Esta é a cor dos meus sonhos

Esta é a cor dos meus sonhos

“Um dia encontrei inopinadamente em Maputo um velho amigo do liceu, o programador cultural, curador e ensaísta António Pinto Ribeiro, responsável pela criação da página online da Fundação Calouste Gulbenkian sobre arte africana e ele confidenciou-me: ”As artes plásticas moçambicanas são as mais criativas do continente...”. O que lhes falta então para serem mais conhecidas? Condições materiais e institucionais que as dignifiquem e um esforço de divulgação que se transformasse em desígnio político.

Enquanto isso não acontece restam-nos vislumbres como a desta colectiva, por iniciativa do Franco-Moçambicano e do seu curador, o artista Filipe Branquinho, a qual nos permite farejar essa frescura do traço/cor que respira ou a do volume que pulsa e que magnetizam a percepção no encontro do olhar com as obras.

Em épocas como a nossa, de cruzamento de paradigmas e algo conturbadas pela descoberta de que a natureza também nos agride, revelação que o Covid tornou patente, acontece as pessoas perderem o rumo do que seja autêntico. Instala-se um marasmo que se estende à arte.

O que faz necessárias exposições como esta. Quando vejo reunidas estas obras de Celestino Mudaulane, Simione, Ndlozy, Ídasse, Carmen Muianga, Bata, Saranga e Pekiwa – uns nomes mais badalados e outros que tiveram menos oportunidades para expor nos últimos anos -, a impressão geral que me fica é a de que eles nos situam face a “um novo primitivismo”.

Não se aduza aqui qualquer atestado de menoridade (evitemos a polémica que conjuga a palavra primitivo), mas antes um franco elogio, pois pretendo frisar que, contra os sinais de esgotamento que emanam da prática de muita da arte contemporânea – a qual enredada no artifício do conceito se esqueceu da “inteligência da mão”, uma das causas para a sua crescente irrelevância ou para o seu confinamento na esfera de um cada vez mais autista “mercado da arte” – estes artistas devolvem-nos uma energia e um “sentimento de presença”, característica daquilo a que Walter Benjamin chamava a aura; qualidade que está muito para além das especificidades técnicas ou das virtualidades do acabamento expressivo, e antes nos sensibiliza para um novo diálogo com os processos que deixa acreditar ser ainda possível recomeçar tudo – que a arte como se vida se reinventa. Neste aspecto é absolutamente vital a pulsão anti-funcional que apresentam algumas destas obras, surreais, totémicas, espectrais.

Estamos de novo diante de uma arte que se manifesta de uma forma orgânica e em porosidade com a vida, e onde, o melhor da ancestralidade se funde com a soltura do moderno.

E é difícil querer melhor do que isso.”      

 

*Texto de apresentação da exposição DEP – Desenho, Escultura e Pintura.

 

 


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