Grávidas de Matalane: o eco que subiu a montanha

"Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura" - assim diz o adágio popular. Não encontraria eu a melhor porta por onde entrar e mergulhar de cabeça na ferida colectiva que se abriu na pele emocional dos moçambicanos. De um lado, os instrutores, de outro, as instruendas, duas margens fictícias que ligam uma realidade de infinitas pontas. Água mole, pedra dura, ferida colectiva e pele emocional são os pontos-chave com que procuraremos vestir cada "i" dos "ismos" que caracterizam a dinâmica social da nossa pérola amada.

Ajeito o casaco sobre os ombros do pensamento e peço à minha sorte que ninguém ache que se esteja a fugir do tema em epígrafe. De modo algum, afinal, Matalane não é apenas uma Escola Prática da Polícia. Há um Matalane em cada esquina do nosso dia-a-dia, e em cada um, os instrutores são outros, assim como outras são as vítimas. Essa meia-palavra leva-nos a um inequívoco óbvio: vivemos num círculo vicioso. Mais detalhadamente: somos uma cobra com várias pontas. Por fim, a hipocrisia: gritamos, quando mordidos, como se o veneno que em outros expelimos fosse um mel costurado com santidade e benevolência.

Como se de uma selva se tratasse, na nossa sociedade salva-se quem puder. É aqui que se estende o tapete vermelho para o desfile dos "ismos" que, de cor e salteado, todos conhecemos. Do cabritismo ao nepotismo, passando por fanatismo, facilitismo, partidarismo, espezinhismo... e lambebotismo, ora evoluído ao culambismo, passe a expressão, encontramos o vírus que grassa em nós, cuja transmissão há muito se tornou comunitária em todas as esferas sociais. Exemplos são desnecessários, e tampouco suficiente seria o universo para acomodar tal profusão de lamentações.

Lamenta-se, e os gritos isolados, como fogo de pouca palha, sucumbem sempre na opressão do silêncio. E fazemos de conta que nada acontece. Nunca um caso de assédio sexual agitou tanto a nossa sociedade, ao ponto de deixá-la como barata tonta, como o escândalo de Matalane.

São legítimas todas as manifestações de repúdio, todavia é deveras incompreensível qualquer insinuação de espanto. A água mole já vinha batendo na pedra do sistema, em soltos gritos de socorro, que não arrancavam do chão o nosso coração social. O sistema instituído em cada circuito sempre soube abafar a panela de queixas ligadas ao assédio, fazendo arrefecer a dor e ignorando o trauma, com palmadinhas de conversa fiada e assistência doentia, isso às vítimas, enquanto os agressores, por vezes, agressores-vítimas, ou ficaram impunes ou receberam passaporte e foram parar para outra escola, outro hospital, outra esquadra, outra repartição, por aí fora. Desta vez, nada mais que isso, temos um eco que subiu a montanha.

Crónicas e debates voam como espadas de dois gumes, tentando derrubar o iceberg. Mas como vai ficar a real montanha da vergonha que todos, de maneira diversa, como vítimas ou vilões, ajudamos a erguer? Continuaremos tapando o sol do problema com as mãos da ignorância, até ao próximo grande eco? Talvez deva eu pegar uma calma, beber uma água fresca e perguntar ao nada o tamanho das nossas almas. Já dizia um poeta: "tudo vale a pena, quando a alma não é pequena" (Fernando Pessoa). É assim que dar dinheiro vale a pena, para uma alma tão grande, que não pode reprovar no exame ou ver apreendida a carta na via pública, que não pode cumprir a fila ou perder a causa. É assim que entregar o corpo vale a pena, para uma alma tão grande, que anseia protecção no trabalho ou cargo de chefia, que procura uma vaga ou boleia qualquer.

Dispensando binóculos, percebe-se que somos os autores e consumadores da falta de habilidade de muitos dos nossos condutores (o elemento pivô da elevada sinistralidade nas nossas vias), da péssima qualidade de alguns dos nossos graduados (o que concorre para a desvalorização do nosso ensino). Somos, igualmente, autores e consumadores da impunidade (alimentando a desacreditação da nossa justiça), da ascensão hierárquica imerecida (que afunda a gestão das nossas instituições).

Posto isso, percebemos que temos a faca e o queijo na mão, para um exercício que não cabe a alguém, em particular, mas a todos. Concertar como sociedade para consertar a sociedade, eis o desafio na linha da frente. Vamos sentar todos os cidadãos num anfiteatro nacional e falar de civismo, de decência, de patriotismo e meritocracia?

Nem mais, este é o "x" da equação! Precisamos de um lugar especial, onde caiba toda uma nação: a família. Nenhum adulto deveria-se afligir, como Nicodemos, e pensar em voltar ao ventre de sua mãe e nascer de novo. Basta pensar com neurónios certos, sacudir os traumas e comprometer-se a mudar. Esse é o passo anterior ao ponto crucial dessa novela, cujo final feliz de cada um depende: a educação das crianças. Afinal, é de cada lar que começa a comunidade, de onde se evolui ao distrito, à província e, por fim, à nação. O futuro agradece à decisão do presente, para o fim dessa cascata de podridão.

É isso mais gratificante que, teatralmente, punir os culpados de qualquer Matalane ou passar panos quentes sobre as suas vítimas. A ferida é colectiva. A pele emocional que se degrada é a sociedade. A verdadeira justiça começa em cada um de nós, no que oferecemos ou recebemos, na esquina onde só a consciência nos pode ver e fotografar.

Enfim, que seja feita a justiça!
 


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