Farinha e Electrónica

Farinha e Electrónica

E a saga continua (…), após os 2 artigos anteriores que escrevi por acaso mas que teimam em ser muito populares, o primeiro de há 2 semanas com mais de 1000 visitas (online) e o desta semana já com mais de 300 não tenho outro remédio senão continuar até ver onde chega a minha capacidade de contar estórias pois não é mais do que isso. Várias pessoas me têm pedido para escrever sobre isto ou aquilo e depois de o meu cérebro ter tratado tudo como uma espécie de centrifugadora de sumos nos últimos dias vou continuar a história da família Martins entre a farinha e a electrónica que por causa da aventura africana se espalhou por 3 continentes, ou melhor, 4, pois de forma intangível continuamos sempre ligados a África!   

E, a aventura africana, como lhe chamo, serviu para abrir as nossas mentes para o desconhecido, pois desde então e apesar de termos regressado a Portugal voltámos a sair de novo agora para o resto do Mundo. Mas, voltemos um pouco atrás, uma das coisas que sempre me fascinou foi a capacidade inventiva humana de construir obras fantásticas que projectadas e iniciadas por uns depois servem imensas gerações, e, em Moçambique, gostava de salientar 3 que me marcaram e a toda a família, a fábrica de moagem na Machava, o Liceu em LM (Maputo) e a barragem em Cabora Bassa (ou Cahora Bassa). Quanto à moagem, inicialmente em 1969 era a Socimol mas agora é a Merec Industries e apesar de serem empresas diferentes, 50 anos espaçadas no tempo, continuam a produzir a mesma farinha (de trigo) de qualidade, a Babita. Aliás, convém referir aqui, que foi precisamente um vídeo promocional da empresa actual designado por “Receitas Merec - Bolo de cenoura a Babita”, com o Chef Rogério Matusse (brilhante, por sinal), que me deu a ideia de escrever o primeiro artigo! Sobre isto, apenas 2 pequenas curiosidades, por um lado, já depois de escrever os artigos anteriores investiguei melhor a Merec Industries e fiquei impressionado com a sua capacidade e qualidade que está bem na linha das suas origens, pelo menos no que diz respeito à Machava e à Socimol, pois a empresa está também na Beira e Nacala, e continua a dispor de tecnologia state-of-the-art da Buhler (Suíça). Por último, referi anteriormente o Benjamim Cacho e o meu Pai na origem da Babita, e como o descrevi até pareceu uma tarefa fácil, mas na realidade o projecto foi muito difícil e como todas as obras pioneiras esteve em risco de não se concretizar pois depois de muita insistência junto das autoridades nacionais o Benjamim Cacho esteve para desistir após muitos anos porque, devido à influência de fortes interesses (como sempre…) a exportação/importação de maquinaria inovadora e de ponta revelava-se como missão impossível, no entanto um governante da altura (Silva Cunha) conhecendo o projecto e as dificuldades encontradas foi o próprio a telefonar de Lisboa ao Empreendedor Moçambicano a quem disse: “Ó Cacho você vai ter a sua Fábrica”!

Deixando para já a farinha para trás, surge então o Liceu que quando lá estudei (1969-1974) se chamava Nacional Salazar e agora Josina Machel, e que ao tempo da construção nas suas novas instalações em 1952 era o maior e o melhor em todo o país (e um dos maiores em todo o mundo) e que ainda hoje é a maior escola de Moçambique em número de alunos e em dimensão física. Com uma grande área coberta, o que impressionava eram as várias alas do edifício, e a quantidade de equipamentos de apoio, como os salões de festas e de jogos, os ginásios, a biblioteca, a piscina coberta com características olímpicas, os balneários com mármores, sala para projectar filmes, sala de música e cenário de teatro, máquinas para trabalhos manuais, oficinas de cerâmica, rádio-amador, etc. Mas para todo este “hardware” funcionar era preciso o “software”, ou seja, os professores e também os alunos, e também aqui estava bem apetrechado havendo algumas estórias interessantes para contar, talvez num próximo artigo. No entanto, o interessante a destacar neste momento é a sua importância ainda hoje, e quando se consulta a informação do liceu verifica-se que todos os presidentes moçambicanos até agora aí estudaram, tendo sido um deles em particular o primeiro aluno africano (negro) do Liceu em 1951, Joaquim Chissano. E, aqui há uma estória interessante que liga o passado com o presente, em 1998 quando o Presidente Chissano visitou Macau, ainda durante a Administração Portuguesa, foi decidido atribuir-lhe um Doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Macau, e era necessário fazer o “Elogio do Agraciado”, pelo que, sendo o único Vice-Reitor e falando Português tive por missão escrever e ler o texto na Cerimónia. Apesar de ter sido uma grande satisfação e também uma grande honra a indicação para tal tarefa, esta transformou-se rapidamente em pânico pois, o que é que iria eu, ainda um jovem académico, escrever sobre o Presidente dum País. Deitei mãos à obra, e comecei por ler a sua biografia, ao fim da primeira frase fez-se luz e tudo se tornou imediatamente fácil, tínhamos andado no mesmo Liceu! Depois, foi deixar apenas correr a pena, e o elogio (sobre o qual falarei noutra oportunidade) surpreendeu a audiência e nomeadamente o Presidente Chissano pois quando referi isso olhou para mim espantado e agradado com o que ouviu, e desde esse momento como ex-alunos, ficámos amigos. Já mais recentemente, em 2015, quando o Embaixador de Cabo Verde em Pequim, na China (Júlio Morais), visitou Macau e se deslocou ao meu gabinete para falarmos sobre os alunos desse país a estudar na Universidade de Macau, estava sentado ao meu lado e olhou para a parede onde viu o meu Diploma do Liceu que tenho gravado em cobre cinzelado e a cores (técnica especial de um latoeiro/gravador Chinês que em tempos teve aqui uma loja de taças e medalhas para desporto) e disse-me: “Também andou no Salazar?”, respondi que sim, de 69 a 74, e ele de novo: “É Pá, então andámos lá na mesma altura” (é 1 ou 2 anos mais novo), acabou-se assim o formalismo entre nós.

