Fernanda Angius: “és homem, não te esqueças”

Para a Fernanda, como diria Glória de Sant’Anna,

“daqui te vejo não te vejo sinto”

 

A mulher: do século passado, rósea, olhos de sono e um sorriso vivo (com um fundo de tristeza). Idosa. Sua carne eram pétalas de lírios demoradas ao sol, seus braços e pernas oscilavam, o cabelo era de prata mas de seu coração não fluía sangue: um elixir de juventude abastecia as suas veias.

Eu tinha uma máquina de fotografar da Samsung, modelo ST150F, que comprara em Zhongguancun, o vale do silício de Pequim, e antes de ela desaparecer como Houdini, do meu quarto-escritório, alimentei a ideia de ser um fotógrafo amador, de tal modo que coleccionava todas as fotos que fazia. Descobri há dias – por mero acidente –, no meu HD, um arquivo de 24 Maio de 2014. Muitas fotos. É uma data especial. Estamos num restaurante, na Feira da Cidade de Maputo, Fernanda Angius está sentada e eu tenho o queixo sobre a sua cabeça (ela tem uma franja à Clark Kent), com as mãos sobre os seus ombros. Ela sorri e tem as bochechas afogueadas, com os olhos pouco abertos. Os meus olhos brilham, reflectem o flash, pareço um vampiro; a minha face esconde um sorriso (eu sorria pouco naquela época). É noite. É um jantar de despedida, no dia seguinte, Fernanda Angius, a professora, voaria para Lisboa (ela tornaria em 2015, acompanhada pelo escritor galego João Guisan). Depois do jantar ainda bebemos um café no “Sabor do Sempre”: ela, eu, os escritores Hosten Hassine Ali (acompanhado pela sua esposa Tânia e a amiga Leonor, um frustrado interesse romântico meu), e o Alexandre Dunduro, que era meu melhor amigo.

Conheci a Fernanda Angius em 2011. Eu andava a escrever a minha monografia e procurava melhorar a minha qualidade enquanto escritor. Os meus dois primeiros livros estavam para sair, pela editora Alcance, mas eu tinha um romance que tinha acabado de escrever, “O Timbre dos Demónios”, que achava ser uma proposta literária diferente das que se produziam em Moçambique, e queria que o lessem. Enviei o original, por email, para meia dúzia de pessoas que eu sabia estarem ligado à literatura e aos livros. Recebi apenas uma resposta, do Matteo Angius, que chefiava, então, a biblioteca do Instituto Camões. Estava assim escrito, em resumo: “[…] Li algumas coisas e gosto muito. Eu não te poderei ajudar, mas conheço alguém que te poderá ser útil. Apareça no Camões amanhã! Abraço.”

No dia seguinte ao email, fiz-me ao Camões. Passava pouco das duas da tarde. Anunciei-me na entrada da biblioteca e disseram-me para subir uma escada enroscada, até ao topo (eu sempre tive maus pensamentos com escadas em caracóis). A portinhola de ferros estava aberta e, logo adiante, estava Fernanda Angius, com os olhos encapsulados nos óculos a fulminarem a tela do computador. Na mesa de trabalho, dezenas de livros. Espalhados pela sala, outros tantos livros e uns dicionários quase do tamanho da minha cabeça.  

– Sou o Lopes Rita – disse eu, muito tímido. Pela aparência e pelos óculos, ela pareceu-me muito velha e eu duvidava que uma “velha” como ela pudesse sacrificar o seu tempo para ajudar-me. – O Matteo…

– Sim, o Matteo falou-me de ti. Senta-te aí por uns minutos, estou só a terminar um parágrafo que estou a traduzir.

O Matteo era um indivíduo que parecia ser de outra galáxia e eu não sabia justificar o meu instinto. Ele nasceu em Cagliari, era italiano mas era português e moçambicano também. Não sei, era o que me dizia o instinto. Eu conhecera-o em 2010, quando venci o Prémio Lusofonia, do município de Trofa. O Matteo era o elo com a organização e, durante seis meses, torturei-o com o “Quando é que pagarão o prémio?”. Foram mil euros bem gastos (comprei o meu primeiro computador com parte do dinheiro). Com o tempo, descobri que o Matteo, sempre muito prestativo e um amigo que aprecio até hoje, tinha participado da fundação da biblioteca do Instituto Camões, ajudado a criar a Associação Moçambicana de Língua Portuguesa e escrito um livro, às meias, com Fernanda Angius (“O Desanoitecer da Palavra”, sobre a obra do Mia Couto). Para a minha surpresa – e disso saberia depois de meses de convivência com a Fernanda Angius –, eles tinham sido “marido e mulher” durante 15 anos (eis uma história improvável de um intenso e intelectual amor que eu muito gostaria de escrever, um dia).

