Eusébio, Bigodes e Kasparov

Eusébio, Bigodes e Kasparov

O meu Avô materno era sócio ferrenho do Sporting (“Leão de Ouro”), teve 2 netos em 1957 que inscreveu imediatamente como sócios do Sporting, e aparecemos ainda com foto de bébés no jornal do clube, sob o título: “Os Leões do Futuro”! Com o tempo, o meu primo continuou do Sporting, enquanto eu virei Benfica. O meu Avô não aceitava isso, mas rendeu-se quando aos 6 anos nos ofereceu 2 bicicletas, uma era verde e a outra vermelha!

Mas, porque era, e ainda sou do Benfica? A resposta liga-se a Moçambique através do Eusébio! Lembro-me quando aos 5 anos, em 2 de Maio de 1962, assisti pela televisão à 2ª final, memorável, da Taça dos Campeões Europeus, ganha pelo Benfica por 5-3 ao penta-campeão Real Madrid (glória que creio nunca se repetirá…), com 2 golos do Eusébio. Era um jogador extraordinário, que fazia jus à alcunha de “Pantera Negra”, sim, o Cristiano, ainda é o melhor do mundo (uns dizem que é o Messi…não concordo), mas, para mim, nunca haverá ninguém igual ao Eusébio (!), com a capacidade de drible, arranque e sprint duma verdadeira pantera, a força e a coragem quando era alvo de imensa pancada pelos adversários sem outra alternativa para o pararem, não esquecendo o “pé-canhão”, enfim, inesquecível. Recordo igualmente outro jogo célebre no Mundial de Inglaterra, em 1966, com a vitória por 5-3 sobre a Coreia-do-Norte em que ele marcou 4 golos, indo sempre buscar a bola ao fundo da baliza depois de os marcar, pois aos vinte minutos já estávamos a perder por 3-0. No início dos anos 70 ainda me lembro quando “pisámos o mesmo relvado (…)” num 10 de Junho no Estádio da Machava, onde fiz ginástica pelo Liceu e em seguida ele jogou pelo Benfica. E, também por volta da mesma altura quando em Xipamanine (perto da Mafalala) joguei com o meu Pai (que era bom de bola) e uns miúdos perto do mercado. Era realmente uma “Lenda Mundial”, em Janeiro de 2014, por ocasião da sua morte, o China Daily dedicou-lhe uma página inteira na capa traseira, com uma foto linda de uma criança em frente da sua estátua na Luz.

Voltando ao Liceu (Normal Salazar de acordo com o diploma), quando aí ingressei em 1969/70, na turma A do 3º ano, creio que era o único que vinha de Portugal (Continental) estando a turma formada desde o 1º ano e já todos se conheciam. Era a melhor do 3º ano, mas também a mais irrequieta, e barulhenta dependendo do professor, de tal maneira, que havia uma professora de Física (conhecida por: “A massa específica do Álcool”…) que nos dizia: “É incrível como na aula anterior na sala ao lado não aguentava o vosso barulho, e agora parecem uns anjinhos caladinhos (…)”, os meus colegas riam-se para dentro pois conheciam bem os professores. Fui um bom aluno nos 2 anos anteriores no Liceu de Oeiras, e apercebi-me que esta turma era de alto-nível, com muito bons alunos apreciados pelos professores, apesar de ser um estranho isso motivou-me bastante. Tudo mudou, com a cadeira de Ciências Naturais (Zoologia, Mineralogia e Botânica), com o professor Ruivo Martins (bem conhecido pelo seu rigor), quando se realizou o único “ponto” (teste) do primeiro período, antes do Natal. Como já não tinha mais aulas connosco, entregou o “ponto” à saída de uma outra aula. Encostou-se às grades de um dos corredores que dava para o pátio, à porta da sala, e nós rodeámo-lo enquanto ele com os “pontos” agarrados ao peito ia chamando um-a-um por ordem decrescente das notas, à medida que ia avançando eu ia ficando mais nervoso pois não era chamado, até que chegou ao fim e ficou só com um “ponto” na mão e virou-se para mim: “Rui Martins, não tem vergonha de ter uma nota destas?”, sinceramente, eu não sabia onde me havia de meter, se houvesse ali um buraco enfiava-me nele…então, pega no “ponto” e diz: “Tome lá isto…”, eu peguei nele e coloquei-o junto ao peito, e ele volta a dizer: “Então não vê a nota?”, eu todo envergonhado lá olhei e achei estranho pois a nota era “Muito Bom!” (e com o ponto de exclamação…), ele aí diz de novo (em alto e bom som): “Estão a ver, sigam este exemplo, tem tudo certo, parabéns!”, a partir daí “fiquei em casa” e passei a ter a alcunha do “Bigodes”, pois era um dos únicos a começar a ter bigode e barba, os quais ainda mantenho agora. Os 5 anos que aí passei foram dos melhores da minha vida, tínhamos muito bons professores e há histórias engraçadíssimas, refiro apenas mais duas. Um professor de História (Heliodoro Frescata) deu a Revolução Francesa numa aula (…), pediu a um colega para ir para o quadro e ditou-lhe um esquema com chavetas, parêntesis rectos e curvos que encheram o quadro todo, quando acabou perto do fim da aula disse: “Está aqui tudo, como vêem é fácil, agora estudem!”, e tinha razão. Por fim, a professora de Organização Política e Administrativa da Nação, no 7º ano (3º ciclo), apresentou as Constituições de 1911 e 1933, e dizia que esta última era a melhor Constituição do Mundo (!...), entretanto, dá-se o 25 de Abril, e nunca mais apareceu às aulas e não tivemos nota nessa cadeira, pelo que o meu diploma, que deveria ter as notas de 6 cadeiras, extraordinariamente só ficou com 5.

