Explicação da Páscoa


XIPIKIRI

O calendário sorriu, marcava sexta-feira. Jesus largou o expediente. Desapertou, sem cerimónia, a gravata. Saiu do escritório antes da hora, sem despedir. A semana toda se concentrava na goela. A saliva raspava a garganta. Sentia uma sede incontrolável que lembrava os mais originais anúncios de cerveja. Sob o burburinho do trânsito já ouvia o coro clássico da música de copos a encherem-se de espuma. Decidiu passar por casa, para roupas mais cómodas e menos suadas. Madalena, a mulher de Jesus, pilotava um fogão a gás de três bocas. Com uma colher de pau comandava uma panela e dava ordens ao caril de amendoim. A mulher desconfiou:

– Vieste cedo.

Demorou a desenrolar o novelo emaranhado das respostas que os homens dão às sextas-feiras. Dizia palavras-chave como “meeting”, workshop. Madalena dobrou o sobrolho. Algo lhe fugia do sentido.

– Reunião? Sexta-feira a esta hora?

Jesus demorou com a fivela da sandália, ganhando tempo para raciocinar. Falou-lhe de team building, e outros termos em língua distante, de modo que Madalena se encurralasse com as perguntas.

– E vais de sandálias?

Assegurou o aperto das calças jeans. Lambeu o desodorizante roll on nos pêlos rebeldes das axilas. Mergulhou numa túnica. Tudo à velocidade de se manter ocupado e com a demora construir respostas cabíveis. Fez cara de reunião e atirou palavras mais fortes como stakeholders, partnership, join venture. Mexeu, teatralmente, alguns em papéis. Falou de doadores e da crise. A panela dançava sobre o fogão de três bocas, ao ritmo das volutas com que madalena remexia o caril de amendoim. Estava calada. Engana-se quem pensa que o silêncio de uma mulher é de resignação. Ela cala-se para te deixar escorregar, enrolares-te até te entregares sozinho.

Jesus reparou na chama azul do fogão a gás a amarelar-se, anunciando o fim da botija. Foi à carteira e trouxe um maço de dinheiro discreto, mas gordo para os tempos de crise e muito para o que maria madalena se habituara. Com aquele gesto que rebenta com o argumento das mulheres, disse:

– Toma, é para pão, energia e gás e cabeleireiro.

A desconfiança aumentou. Madalena intensificou os gestos circulares de pilotar a panela de caril de amendoim. A capulana agitava-se com os gestos. A mulher manteve-se calada como fora instruída na preparação para o lar. De túnica e sandálias, com uma pasta a tiracolo, outra na axila e estilo executivo, foi para onde os homens vão às sextas-feiras (e eu não posso, obviamente, revelar aqui).

Mergulhou na sexta-feira, de tal forma que quando deu por si já era domingo. Voltou para casa, dois dias depois, Madalena sempre no fogão, fritava badjias. Jesus rebuscou uma explicação dramática, convincente. Dizer que fora arrastado, crucificado, espancado, morto e só ressuscitou naquele domingo, seria demasiado óbvio. Preferiu dizer que foi a polícia, estava detido por conduzir embriagado e só fora solto naquele dia. Mal terminou a explicação esfarrapada, com hálito à sexta-feira acabada em domingo, viu a frigideira de óleo quente a voar-lhe para a cara. E assim, frito, feito badjia, Jesus passou pelo hospital e foi parar ao céu.

 


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