Motivada pelo alento de voltar a alumiar caminhos e discutir literatura (ela tinha sido leitora do Camões em vários países africanos e professora de português em Maputo), Fernanda Angius iniciou as “oficinas de escrita e escrita criativa”. Com a Fernanda – que era uma académica da língua e da criatividade –, eu aprendi a ouvir o texto, a estética dos embrulhos das palavras, a aceitar que boas ideias originavam, também, maus textos e que, principalmente, era preciso ler. Eu não tinha sonhos literários, queria apenas escrever e tinha uma sede urgente. (Alguns anos depois, a Fernanda dir-me-ia: “Se não escreveres, morrerás à míngua”). De sua mão conheceria, então, vários escritores, dentre eles, Virgílio de Lemos, Eugénio de Andrade, Breyner Andresen e, o seu preferido, Miguel Torga (os diários, o poema “Sisifo” e os contos de os “Bichos”). Uma minha namorada, da época, viria até a criar ciúmes, pois eu partilhava muito do meu tempo com a Fernanda e os livros. Depois, as oficinais de escrita passaram a receber outros artistas (muito deles em início de carreira), com os quais me cruzava entre os horários, os fundadores do Movimento Literário Kuphaluxa (Nelson Lineu, Japone Arijuane e Eduardo Quive, sobretudo), a Hirondina Joshua, o M. P. Bonde, Chagas Levene, Mbate Pedro, Hosten Ali, entre outros.  

A Fernanda costuma chamar-me de “seu primeiro menino”. A verdade é que, falando com rigor, eu já gostava de escrever e tinha livros escritos e certo reconhecimento (dos prémios) quando a conheci, mas, depois do meu avó – que me ensinou a contar histórias –, ela foi o meu primeiro “mestre” não virtual, e não hesitei em dedicar-lhe o meu terceiro livro, o “Viagem pelo mundo num grão de pólen”.

Em meados de 2012, eu parti para Pequim, com uma bolsa de estudos, e só voltaria a reencontrá-la em Novembro de 2013, nas vésperas da apresentação do meu segundo livro, o “Kanova e o segredo da Caveira”. Em Fevereiro de 2014, ela apresentou o livro “Viagem”, ilustrado pela Filipa Pontes. Voltaria a estar com a Fernanda, pela última vez, em 2015, mas eu andava tão ocupado com as aulas na universidade que quase não lhe dedicava tempo. Antes de ela partir para Lisboa – ela costumava vir a Maputo na época do verão africano –, fomos para um restaurante comer: ela exigiu que pagasse, pois tinha dinheiro e, porque se sentia velha, era capaz de morrer com os centavos que lhe sobravam. Discutimos, eu já era assalariado e queria mostrar alguma serventia, mas ela foi dura.

Há já quatro anos que não vejo a professora. Ela vive em Portugal e não anda tão viva, valente e voraz ao ler os textos como antes (e já não lhe envio os meus originais). Por vezes dá um trambolhão num corredor e torce o braço, e depois faz um trimestre de fisioterapia. No banho, uma vez, escorregou e machucou a testa. A solidão e os livros perseguem-na, escreve as suas memórias e o computador, amaldiçoado, faz uma formatação voluntária. (A brincar. Por falar em computador, se estivéssemos num século igual ao do “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury, o aconselhável seria fazer o download do cérebro da Fernanda e criar uma inteligência artificial). Ela vive online, manda notícias, escreve e comenta no Facebook e costuma, quando consegue, fazer parte do júri de algum prémio literário.

Como qualquer homem, apenas homem, Fernanda Angius é falha e não reúne consenso. Diz-se, por exemplo, que ela terá dito que “Ensinei alguns [moçambicanos] a escrever!”, o que é um completo absurdo, até porque não se ensina uma pessoa a escrever, não como as máquinas de “1984”. Por exemplo, a maior lição que aprendi dela nem sequer foi literária, é uma lição – se calhar – mais velha do que o novo testamento: “As aparências enganam”. A Fernanda Angius, de aspecto muito simples, tem o coração maior que todas as fronteiras possíveis. Mas eu sou o seu “primeiro menino”, não o nego. Ela ajudou-me a melhorar quatro livros, incluindo os primeiros quatro capítulos de uma versão ingénua de “O Timbre dos Demónios”, publicado em 2018 com o título “mundo grave”. (Em 2012, depois de alguns meses de oficina de escrita, decidi que não publicaria o meu livro de contos “Setenta vezes sete e outros contos”, que já ia a imprimir. A editora, a Alcance, fez um drama e ficou por aí. Três dos contos tinham merecido um terceiro lugar no “Prémio João Dias”, mas eram de muito mau gosto).

Quando comecei a escrever este texto, eu mal sabia qual era o seu propósito ou limite. Mas não me importei. “Talvez não o leiam”, cheguei a pensar. A conclusão é triste. O texto inteiro é triste e atulhado de um saudosismo pastoso. Acreditava que fosse a ser um pequeno ensaio sobre naturalidade e maturidade literária, mas saiu-me em desacerto.

Ontem vi o último filme do Clint Eastwood (na direcção e no papel do personagem principal), “The Mule”, cuja mensagem implícita é “A família é tudo”. A película não é de causar choro, mas instiga à reflexão. No fim, pensei na Fernanda, nos seus sacrifícios em nome do amor, os livros e o Matteo. Eu vivo em torno das palavras. Iniciei uma viagem de destino desconhecido. Uma sombra. Um planeta. Um verso perdido na infância de um adulto. Faço sacrifícios. É a vida. Não há depois disso.

Há quem olha para mim e não vê debaixo da minha pele. Não vê a Fernanda Angius. Ignora o desconcerto dos sonhos. Nessa coisa de escrever livros, como sibilou Eduardo White numa carta dirigida a Marcelo Panguana, “há ruídos a trabalhar dentro de nós como relógios a abaterem”. Em mim, há a Fernanda Angius.

“És homem, não te esqueças” é um verso do poema Sísifo, do poeta português Miguel Torga (1907-1995).


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