Continuando, em direcção à Electrónica, surge então a Barragem de Cabora Bassa, no Zambeze, que por coincidência também do destino, foi construída precisamente entre 1969 e 1974, tendo eu, jovem entre os 12 e os 17 anos ficado fascinado com as diversas fases da evolução da construção desse grande empreendimento. E, não era para mais, pois tratava-se (e ainda é hoje) da maior barragem hidroeléctrica em volume de betão construída em África, sendo a sua albufeira a quarta maior de África, para além disso em termos de produção anual de electricidade é a segunda Africana com 2.075 TeraWatt-hora a pequena distância da primeira, a de Assuão, no Nilo, com 2.100 TeraWatt-hora, esta construída entre 1967/70. E, na altura, apenas mais uma meia-dúzia existia em todo o mundo, com estas dimensões, nos Estados Unidos, Rússia, Canadá, Brasil, Venezuela e Roménia/Sérbia (rio Danúbio). Esta barragem continua ainda hoje a ser o maior produtor de electricidade em Moçambique, abastecendo também a África do Sul, o Zimbabué e poderá no futuro servir também o Malawi. Uma curiosidade, quando procurava alguns dados da barragem deparei-me com esta preciosidade. “Kahoura-Bassa” na língua local significa “Acabou o Trabalho” numa alusão ao facto do rio não ser navegável a partir desse local…Mas, dirão, o que é que a barragem tem a ver com a electrónica, aquela apenas produz electricidade transportada em “correntes fortes” e não em “correntes fracas” como esta. Pois, por isso mesmo, nessa altura, um dos que passou a ser um dos grandes amigos do meu Pai e também de toda a família Martins, o José (mais conhecido por “Zeca”) Tavares, genro do Benjamim Cacho e pai da famosa Babita, era agente técnico de engenharia (agora engenheiro técnico) de electricidade “correntes fortes” trabalhava na Companhia de Caminhos de Ferro de Moçambique, e tinha um comboio eléctrico (com correntes já mais fracas, controlado por electrónica…) no meio de um ambiente fantástico, muito parecido com a realidade, na cave da sua casa, com o qual eu com 12 anos me deliciava. E, nesse momento, tinha iniciado o 3º ano do 2º ciclo do antigo liceu (actual 7º ano), e encontrei algumas dificuldades na Matemática, por causa do aparecimento na matéria de uma coisa diferente, os números relativos, ou sejam, positivos, negativos e o zero, o que é sempre uma coisa completamente nova para qualquer jovem, é como uma mudança de paradigma, o mundo deixa de se mover numa só direcção… O meu Pai quando lhe falei no problema disse-me, vamos falar com o Zeca, ele deve perceber disso, e assim foi, ele disse-me: “Rui, arranjas o Palma Fernandes (o famoso livro de exercícios de Matemática), compras 5 folhas de papel almaço com quadradinhos e fazes os exercícios todos, quando tiveres dúvidas perguntas-me, ok?”. Eu nem sabia o que dizer, mas pensei, afinal não me vai ensinar nada (…), mas assim fiz, e às tardes ia para a cave da casa dele junto do comboio (que me inspirava sempre) e enchi folhas e folhas de papel almaço com os exercícios, de vez em quando tirava dúvidas com ele, que me ajudava sempre, e, em 2 ou 3 semanas acabou-se o mistério, a partir daí como se costuma dizer “foi sempre a abrir”: Matemática, Física,  Química, Geometria Descritiva, etc., nunca mais parei!

E, em conversas com o Zeca Tavares acompanhei de perto e deslumbrei-me com Cabora Bassa, a electricidade, os primórdios da electrónica no comboio, e assim surgiu a vocação para estudar Engenharia Electrotécnica, a paixão pela Electrónica veio mais tarde!

Rui Martins.

Macau, 25 de Setembro de 2020

 

P.S. – Escrevi este artigo no dia em que o meu Avô Materno (Carlos, baptizado por mim como Vô Tá) faria 111 anos, ele adorava os netos, assim como nós o adorávamos a ele, e eu, em especial, faleceu em 1967 na manhã do dia em que fiz o exame de admissão aos liceus (nessa altura fiz 3 exames, da 4ª classe, admissão aos liceus e admissão à escola técnica), mas a minha Mãe só me deu a notícia depois do exame, para não me perturbar antes pois sabia da nossa forte ligação. Se ele fosse vivo em 1969 estou certo que não nos teria deixado ir para Moçambique…

 

 

 


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