Fernando Manuel, «O HOMEM SUGERIDO»

Amo-te cidade da infância
com girassóis e casas de madeira e zinco
a dormir na neblina da memória.
Rui Knopfli

Ao Fernando Manuel, obviamente
e ao Ferdinando M. Torres

Bem vistas as coisas aquele foi o primeiro convite que recebi dos chamados jornais independentes da praça. O que me impressionou foi a saudação trocada com a voz doutro lado da linha:
-    Bom dia, sr., como está?
-    Estou bem, obrigado. E a senhora?
-    Eu estou bem, não sei a parte. O senhor Naíta Ussene precisa de falar consigo aqui no jornal. – Aceitei sem entrar em detalhes da parte...

Este episódio poderia ter acontecido num fim de tarde de um dia qualquer, mas foi numa terça-feira, precisamente.

Antes de enfrentar a redacção daquele semanário, demorei apreciando livros de um alfarrabista  expostos no chão, aplaudindo, em silêncio alguns títulos soberbos de escritores que marcam a vida literária mundial.

Antes que fosse tarde, fiz por cumprir aquela missão, usando o passeio do lado da avenida Agostinho Neto. Ao entrar na redacção deparei-me com o ilustre jornalista Fernando Manuel, como sempre o imaginara, há anos. Naquele dia pareceu-me que estava ali sentado há muitas luas, bem ao centro na sua secretária farta de munições de alto calibre: um computador, com o ecrã virado para o lado, uma chávena carregada de café, recitando alegremente umas nuvens finas de quentura, uma garrafa de whisky, democraticamente próxima do seu tutor de ocasião, uma garrafa de água mineral, um montão de papés, ao que me pareceu recém-resgatados de um funeral adiado. Enfeitiçou-me aquele sorriso magicando levemente a bonomia e a graça nos olhos de Fernando Manuel, dono e senhor de si.

Naíta Ussene, apercebendo-se daquele olhar inquiridor do FM, como quem diz «por que será que este puto olha para mim deste jeito», o poeta da luz interveio, lesto e perspicaz:
-    Fernando aquí está o rapaz. Chegaste na hora certa, Celso!
-    Como vai, mestre! – saudei!
-    Estou bem, desde que foi assinado acordo de Paz. Mas deixa-te de tretas, oh rapaz. Estou bem desde que chegaste - atirou FM.
-    Vou assumir isso como um elogio. E vindo de quem vem posso até considerar-me um eleito.
-    De certeza que não precisarás de segunda volta. Aqui tens os papéis. Podes tomar posse agora. – rematou FM, num notável gesto técnico.

As palavras de FM despertaram em mim uma emoção especial, entre surpresa e susto por não poder manter uma traço firme no verbo a conjugar pus-me a dizer coisas.
-    Obrigado, Mestre. Precisarei de algum tempo para ler estas relíquias que resgatou, a tempo, do Museu do Cairo.

Como que a desmentir o sossego que tentei revelar, a atmosfera desfez-se ao sabor das  gargalhadas vindas de quase uma meia centena de bocas. Aquilo foi um estrondo de bradar os céus.

Apareceu, não sei de onde um mar de gente, o Armando Nenane, a Paola Rolleta, a Flávia Gumende, o Américo Pacule, a Emília Banze, o Eduardo Conzo, o Emílio Beúla, o Abdul Sulemane e muitos outros. Naquele momento reparei demoradamente num retrato, o sorriso luminoso do big Joe Chiziane na parede, por detrás da secretária do FM.  

Até há poucos dias não tinha entendido bem que truque foi aquele, mas o Pacule revelou-me os meandros daquela confraternização. Afinal havia aterrado na redação do semanário verde um enorme material bélico, por conta de um nome sonante da praça, por sinal aniversariante paredes-meias com do Mestre FM. E como tudo isto é maningue nice desatamos todos a desejar alto e bom som, saúde e longa vida ao bom do Fernando Manuel naquele fim de tarde, ainda solarento de 23 de janeiro, três dias após FM completar 60 anos.

Tempos, mais tarde rubricaram o livro, as presenças amigos e incontornáveis, como as águas do Índico, Ana Magaia, Joana Zambéze, Sérgio Santimano, Gabriel Mondlane, Ídasse Tembe, Magoene, Lénio Ussivane, Bartolomeu Tomé, José Pinto de Sá, os filhos de FM, o Júnior e Mauro Pindula.

Há dias Fernando Manuel publicou MISSA PAGÃ, a tão esperada colectânea de crónicas dos últimos 21 anos. Em conversa com o Mestre fiquei a saber que de entre muitos leitores, existe uma senhora que guarda no baú a colecção completa das crónicas publicadas na coluna MISSA PAGÃ do Savana. Isto é obra num país como o nosso, onde escasseiam leitores consequentes. FM falou-me ainda da sua paixão pela música. Ele fez parte do grupo Rock 79, alegrando as noites do Espada,com Betinho vocalista nas letras em inglês aldrabado, Fernando Manuel vocalista nas letras em Português e também no inglês macarrónico, como apelidara Hortêncio Langa, cantando « I`ga dreams to remember». Militavam ainda Arone Nhanala no viola baixo e Bay Salimo.

A mítica Mafalala, com os temíveis Coca-Cola, Gimo Two Batata, Matasete e outros é o Macondo deste nosso Gabriel Garcia Márquez nascido há 65 anos na Maxixe que, beneficiando-se do seu inimitável talento na crónica, pode, querendo, compôr a uma manta de retalhos e, reconciliar-se com os deuses do romance, publicando o tão esperado livro de marcha-longa de um furriel miliciano de outros tempos.

Fernando Manuel, músico, escritor, jornalista, professor de ginástica, dono de um talento só visto nos eleitos.

Esta é a foto-família, que nos é legada por Naíta Ussene, celebrando, o aniversário de Fernando Manuel, ou melhor, O HOMEM SUGERIDO desta edição. Celebrar Fernando Manuel, lendo os seus livros, é o mesmo que visitar um jardim carregado de flores, com o mesmo fascínio na descoberta e inevitável nostalgia de quem recorda. Aqui está o registo a preto e branco do Poeta da luz e sombra, companheiro de todas horas de FM, Naíta Ussene.

 

 


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