Uma das coisas boas da vida em LM é que era tudo perto e podíamos estudar e fazer desporto e o Liceu providenciava um bom ambiente integrado para actividades extra-curriculares. Apesar de um bom desempenho nos estudos, até me chamavam “Marrão” (…), no desporto apenas me divertia…Pratiquei Andebol pelo Liceu, Natação (nos Velhos Colonos), Basquetebol nos Júniores da Académica, Xadrez pelo Liceu e privadamente com um amigo, e ainda tocava piano…lembro-me de um colega, Miguel Soares, que foi Campeão de Portugal em Ténis, mas, aqui vão duas estórias giras no Basquetebol e no Xadrez. Treinei 2 anos Basquetebol, entre 1971 e 1973 na Académica de LM, sendo os treinos na Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra, onde conheci brevemente o Prof. Veiga Simão, primeiro Reitor da Universidade de LM e que encontraria mais tarde em Macau. Eu era baixo (1.67m) e mais novo em comparação com os outros juniores, uma das melhores equipas locais, tinha começado há pouco, e no primeiro jogo da época fui para a bancada com o meu Pai no pavilhão do Malhangalene. Quando faltavam 15m para o jogo começar o nosso treinador [Richard Almstedt, Americano que jogava nos Séniores e tinha 2.14m, eu dava-lhe pelos calções (!), voltarei a ele mais tarde] vem à bancada e diz: “Rui, vem equipar-te”, fui para o balneário e arranjaram-me umas botas e um equipamento enormes, mas lá completei o 5 inicial (a equipa tinha só craques, um pouco indisciplinados e chegaram tarde ao jogo) e joguei a 1ª parte toda. O Richard tinha-me dito apenas para cortar as bolas que conseguisse e fizesse o máximo de faltas possível sem chegar às 5, pois não tinham mais jogadores…, e assim fiz, cheguei ao fim da 1ª parte com 4 faltas e ainda atirei uma “ganchada” ao cesto de longe que falhou. Mas, 2 efectivos chegaram no abençoado intervalo pelo que pude passar a 2ª parte descansado no banco, missão cumprida! Ainda participei em mais uns jogos nessa época e na seguinte, mas nunca mais fui efectivo. Assim começou e acabou uma “carreira fugaz e fraquinha”…Quanto ao Xadrez, lembro-me bem do “Match do Século” entre o Bobby Fischer e o Boris Spassky, em 1972, e numa “réplica” do mesmo, como curioso, joguei com um dos meus colegas mais chegado, ainda hoje grande amigo (o Nuno Pinto, que era um estudioso e até chegou a ter uma norma de mestre internacional por correspondência), escusado será dizer que em 20 partidas eu só consegui empatar uma ou duas, mas o interesse levou-me a comprar um livrinho e a estudar umas coisitas, de tal modo que representando no ano seguinte o Liceu, vencemos a equipa da Faculdade de Economia da Universidade de LM, sendo uma das poucas vitórias a minha, ainda hoje estou para saber como. Este interesse pelo Xadrez, que mantive sempre, estimulou-me a co-organizar já na Universidade de Macau uma partida entre o grande Garry Kasparov, um dos melhores xadrezistas de todos os tempos, na primeira visita que ele fez à China, em 2012. Jogou com a Campeã Júnior de Macau, que tinha ganho 2 Campeonatos na China, escolhida após negociação com a Associação de Xadrez de Macau. O jogo durou 1h e 45m e foi equilibrado (a jovem bateu-se bem) durante 1h e 43m até o Kasparov em 2m resolver o jogo a partir duma vantagem nula. Creio que esteve a fazer “render o peixe” para criar suspense... Um pormenor, o tabuleiro de xadrez tinha peças projectadas especialmente por um Pintor e Escultor Russo, Konstantin Bessmertny, radicado em Macau, o que levou Kasparov a dizer: “After 44 years of playing chess, only today, when I saw this amazing chess board, did I realize the importance of the chess pieces!”

Rui Martins

Macau, 1 de Outubro de 2020
P.S. – Escrevo no Dia Nacional da China e também dia de anos duma das pessoas mais importantes da minha vida. A Benedita, minha mulher, que faz 60 anos, e que também andou no Liceu, foi colega da minha irmã mais nova, e aí a conheci. Por uma grande coincidência do destino, quando regressou a Portugal, em Setembro de 1974, foi viver temporariamente para casa dum Tio, perto de nós em Paço de Arcos, e desde há 46 anos que a nossa vida tem sido em comum com quase 40 anos de casados! Praticou Atletismo no Desportivo de LM, e corria bem com barreiras, tendo obtido boas marcas nacionais, nos infantis e iniciados, esta sua experiência tem sido importante para ultrapassarmos muitas “barreiras” difíceis na nossa vida.

 


Contactos

Tef: +258 21 313517/8

Email: opais@soico.co.mz
Local: Rua Timor Leste, 108 Baixa
Maputo- Moçambique