Essa coisa de morarmos juntos

Não faz muito tempo em que eu e a Lolita decidimos morar juntos. Decidimos ou decidi? Sei lá! A verdade é que moramos juntos. Há uma sensação que hoje tenho desse “morar juntos que me é, em todos casos, algo diferente de tudo que uma vez pensei que fosse, por vezes, até parece que já vivíamos juntos há séculos, nas outras é como se acabássemos de nos conhecer. Esse “morar juntos” desenvolveu em nós, e nós continuamos a desenvolver, uma espécie de uma terceira entidade entre nós dois, uma entidade com certa petulância e autonomia própria de um ser, porém, um ser extremamente dependente de nós dois, que me leva a pensar nele como se de uma outra e terceira pessoa fosse.

Uma vez, numa dessas conversas em que as pessoas querem saber mais do que lhes é permitido, alguém me perguntava se eu era casado pelo que lhe disse que não, porém, que vivia maritalmente pela terceira vez, houve aquele alarido e pompa de admiração dado a minha idade que, na visão destes, é incompatível a três experiências. Quando o interlocutor exteriorizou o que todos que fazem esta estirpe de pergunta querem saber eu vi-me no legítimo direito de não responder com todo entusiasmo e atenção que a pergunta exigia, mas lembro de ter dito que estava à procura de mim, e que nas duas relações não me havia encontrado. Uma resposta que obrigou a ter de explicar o que é isso de auto-procura, depois de explanar veio aquela fatídica conclusão de todos interlocutores (a maioria moralista), com intenção fugaz e imprópria para pessoas como eu que dizem que o relacionamento é ter “paciência e coragem."

Para mim essa é uma opção errada. Não se pode decidir ficar num relacionamento por paciência e muito menos pela coragem, isso obriga as pessoas a viver um relacionamento de merda, um relacionamento, literalmente falando, como o que se tem com o padeiro, com os vizinhos, com o moço que arranjava o meu celular no Estrela, que agora não sei onde encontra-lo, com o jovem que vende recargas na esquina, ou mesmo com o guarda, e não digo que deve ser por amor, porque isso é demasiado óbvio, é uma necessidade básica ter esse sentimento como fundamento, porém, para mim, entre duas pessoas devem haver uma criação, uma outra e terceira entidade que precisa e depende simplesmente dos dois. Juro que eu hoje preocupo-me mais com essa entidade que criamos juntos que com a minha própria parceira em si e muito menos comigo próprio, porque cuidar dessa entidade é, em todos casos, cuidar de nós mesmos. Eu sou protagonista da minha vida e, felizmente minha parceira também o é, por isso preocupamo-nos com essa terceira entidade que surgiu dessa comunhão. 

Essa terceira entidade tem regras, hábitos e costumes que nos mesmos o ensinamos e ele apropriou-se, come e faz bagunça, é preciso sempre que um de nós esteja de olhos, senão já era, por vezes adoece, apanha umas febres ali, outra constipação acolá, torce o joelho, mas sempre corremos à farmácia, ali perto de casa, para convalesce-lo. E fazemos isso iriados de uma enorme felicidade, porque essa entidade é nossa alegria. Que dá trabalho, dá!, mas é mais prazeroso que trabalhoso velar por ela, por isso, nunca precisamos de coragem e muito menos paciência, apenas prazer, se um dia nos aborrecer o suficiente ao ponto de precisarmos de possuir paciência e coragem julgo que nenhum de nós dois terá brio suficiente para tal.

Hoje mesmo, a entidade que vos falo está adoecida, com umas febres que apanhou algures quando saiu à rua, só esperamos, eu e Lolita, que não seja corona, e se for não seguiremos nenhuma recomendação médica, também porque a OMS tem-se mostrado extremamente incoerente relativo a essa pandemia, aplicaremos os nossos próprios cuidados, tipicamente africanos, como bafo com folhas de eucalipto e chambalacates e outras ervas e prontos, e se não recuperar prontos, sucumbiu, não era para ser, ou seja, nunca deixemos que os métodos alheios intercedam para manter essa entidade saudável, não há receitas universais para tal.

Se leu até aqui, caro leitor, julgo que é sensato responder-lhe a essa questão que lhe não para de atazanar a cabeça, que na verdade já respondi, mas tudo bem, - Sim! Somos felizes!, pelo menos eu o sou, sou muito feliz cuidado dessa entidade, nunca se sabe o que pode estar a pensar uma mulher, porém,  julgo que a Lolita também o é, porque o carácter dela não lhe permitiria viver aparentemente uma vida fria, tenho a visto empenhada a trocar as fraldas, dar bebero, banho e papinhas. O bafo de eucalipto que vos falei, por exemplo, ela é quem irá preparar, ou seja, somos que nem um casal com um filho, porém o nosso é essa coisa que criamos que sobrevive de cada um de nós dois.

Ora, veja só o quão engraçado é isto, quando estou fora de casa, comporto-me como quem deixou um bebé, e quando chego à casa, e se por a caso não encontro a Lolita, é como se o bebé ali não estivesse, e esse bebe não é ela. Juro por tudo isso que, mesmo se eu fosse um agente de polícia com arma em casa, quaisquer aborrecimentos não obrigariam a atirar contra as nossas vidas, quem cuidaria dessa entidade?  E esse isolamento social foi a prova inequívoca para medir o quão prazer sentimos cuidado dessa essa terceira entidade.

Então, eu não sei se há aqui algum segredo que lhe possa ajudar, caro leitor, porque na verdade nós não vivemos o que provavelmente você vive, como é de todo seu conhecimento, nós não estamos casados e isso não nos preocupa, nem as pessoas ao nosso redor, porque elas dependem de nós, não pelo contrário, talvez seja esse o segredo. Mandar manguito todos os outros a sua volta. Também porque é, e sempre ser-me-á, difícil dizer-lhe o quê, quando e como fazer para ser feliz, porque nós não estabelecemos absolutamente nenhuma regra, apenas vivemos cuidando um do outro e ambos da nossa criação. E se nos perguntar porque fazemos isso nenhum de nós saberá explicar, mas a verdade é que nenhum de nós subiria num poste de alta tensão para que a entidade sobrevivesse, nenhum! ponto final.

 


Contactos

Tef: +258 21 313517/8

Email: opais@soico.co.mz
Local: Rua Timor Leste, 108 Baixa
Maputo- Moçambique