Enquanto há vida, há esperança… Sambo

Enquanto há vida, há esperança… Sambo

Escrevia um jornalista senegalês, especialista em basquetebol, que nunca os seus olhos haviam sido maravilhados por uma jogadora de estatura tão imprópria para o basquetebol, como a que na altura era a base da nossa selecção nacional: o seu nome? Esperança Sambo.

Estava-se a uns segundos do fim do Moçambique-Senegal, no Cairo, em 1991. Moçambique vencia por oito pontos, na partida que daria o destino ao ouro feminino. As senegalesas fizeram um último “pressing”, mas nossas basquetistas trocavam a bola, “queimando” os 30 segundos, mas sempre tendo como placa giratória a melhor base de sempre no nosso país.

As senegalesas eram mais possantes e sabiam que na bola-ao-cesto, enquanto há vida, há esperança. Só que a nossa Esperança, a esconder a bola, a ditar ritmos e a funcionar com a precisão de um relógio suíço, tinha um apelido: Sambo! Um regalo!

O OURO É NOSSO
Ernesto Júnior, então atleta e treinador, nas bancadas, a poucos minutos do fim do jogo, não tinha esperanças, mas sim certezas. Solicitou um abraço e confidenciou ao jornalista: “Já podes mandar o teu trabalho para a terra. O ouro é nosso”.

E foi nosso, de facto, numa noite mágica em que conquistámos aquela que é, até hoje, a única medalha de ouro colectiva em Jogos Africanos para o nosso país.

As senegalesas não foram ao Cairo brincar. Mas Cezerilo e as suas atletas também não. O nosso adversário sabia que era “papão” em África, mas respeitava a extraordinária selecção moçambicana.

A classe das senegalesas propiciou uma das mais loucas noites de festa do desporto moçambicano além-fronteiras, que só nos permitiu respirar e festejar após o apito final.

A LOUCA NOITE DE ALEXANDRIA
Esperança e Aurélia, cada uma ao seu estilo, eram as armas principais. Joaquina Balói, a reserva moral, entrava para dar descanso às mais influentes e, ao mesmo tempo, para colocar alguma ordem em momentos de descontrolo.

Ao intervalo, o resultado estava a nosso favor, por oito pontos, margem que acabou por ser a diferença final. Na segunda parte, a prioridade foi gerir, com sacrifício e entrega, a vantagem face a uma equipa muito tarimbada e com uma média de altura e peso bem superior à nossa.

As instruções dos senegaleses passavam por anular a influência da base moçambicana como uma das prioridades para vencer o jogo e, consequentemente, a competição. Mas, afinal, quem tinha Esperança, tinha tudo.

Garra, voz de comando e técnica para desequilibrar a todo o momento. Jogou e fez jogar. No final, já com o ouro ao peito, veio uma homenagem: os cumprimentos da jogadora/base adversária, que após ter sido completamente anulada com muita lealdade, reconheceu que aquela “txote” possuía um basquetebol gigante.
E quando soou o apito final, choveram abraços, beijos e… lágrimas. Marcelino dos Santos, então presidente da AR, fez “sair da cartola” umas garrafas de champanhe para um brinde em terra de abstémios. Foi uma jornada louca, louca, louca.

RAINHA NA TÉCNICA E NO… XIVITE!
A “esconder” a bola, a marcar o ritmo, incentivando e galvanizando as colegas dentro do campo, nunca encontrou paralelismo no país. Essas são algumas razões que ditaram a distinção, nos seus tempos áureos, de melhor basquetebolista do continente na sua posição predilecta: base!

Esperança Sambo, que mesmo trabalhando muito para se manter em forma não tinha a aparência de uma atleta, muito menos de uma basquetebolista, destacou-se tanto ao serviço do Maxaquene - com quem foi campeã de África - como pela selecção nacional.

DECISIVA FACE À PRESSÃO
Em jornadas de grande pressão, muita coisa dependia da sua inspiração e, porque não, das suas “ordens” em campo. A cada minuto e a cada segundo, consoante as variantes a adoptar pela equipa e as orientações do treinador, era vê-la a controlar o marcador e a acção das colegas, para as opções mais aconselháveis a cada momento.
Pelo seu “peso específico”, pela segurança com que impunha o ritmo, era ela quem insuflava e caracterizava o que o mestre Cezerilo recomendava lá para dentro: xivite, xivite, xivite (trabalho).

Sem favor, Esperança terá sempre um lugar na galeria das melhores atletas de sempre do país e das melhores do continente no seu tempo.

 

 


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