. Boaventura de Sousa Santos, igualmente, propôs o conceito de “Epistemologias do Sul”. Essas intervenções poderão ser um aporte importante para nos fazer avançar na compreensão da pós-graduação em Moçambique no contexto da ciência. Por meio das Epistemologias do Sul podemos compreender como a constituição conjunta do Norte e do Sul marcada, historicamente, por relações coloniais de poder e hierarquia continuam perdurando até hoje e são retroalimentadas pelas relações capitalistas.

O conceito ajuda a compreender como no Norte Global, os “outros” saberes, que não fazem partem do que, historicamente, foi construído como ciência e técnica tem sido produzidos, activamente, como inexistentes e, por isso, foram excluídos da racionalidade moderna. Há um processo histórico de dominação e exclusão que hierarquiza saberes, práticas e os sujeitos que os produzem.

Trata-se de um processo complexo que também envolve a economia, a política, a cultura. Ao olhar para Moçambique podemos perguntar:
1.Vivemos ainda sob a égide da colonização epistêmica na nossa pós-graduação?

2.Ou avançamos para práticas epistemológicas mais emancipatórias e que nos valorizem?

Mas há alternativas a construir. Entendendo que o eixo Sul do mundo é responsável por uma rica produção de conhecimento, transformada intencionalmente em ausência no contexto das relações de poder e dominação, porém, podemos nos desafiar a olhar com outros olhos para o lugar de Moçambique, no contexto africano, e internacional, da ciência e tecnologia e construir um novo lugar para a nossa pós-graduação. Um lugar que nos retire da periferia em relação a ciência e indague a relação centro- periferia, Norte/Sul, à luz das Epistemologias do Sul.

Ser periferia é, também, uma posição política atribuída de fora para dentro. Mais do que pensar, perifericamente, em relação a um determinado centro, é importante discutir por que ocupamos esse lugar no mundo, quem nos atribuiu esse lugar, por quê e o que perdemos e o que ganhamos com essa situação. E ainda como sair dela. Não nos orgulha ser a imagem e semelhança do Norte, prestigia sim construir e posicionar a nossa academia no eixo Sul, com o entendimento crítico que nos podemos conduzir as Epistemologias do Sul. As Epistemologias do Sul poderão ajudar a focar onde temos que nos posicionar no mundo para que nossos conhecimentos, riquezas minerais, forma de produzir alimentos, comunicação vertical e horizontal, ancestralidade e relação com África e diáspora sejam reconhecidos, valorizados, potencializados e fonte de mais investimento.

As Epistemologias do Sul mostram que existe uma constelação de saberes produzidos no Sul e que nem sempre são considerados, enquanto, tais pelo padrão hegemónico da ciência ocidental. Olhar a pós-graduação em Moçambique com essas lentes significa um olhar emancipatório sobre nós mesmos. Que reconheça nossas riquezas e esforços. Que saiba dos nossos limites e construa políticas e estratégias para superá-los. Mas que sempre nos valorize como país rico em cultura e conhecimento.

Temos o desafio de as nossas universidades e a pós-graduação construírem os seus currículos na perspectiva das Epistemologias do Sul. O facto de vivermos em Moçambique e em África nos coloca no Sul. Um Sul geográfico e político. Fazemos parte dos países do hemisfério Sul que, politicamente, lutam para se estabelecer como nação autónoma e democrática no contexto das recentes formas de dominação capitalista e neoliberal, as quais são reedições da actual dominação colonial.

Essa localização geopolítica não deveria ser vista como algo negativo.
Se soubermos lidar com a nossa História de forma positiva, valorizando o nosso processo de libertação colonial, de construção da paz e, os desafios de nos efectivar uma democracia mais consolidada, poderemos tirar vários exemplos que nos direccionem rumo à emancipação social, política, cultural, social e epistemológica necessária. E essa emancipação epistemológica poderá estar na compreensão de que Moçambique possui todas as condições para colocar em prática as Epistemologias do Sul no campo do conhecimento.

E esse é um papel da Universidade. Moçambique possui uma diversidade e riqueza cultural incríveis, diferentes línguas nacionais, tradições, costumes que são a base da nossa forma de viver, por mais que estejamos inseridos no mundo globalizado. Apesar da desigualdade socioeconómica e regional que lutamos para superar, temos técnicas agrícolas milenares ainda sendo desenvolvidas que, em diálogo com os referenciais modernos de plantio e de colheita poderiam dar espaço ao surgimento de algo novo.

Esse processo violento, muitas vezes, é internalizado pelas suas próprias vítimas e o cidadão e a cidadã comuns acabam por desvalorizar os ricos conhecimentos ancestrais dos quais são herdeiros e que orientam a sua vida, a relação com a natureza e com a cultura. Mesmo aqueles que ocupam lugares de destaque na sociedade, possuem melhor poder aquisitivo e as lideranças políticas, de forma global, no seu quotidiano familiar, na criação dos filhos, quando saem para o exterior em missão de trabalho ou, de a estudo e, até mesmo aqueles moçambicanos que residem em outros países, guardam em si saberes, práticas, visões de mundo, línguas locais que aprenderam na sua comunidade, possuem um pertencimento étnico que os vincula com Moçambique, o seu contexto local e a sua cultura.

Essa pluralidade de experiência, de jeito de ser na vida e na sociedade, congrega uma riqueza de produção de conhecimentos. Compreender esses conhecimentos e, inclusive, admitir que eles podem ajudar a indagar o próprio conhecimento científico, principalmente quando este se distancia do povo e da vida, seria um interessante caminho para a Universidade na perspectiva das Epistemologias do Sul. Conhecer a sabedoria dos anciãos, das pessoas comuns, das comunidades de onde vêm os nossos estudantes, entender que no interior há riquezas de práticas e de conhecimentos tanto quanto na capital poderá também nos aproximar dessa perspectiva.

Conclusão
O grande desafio é como transformar os currículos das nossas universidades. Entender que a Universidade vista como lócus do conhecimento científico deveria ser, também, uma habitação digna para as outras formas de conhecimentos com válidos, implica em primeiro lugar reconhecer, valorizar e compreender os sujeitos que os produzem.
Interagir e não as separar. Socializar e não guardar para si. Democratizar e não privatizar.

Reconhecer a pluralidade de saberes ao invés de primar por uma monocultura de saberes. São alguns princípios fortes que nos desafiam se queremos mudar os currículos e as práticas epistemológicas e políticas das universidades e da pós-graduação. Mas para isso, há que se realizar um processo complexo e necessário: descolonizar o conhecimento e o currículo. Só assim, teremos abertura para iniciar a transformação necessária que poderá nos levar rumo na Pós-Graduação emancipada.

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